O PODER DE RESGATAR HUMANIDADES QUE SÓ AS CRIANÇAS TÊM…



Fui a uma festinha de criança. Tinha um bocado de coisas que eu gosto de comer: brigadeiro, bala de coco, bolo de chocolate recheado com doce de leite, cachorro quente, coxinha e pipocas em pequenas porções pra gente repetir sem culpa.

Há muito tempo não sou criança, mas não tardo em me fartar. Não recuso convites para festinhas assim. Acontece, que entre a comilança e o “Parabéns a Você” do aniversariante mirim, um tempo de infância começou a povoar minhas ideias.

É que em festas de criança, há pais, crianças e eu. Os pais se ocupam de seus filhos que querem subir em escorregadores gigantes, saltar na piscina de bolinhas, pular numa cama elástica até quase acertar a cabeça no teto.

criancas4

Em festas de criança, os pais não têm muito tempo de sobra pra sentar e dividir um bom papo regado a refrigerante e a bolinhas de queijo. Então, foi ali, quase que abandonada à própria sorte na minha mesinha decorada, que comecei a notar os pormenores que a infância tem e que são levados de nós ao menor sinal de puberdade.

Havia uma garotinha de uns oito anos de idade devorando um hot dog. Estava vestida de alguma princesa com as roupas do próprio buffet. Devorava seu cachorro quente como quem encontra alimento depois de semanas passando fome. Estava com o rosto todinho vermelho de molho e amarelo de mostarda.

Havia também um menino um pouco menor. Comia brigadeiros despretensiosamente sem respeitar a hora de cortar o bolo. Era um atrás do outro e um tanto de granulados marcando o caminho da arte pelo chão. Pela festa, dezenas de pratinhos de salgados espalhados. Alguns mordidos, outros gelados. Os mordidos denunciavam alguma criança que, decerto, pensou ser empadinha de qualquer coisa menos abacaxi e presunto. Nós, adultos, nos obrigaríamos a comer até o fim. Alguma criança da festa simplesmente mordeu e deixou ali, à vista de qualquer um, que não gostou do salgado meio doce, dessa mistura que não sei quem foi que inventou.

Nos brinquedos da festa, as crianças pulavam desesperadamente, mas sempre com um sorriso no rosto suado, no cabelo desfeito e sem penteado. Pulavam pelo simples prazer de chegar mais alto, de ver o mundo por outro ângulo. Escorregavam de alturas imensas, gargalhando com o frio na barriga. Não havia ansiedade pelo dia seguinte. Aliás, ninguém queria nem que chegasse logo a hora de cortar o bolo, afinal, cantar “Parabéns” já é prenúncio de fim de festa. Preferiam ficar ali, vivendo suas infinitas eternidades em cerca de 3 ou 4 horas.

Uma festinha de criança não é campo de pesquisa científica, mas deveria ser. Há muitos detalhes de humanidade presentes em festas infantis. Mas há ainda mais humanidade escancarada nas próprias crianças. Elas nascem para que nos lembremos o que, de fato, importa. Enquanto as mães desfilavam seus enormes sapatos de salto agulha, suas filhas se entregavam às maravilhas da torta na cara com os pés no chão.

Sim, deixamos de ser um pouco humanos quando crescemos. E não digo crescer de tamanho e de idade cronológica. Não falo somente das mudanças no corpo e dos desejos que também mudam radicalmente. É que não queremos mais levar tortas na cara, preferimos manter o rosto intacto com a maquiagem escondendo nossas sardas, nossas espinhas, nossas manchinhas e rugas. Tiramos fotos forçando sorrisos que não alarguem tanto nosso nariz, que não deixem a bochecha tão sobressalente, que assegurem nosso melhor ângulo com o branco dos dentes a brilhar e causar inveja. É isso mesmo que queremos? Ou será que apenas aprendemos a querer isso?



Será que não seríamos mais felizes – ou, ao menos, mais autênticos – se nos permitíssemos sorrir espontaneamente, com as sardas à mostra, com as rugas fazendo caminhos de alegria nos nossos rostos humanos?

O negócio de aprender como deve ser a vida a partir de uma certa idade é que a gente vira refém daquilo que esperam que a gente seja. Tudo o que você aprendeu sobre ser menina é coisa que alguém (deve ter sido um homem desses bem machistas, inclusive) inventou. Menina do cachorro quente, tudo (muito) bem se você quiser trocar a fantasia de princesa por uma de super herói.

Use algo que te represente. E se você preferir ficar com o sapo em vez do príncipe no fim das contas, vai ser um final feliz do mesmo jeito. E você, garotinho dos brigadeiros, também não pense que nasceu programado para crescer, cultivar músculos e garotas. Não se sinta na obrigação de ficar grande, po**a, não se sinta no dever de usar os penteados do Justin Bieber. Mas se você quiser usá-los, vá em frente. Seja a melhor pessoa pra você mesmo.

Acontece que quando a gente se dá conta de que não precisa ser aquilo tudo que a vida toda aprendeu que deveria ser, há um sentimento de liberdade indescritível. E, saiba, isso pode acontecer com qualquer um, a qualquer hora. Ninguém está livre de sair desse véu que cobre nossa essência. E pode ser assistindo a vídeos no YouTube, dançando na balada de sábado à noite, vendo um filme no cinema, apreciando uma pintura de Frida Kahlo ou, ainda, sentada em uma mesinha de festa de criança, com a barriga cheia de doces e salgados, tudo junto e misturado. E aí, se der na telha que vai te fazer um bem danado entrar na cama elástica com as crianças e ensaiar uns mortais duplos carpados, vá em frente! Se você quiser devorar o cachorro quente como se não houvesse amanhã, faça! Se quiser se esbaldar na pista de dança ao som dos hits da Galinha Pintadinha, ninguém poderá lhe julgar, afinal, você estará embriagado apenas de altas doses de refrigerante.

E se você se achar um bobo (ou uma boba) no fim dessa noite – ou dessa matinê, no caso da nossa festinha infantil – junte-se às crianças. Elas vão te adorar. Faça uma ciranda, convide-as para fazer montinho nos pais, comece uma guerra de bexigas d´água, corte o bolo e cante o “Parabéns a Você” logo no começo da festa para que os convidados não se sintam intimidados a ir embora. Cante “pra ele tudo, tudo!!!” (nada de desejar o nada às pessoas) e na hora do “Com Quem Será?”, esteja certo de que o aniversariante quer mesmo se casar, porque talvez ele prefira viajar pelo mundo na companhia de uma mochila ou só queira mesmo juntar as escovas de dente sem nenhum papel assinado. Se ele, no entanto, escolher se casar, grite bem alto que “vai depender se a Fulaninha vai querer”, mas que vai depender também “se o aniversariante vai querer se casar mesmo com a Fulaninha” porque, no fundo, no fundo, ele pode ser apaixonado pela Beltraninha. E emende em cantoria eufórica que, se eles se casarem, podem ter filhos ou não. E que, se tiverem filhos, o papai aí vai cuidar do bebê também e não só ajudar a mãe, até porque pai não é ajudante do dia, é progenitor mesmo.

criancas3

A gente aprendeu, sim, a ser o que os outros esperam da gente, mas quem é que não gosta de surpresas? Dá pra aprender coisas novas também e dá pra, além disso tudo, rememorar o que a gente era quando criança, quando corria desgovernado nas festinhas dos amigos no buffet ou na casa deles mesmo, quando a mãe e avó deles eram um pouco nossas também e a gente, em um despudor contagiante, corria para os braços dos adultos em busca de abraços sinceros.

Quando a gente vai a festas assim, quem ganha o presente é a gente! O do aniversariante é mesmo só uma lembrancinha.

Ana Helena Lopes






Deixe seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.