O Efeito Foucault: desnaturalizando verdades, superando dicotomias



Michael Foucault deixou suas contribuições em diferentes domínios do saber. A psiquiatria, a justiça, a história e a medicina foram algumas delas. Ponto favorável a um pensador disposto a encarar a concepção do homem sobre a verdade.

Foucault discute não sobre as coisas que considera verdadeiras, mas o conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e as implicações em torno do estatuto da verdade e do seu papel econômico-político.

A ciência contemporânea se tornou excludente, pois constrói verdades específicas, que só podem ser geradas pelos cientistas da mesma área. É como se a ciência tivesse se monopolizado e disputassem entre elas como diferentes corporações em um mercado competitivo. Esse tipo de ciência excludente, isolada e separatista esquece ou ignora o fato que ciência de verdade, como método para se buscar a verdade com afinco, só pode existir se se abrir à interligação com outros saberes e admitir sua interdependência.

O próprio autor define o caminho de questionar a ciência como espinhoso e marginal. Pois aquele que questiona aquilo que é considerado uma verdade aparentemente sólida, está à margem da sociedade. O impulso científico proporcionado por grandes nomes como René Descartes e Galileu Galilei foi essencial para uma transformação impactante. No entanto, saímos de um extremo e fomos ao outro: da sensação sem a razão à razão sem a sensação.

Sempre se faz necessário um movimento contrapendular para equilibrar aquilo que, na verdade, não é oposto, mas também, assim como diferentes saberes, interdependente.

O conhecimento do homem não tem uma existência em si até ser criado. Os objetos, saberes e sujeitos não são naturais, mas forjados historicamente de modo que foram objetivados. O que existe sem interferência do homem é o fenômeno. A teoria é humana. E o humano, tão comumente preso às limitações dos seus sentidos arraigados à matéria, pensa de modo linear. Sua ciência, ou a interpretação dela, não poderia ser diferente.

Por consequência da desvalorização da sensação, o homem vaga pelo mundo sem dar ouvidos a uma de suas faculdades mais poderosas: a intuição.

O uso da razão independente, digo independente pois ela não atua em interdependência com a sensação, leva os indivíduos a argumentarem e/ou acreditarem fielmente em frases que começam com “Estudos apontam que…” ou “Cientistas descobriram que…”, como se houvesse uma máquina criada por um deus inerrante, ou o próprio, nos laboratórios. Aquele que faz ou cita a ciência é o dono da verdade onde a ignorância absoluta prevalece.

Ao validar a ciência ou um estudo como verdade absoluta, característica inclusive da religião tradicional, você automaticamente invalida outra coisa. Oras, para algo ser válido, precisa existir outra coisa inválida. A necessidade isolada da citação da ciência aponta para uma invalidez, ou a probabilidade de invalidez, da fala. A própria metodologia científica se caracteriza por estar em constante evolução e estar sujeita a erros, mas a mentalidade de muitas pessoas que se usam dela para legitimar as suas crenças parou na Idade Média. E a ciência se tornou a nova religião.



Não coloco a ciência como inválida, sim, a maneira como o homem lida com ela. A ciência, assim como a religião e a política são neutras em si. O uso da ferramenta que é bom ou mau. Lembrando para não cairmos no dualismo de atribuir valor exclusivamente positivo ou negativo aos homens.

Ninguém é totalmente bom ou totalmente mau. E isso também é questão de perspectiva.

A filosofia não pode ser separada da política. Assim como qualquer saber não pode ser separado da política, nem de qualquer outro. Mas sabemos que não é isso o que acontece. O fato é que conhecimento é poder. Poder de todas as formas possíveis. Conhecimento gera poder sobre aqueles que não têm o conhecimento, pois você pode enganá-los e manipulá-los como quiser. Basta começar uma frase com a falácia científica e pronto. Ainda melhor para o manipulado se tal afirmação for conveniente para os seus próprios interesses. Tão facilmente cai ele numa hipocrisia intelectual. Como se não fosse o bastante, ele sairá discursando como se fosse o conhecedor da verdade e pode até impressionar outros sujeitos. Mal sabe ele que foi enganado e possivelmente será até exaltado. A pergunta é: Quem é o mais ignorante? Quem discursa ou quem acredita? Uma boa pergunta.

Cada formação social tem e gera algum saber. Cada papel desempenhado na sociedade tem sua verdade. O problema é que cada papel também gera sua bolha social. O contexto histórico e cultural de todas as situações tem seus regimes de verdade.

Foucault aponta que as ciências tradicionais não estabelecem relações com os diferentes saberes que estão no mundo. Pelo contrário, os desqualificam como não competentes, sobrepondo outros considerados científicos, portanto, verdadeiros.

A bolha social também é criada e reforçada positivamente pela necessidade humana de ter razão.

O ambiente humano está constantemente usando da psicologia para manipular e simultaneamente dar um senso de importância ao indivíduo. Emburrece-o e ele se sente exaltado. Limita-o e ele se sente livre. Dá a ele uma migalha e o mesmo desfila nas ruas se exibindo. Se a ignorância humana não fosse tanta, talvez estaríamos debatendo assuntos que mostrariam para o ser humano onde pode(ría)mos chegar.







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