AmorO Segredo

O inevitável para além das palavras

“Na realidade mais profunda, talvez sejamos, todos,



membros de um só corpo

(Sir James Jeans).”

Eu cheguei neste mundo por ela, os braços dela me receberam e me acolheram para mais uma missão do meu ser neste mundo. Ironia ou destino foi nos meus braços seu último suspiro. Uma lembrança que, às vezes, insiste em voltar.


Não que eu queira negar o ocorrido, mesmo por que com algumas sessões de terapia e autoanálise essa experiência vem tomando um novo significado. Ressignificar esse tipo de experiência – a morte – ainda mais sendo com a sua própria mãe, não é uma tarefa tão simples assim. E foi assistindo o filme “Boa Sorte”, que fala sobre excessos, amor e morte, que me deu esse insight de escrever sobre essa minha experiência.

Numa das cenas do filme, a Judite (personagem vivida por Deborah Secco) pergunta para o João (personagem vivido por João Pedro Zappa), se ele já havia visto alguma pessoa que ele amasse morrer. Essa fala me tocou e passei alguns dias pensando nisso.

Ver qualquer pessoa morrer já é impactante, sendo a pessoa que te deu a vida… o peso dessa bagagem é infinitamente maior. No entanto, com todo esse trabalho terapêutico e de entendimento, comecei a tarefa de ressignificar e transformar meu olhar para o fato.

Começou a nascer em mim um olhar de agradecimento e de aceitação desse destino – que talvez, não seja destino, e sim, uma escolha pré-encarnação. Não importa a explicação e sim o fato da transformação desse olhar que veio com uma avalanche de emoções e sentimentos, dúvidas, conflitos, raiva, indignação, revolta. Eu me via absorta nessas emoções.


Elas tomaram boa parte dos meus dias. E pensava que a morte é algo muito estranho, meio surreal. Já perdi outras pessoas importantes na minha vida. Já

sabia que a morte existia, pois já havia perdido pessoas queridas.

No entanto, ver uma pessoa morrendo e essa pessoa ser a sua mãe – é ver a morte de perto. Como assim? Há um minuto ela estava respirando e agora não está mais? O corpo que estava quente, esfria. O coração que pulsava, para. Os olhos que me vêem, fecham para sempre. O calor das mãos, a pele, a cor, a alma não está mais ali. O abraço não está mais ali.

No seu último suspiro, no afã de salvá-la tive uma força para levantá-la que jamais pensei que existisse. No entanto, a morte foi mais rápida e ali se deu o momento do meu último abraço nela, no corpo dela. Porém, a certeza que a alma dela sentiu a minha dor de vê-la partir e, ao mesmo tempo, sentir o tamanho da minha gratidão por ser nos meus braços e abraço seu último suspiro só reforça o quanto o nosso amor é maior que os limites do corpo e das palavras que nunca conseguiriam alcançar a grandiosidade desse momento, embora inicialmente conflitante como já disse antes.


Quando aceito a morte, e entendo que o que morre é o corpo, pois vejo minha mãe viva em mim, nos meus irmãos, assim como na obra que ela construiu… ressignifico a experiência, pois ela está viva na nossa memória, nos nossos corações. E, embora para nós humanos limitados a morte seja um mistério, tenho aceitado a cada dia a ideia de que a morte é uma libertação para o nosso ser e que a nossa hora vai chegar. E que apesar de assustadora, a morte é um aprendizado. É libertação para quem vai e exercício do desapego e do não-egoísmo para quem fica.

Para minha mãe – Kátia Matos – meu infinito amor.

*Esse texto foi escrito um ano após a morte da minha mãe, que foi para mim exemplo de mulher guerreira. Ajudou a fundar e a construir o Núcleo Espírita Nosso Lar e o Centro de Apoio ao Paciente com Câncer em Florianópolis. Ela partiu deste plano, mas sua obra continua viva, auxiliando milhares de pessoas. Ironicamente, ou não, minha mãe morreu “vítima” do câncer.

ana e mae


O destino não é questão de casualidade, mas de escolha

Artigo Anterior

Como seus pensamentos afetam sua saúde?

Próximo artigo

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.