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O ônibus das sete…

Aqui estou eu, trinta e poucos anos depois, lembrando-me, como se tudo tivesse ocorrido ontem. Lembrando-me da presença de Deus ao meu lado, no ônibus das sete da manhã!

Deus adverte: “a vara da disciplina e as palavras da repreensão dão sabedoria, mas o jovem abandonado à sua própria sorte envergonhará sua mãe… (Provérbios 29:15,17).


Sempre fui contra a tal vara, pois ela me faz lembrar de violência, marcas na pele, humilhação e dor. Sempre tive pavor da dor — em mim, nos outros e nos animais.

Escolhi a segunda vara, que são as palavras da repreensão, que dói tanto quanto uma boa varada no lombo. Desde cedo, aprendi que elas podem ser cortantes, mas também podem ser curadoras. E, nas horas mais incomuns, onde não cabia um discurso, usei-as nos olhos, e o resultado foi mais satisfatório do que os discursos.

Não há uma agenda de horários para que se fale com o filho, nem um momento certo para se falar com Deus.


Antes de ser mãe, eu só tinha as palavras, e as amava. Amava-as nas músicas, nos poemas, nos bons livros, nos lábios dos professores, que sabiam tão bem pronunciá-las. 

Foi depois de ter meus filhos que percebi, assustada: nenhuma delas me ensinaria a ser mãe. Nenhuma delas me protegeria das dores de uma mãe. Nenhuma delas me transformaria numa mulher com poderes supernaturais, como voar, ou ter visão raio x para vigiar meus filhos à distância, enquanto eu estivesse no trabalho.

Creio que quase todo pai e mãe perdem, ou já perderam o sono, receando não dar conta do recado. Receando não conseguir evitar que seus filhos sofram, ou cometendo falhas na educação. Tudo que eu desejava era que eles fossem mental e fisicamente saudáveis. E felizes, embora eu já não acreditasse mais em felicidade, nessa época.

Nesses instantes, quando as palavras pareciam não ser suficientes, e o medo rodeava-me como ondas, eu orava. Oração é a mais forte das correções, e acreditei que o Espírito Santo de Deus os olharia durante minha ausência, ensinando-os a serem bons.


Tal qual a criança tímida que tropeça nas palavras, diante do adulto, esse foi o início de minha fé, despejando meus temores diante do Criador dos céus e da Terra. Não sabia como falar com Deus. Temia-O. Minha oração saía em gotas, como uma torneira com defeito. Por um tempo, foi assim, até perder o constrangimento e me transformar em abundante cascata.

É necessário que dobremos nossos joelhos todos os dias, e esvaziemos nossos anseios diante do Senhor.

Eu nem sempre tive tempo para dobrar os joelhos, correndo atrás de cumprir um outro mandamento: a sobrevivência honesta, emendando o dia com a noite, para não pesar meu próximo. E, tarde da noite, estaria tão cansada que dormiria de joelhos, antes de abrir meu coração para Deus.

Meu melhor momento, era de manhãzinha, indo para o trabalho.  Fechava os olhos e falava com Deus, entregando a vida de meus filhos aos seus cuidados. Era o desabafo de uma mãe, dividindo sua preocupação com a intimidade que se tem com um amigo.

O tempo me trouxe resultados satisfatórios, e a certeza de que o Senhor me ouviu, e atendeu cada um de meus pedidos.

A oração (nossa conversa) era feita dentro de um ônibus lotado, com os olhos fechados. Não havia joelhos dobrados. Não havia clamor, promessas, nem rios de lágrimas. Havia apenas fé, amor e minhas preocupações humanas. 

Ainda assim, Deus inclinou seus ouvidos para ouvir meu coração.

Da grandiosa experiência, aprendi: de nada adiantará o ralar dos joelhos, quando há dureza no coração.

Apenas abra as portas de seu peito, crédula e ingênua, feito uma criança, sabendo que Deus conhece e cuidará do problema que você confiou a Ele.

Confie, deixe-se guiar, e não esqueça de reconhecer os milagres que Deus lhe oferece, ou já ofereceu um dia. De graça!

Aqui estou eu, trinta e poucos anos depois, lembrando-me, como se tudo tivesse ocorrido ontem. Lembrando-me da presença de Deus ao meu lado, no ônibus das sete da manhã!

E o mais importante: não ofereça grandes sacrifícios, grandes ofertas, grandes tumultos, pois Deus não é negociável, nem surdo.

Não foram os grandes clamores que fizeram com que Deus me ouvisse, mas o silêncio de minhas lágrimas e minhas mãos vazias de ouro.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: galitskaya / 123RF Imagens





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