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O lado ruim da empatia…

Sim, pode parecer hipocrisia, e admito isso, em certo ponto, ainda mais vindo de alguém que sempre defendeu, e defende, a empatia como sendo algo essencial ao ser humano, para evoluir individual ou coletivamente, mas existe, sim, um lado ruim na empatia.



De qualquer modo, é bom deixar claro, antes de começarmos, que esse lado apenas existe quando a empatia se torna unilateral, o que, infelizmente, acontece na grande maioria das situações.

Não, não serei pessimista (talvez um pouco, no começo), mas tudo tem seu método, já dizia Shakespeare, e a dor às vezes se mostra necessária para o crescimento, assim como a lama é necessária para o desabrochar do lótus.

Antes de tudo, o que é empatia?

Empatia é capacidade de colocar-se no lugar do outro e sentir o que ele sente, de colocar-se no lugar do outro a fim de entender suas escolhas (passadas e futuras), aspirações e sofrimentos.

Afinal, existe sentimento mais necessário que a empatia? Colocar-se no lugar do próximo e entender seus sentimentos, deveria ser mais do que suficiente para evitar muitos dos problemas do mundo e torná-lo um lugar mais feliz.


Os dois lados

Preciso ser clichê, duas vezes, diga-se de passagem, como tudo na vida, nada é tão simples como parece e mesmo o ser bondoso e empático parece ter suas dores.

Pessoas empáticas possuem uma habilidade que é um tanto diferenciada, levando em consideração os padrões atuais da sociedade: a habilidade de pensar no próximo. Vale destacar que não estou falando em agir em favor do próximo, mas sim de pensar no próximo e colocar-se no lugar deste.


Como bem diria Zygmunt Bauman, o qual recomendo que todos leiam os livros, vivemos em tempos líquidos, onde mesmo a empatia se torna líquida, é volátil, utilizada apenas quando interessa. Quando achamos que a empatia é exercida pelos dois lados, nós nos vemos em um rio de águas revoltas, onde uma água não é igual à outra e surge tão rapidamente quanto desaparece.

O problema de ser empático é que, além de colocar-se no lugar do outro, é necessário ser forte o suficiente para entender e superar o fato de que nem todos, e arrisco dizer que a maioria, não terá a mesma sensibilidade de colocar-se no seu lugar também.

Por várias (e várias) vezes dispomos do nosso melhor, colocamo-nos no lugar daquele com quem desejamos ser empáticos e fazemos o possível (agindo com compaixão) para não fazer algo que possa feri-lo ou magoá-lo.

E como disse anteriormente, seria clichê duas vezes, e, claro, não podemos esperar nada em troca, devemos ser bondosos e empáticos por simplesmente sermos bondosos e empáticos.

Mas isso não significa que somos seres iluminados, totalmente desapegados, até porque afirmar a própria iluminação já seria um sinal de que não a temos. Logo… sentimos dores e temos, sim, um pouco de apego (apesar de trabalharmos, constantemente, para eliminá-lo de nossas vidas), e por isso sentimos dor, quando aqueles com quem fomos empáticos não são empáticos conosco e acabam nos magoando de alguma forma. Quando não se colocam no nosso lugar e não percebem que o que fazem ou falam também nos machuca, da mesma forma que os machucaria.

Devo parar de ser empático, então?

Uma vez que começamos a ter empatia e que temos a chance de entender os sentimentos do outro e perceber como ele poderia agir e se sentir, não é algo que possamos voltar atrás, e nem deveríamos querer.

Não, não devemos parar de sermos empáticos!

Mas devemos ter ciência que a humanidade está em transição. E podemos ver isso com a crescente onda de intolerância, extremismo e ódio, em todo o mundo. Toda revolução é precedida por luta, é um amadurecimento necessário, um tanto doloroso e nostálgico, de maneira ruim, mas necessário, a fim de separar a juventude da humanidade da sua maioridade.

Devemos compreender que não é mérito ou demérito, ser ou não ser empático, mas que são estágios da evolução humana; alguns possuem, outros não; e mesmo estes últimos possuem outras habilidades que constroem as bases do futuro.

É necessário ser forte e compreensivo e, aos poucos, todos perceberão o quão bom, e necessário, é colocar-se, sempre e a todo momento, no lugar de outra pessoa.

É simplesmente libertador!

E não se preocupe, a liberdade machuca um pouco também, pois estamos acostumados demais a viver nas correntes do Eu, mas quando nos soltamos e percebemos que somos mais que nós mesmos, individualmente, a vida passa a ter um brilho especial, passamos a entender o outro como sendo nós mesmos, deixamos de ser individuos, passamos a ser um “Um” e não mais “Eu”.

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Direitos autorais da imagem de capa: belchonock / 123RF Imagens

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