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O plano sórdido do abusador

O abusador chega sorrateiramente. Com ares de grande sábio, a princípio; guru, amigo, conselheiro, militante, solidário, ele avalia o seu terreno, traça o seu plano de ação, que será mais facilmente executado se for você um alvo fácil, fragilizado por feridas e até abusos do passado, enfraquecido por uma visão deturpada de si mesmo.


A revelação dos seus complexos será como munição para ele, que, no momento que julgar adequado, atingirá você em seus pontos fracos, subestimando os seus feitos, invalidando as suas opiniões, desdenhando os seus interesses.

É típico dele se fazer ausente justamente naquela data, naquele compromisso ou naquele evento que sabe ser de grande importância para você, pois para ele não basta a frustração como destino natural e comum às expectativas. Ele fará questão de frustrá-las voluntariamente.

Se é cumplicidade que você quer, é isso que ele te negará; se é afeto que você deseja, ele encontrará uma ocasião para criticar quem apresenta tal demanda; se é atenção que você valoriza em um relacionamento, ele será monossilábico ao telefone, não responderá às suas mensagens de imediato e terá o cuidado de não mencionar nenhum tema no qual seria bem-vinda uma palavra amiga.


Porém, cuidado! Em meio a tudo isso, ele desempenhará o papel de vítima, o que sempre te levará a questionar se não seria você superexigente e até antiquado em excesso, resignando-se, em seguida, com a solidão no relacionamento.

Não se esqueça: o abusador não raro denota uma falsa inteligência ou faz uso negativo do intelecto. Portanto, não é de surpreender que ele seja um defensor ferrenho de relacionamentos abertos, crítico feroz do amor romântico e que considere tirana a ideia de amor e relacionamento.

Naturalmente, ele será religiosamente favorável a tudo aquilo que contrarie um real comprometimento contigo.

O tiro de misericórdia, porém, virá quando o abusador te perceber totalmente entregue e disposto a se sujeitar às migalhas. Como ele precisa estar sempre um passo à sua frente – isto é, sempre te dando menos do que você estiver disposto a aceitar –, te abandonar será a atitude ideal quando você se tiver rendido à humilhação. É provável, porém, que esse abandono não seja precisamente expresso, o que dá ao agressor a possibilidade de ainda se deleitar com o seu martírio, pois, como abutre, é disso que ele se alimenta para sentir-se grande.


Portanto, não se esqueça deste detalhe. O comportamento do abusador será sempre inversamente proporcional ao seu interesse e envolvimento. E esse plano sórdido tem apenas um objetivo: ele quer te aniquilar, destruir a sua autoestima, relegá-lo a uma condição de menos valia para, então, partir para a próxima vítima.

O bom senso, porém, sempre nos convida a não aderirmos à raiva ou à vitimização como resposta, sendo esses comportamentos que só fazem nos chafurdar ainda mais na depressão e autopiedade.

Contrária a isso, a autorresponsabilidade sempre lhe trará à memória o fato de haver sido sua a escolha por manter-se no relacionamento ignorando os sinais, pois ninguém é tão vítima ao ponto de não haver, de alguma forma, se colocado nessa situação. Portanto, aceite o ocorrido, livrando-se de qualquer resquício de culpa e acolhendo o aprendizado oriundo daquela relação. Temos aí uma estratégia de empoderamento!

Relacionar-se nem de longe equivale a anular-se. Fazer concessões em um relacionamento é algo comum e viável, dadas as diferenças entre os sujeitos que tencionam ficar juntos.

Fazer concessões, no entanto, nada tem a ver com se submeter aos termos do outro. Portanto, se a angústia, a insatisfação, a tensão, a insegurança e até o medo marcam o seu “relacionamento”, retire-se dele! Vença o medo de ficar só, bem como a tola ilusão de que pode mudar o outro ou de que, em algum momento, ele vai lhe dar o que quer. E, ao fazê-lo, experimente a maior de todas as liberdades.

Ademais, lembre-se que, antes de ser o seu algoz, o abusador é tão somente uma vítima das próprias misérias, o que nem de longe significa que você deva ser condescendente com os seus atos.

Esta, porém, é a verdade: apesar da sua aparente força, o abusador é apenas alguém que necessita de ajuda. E você também.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123rf / montekristo





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