O que aprendi através de um relacionamento abusivo e como me resgatei dele

“Nós definimos o padrão de como queremos ser tratados. Nossos relacionamentos são um reflexo do relacionamento que temos com nós mesmos. ”~ Iyanla Vanzant

Eu vou ser sincera. Eu sabia que havia algo errado. Minha cabeça me disse que sim, pouco depois de nos conhecermos. Os sinais de alerta estavam gritando. Se eu conseguia enxergá-los? Claro! Eu os ignorei? Também. Meu coração disse para que minha cabeça os deixasse de lado e eu concordei.

Ali estava um homem carismático e lindo, concentrando toda a sua atenção em mim. A química era intensa. Ele era como um vício, um remédio para mim. Estar com ele era inebriante. E assim eu pensava que ele era o amor da minha vida. Eu estava errada, muito errada.

Demorou um tempo para seu lado mais sombrio entrar em ação. Mas quando aconteceu, eu já estava muito viciada nele. Eu precisava de mais. Então, ignorei todos os sinais de aviso novamente. Os que estavam bem na frente dos meus olhos.

Ele começou a ficar um pouco mal-humorado. Todas as brigas pareciam sempre ser “culpa minha”. Então, eu comecei a mudar o meu comportamento antecipadamente.

Se a raiva dele era sobre alguma roupa que eu estivesse usando, eu mudava meu guarda-roupa para roupas menos “provocativas”. Se ele não gostava dos meus amigos, eu parava de vê-los. Mas não importa o quanto eu tentava, nada funcionava. Ele encontrava outro motivo para me culpar pela raiva que ele sentia.

A pessoa abusiva sempre vai arrumar um modo de justificar o motivo pelo qual ela trata o outro mal. Pode ser porque eles foram traídos em relacionamentos passados, tiveram uma infância difícil ou sofreram muitas decepções. Então, você continua acreditando e ignorando todos os sinais de alerta. 

Para você, essa ainda é aquela pessoa maravilhosa que o(a) encantou. Você ainda pode ver o lado bom dela por trás do lado escuro. Você pensa: tudo o que ele precisa é de alguém como eu para cuidar dele, trazer esse lado encantador de volta à tona. E isso faz você se sentir segura.

Mas com o tempo o abuso piora. Quando ele ficava furioso, ele desaparecia por dias. Ele começou até a mostrar os primeiros sinais de abuso físico. Um empurrão, um tapa no rosto ou um aperto mais forte no meu braço . Algo que choca, que vem do nada. (Algo que mais tarde ele vai descartar dizendo que não foi violência).

Mas a ideia de terminar e nunca mais vê-lo me assustava ainda mais do que como ele estava me tratando. Eu não podia ou não queria ver a pessoa que ele realmente era. Eu havia ignorado os primeiros sinais de aviso e, agora eu negava a realidade. É verdade o que eles dizem. O amor pode ser cego.

Quando a raiva dele passava, eu ficava aliviada ao ver a pessoa por quem eu tinha me apaixonado novamente. O remorso que ele mostrava devido à gravidade do abuso mais recente contribuía para que eu acreditasse no seu arrependimento .

Ele dizia sempre o quanto estava arrependido. Ele soluçava enquanto chorava em meus braços. Ele dizia que estava “envergonhado” com o que tinha feito. Ele jurava que “nunca faria isso de novo”. Blá, blá, blá.

Ele me convencia de que precisava de mim mais do que nunca para ajudá-lo a mudar. E claro, isso era música para os meus ouvidos. Mas esse período de lua de mel nunca durava. O abuso verbal e / ou físico, seguido de remorso, se repete. Mais e mais, em um ciclo.

Este ciclo de violência (emocional e / ou físico) é um desvio tóxico de altos e baixos imprevisíveis. Com cada giro, isso nos derruba. Qualquer fragmento de autoestima que você possua, começa a corroer.

Eu me sentia inútil e quase merecedora da raiva dele. Comecei a acreditar quando ele dizia que eu era a culpada por tudo. Mas eu de alguma forma racionalizava tudo aquilo pensando que tudo que ele precisava era que eu o consertasse para fazer com que abuso parasse. Tudo que eu precisava fazer era amá-lo mais.

Eu não percebia, mas amá-lo tinha se tornado um vício para mim. Eu era viciada em uma pessoa indisponível – alguém que não estava presente para mim e que não se importava comigo.

Minha cabeça poderia estar gritando para que eu saísse, mas eu simplesmente não conseguia. Em meu coração, eu sentia que ele me amava. “Ele precisa de mim”, eu racionalizava. Eu até me sentia culpada por pensar em abandoná-lo.

Mas em algum momento, você chegará ao fundo do poço – o abuso se tornará extremo. Como muitas mulheres, mesmo depois disso tudo, eu ainda o amava! Meu coração continuava gritando para eu não deixá-lo. Sim, mesmo depois de todos os abusos físicos, verbais e mentais.

Se você tiver sorte, sua cabeça começará a superar seu coração. Você vai parar de negar que essa pessoa não é boa para você. Finalmente, você vai encontrar a coragem para ir embora, assim como eu tive. Mas não antes de voltar para ele muitas e muitas vezes.

O vicio que eu sentia por ele era muito grande. A sensação que eu tinha quando nos reencontrávamos era melhor do que a dor que eu sentia quando estava sem ele, sozinha.

Quando você deixa uma pessoa abusiva, a retirada parece tão angustiante quanto, imagino que possa ser, retirar alguma química do seu sistema. Você ficou entorpecido por tanto tempo que uma gama de emoções surge de uma só vez. Vergonha, raiva, solidão, culpa. Isso dói.

Eu nunca imaginei passar por isso na minha vida. Eu estava tão impressionada com a crueldade dele. Mas você precisa sentir essas emoções, por mais dolorosas que sejam. Quando você reconhece a presença dessa dor, você também reconhece que precisa tomar uma atitude.

Para que eu chegasse nesse ponto eu precisei me questionar muitas vezes.

Por que ainda amo alguém que abusa de mim? Por que eu preciso me entorpecer com alguém que me faz tanto mal? Alguém que eu reconhecia que não era bom para mim, mas é a única coisa que eu acreditava fosse fazer com que eu me sentisse bem novamente.

Espero que, como eu, você perceba que seu vício começou muito antes de conhecer essa pessoa.

Tenho certeza que você já sabe que tem algo a ver com baixa auto-estima. Se não nos amamos, somos atraídos por aqueles que nos tratam como se não pudéssemos ser amados. Mas não é suficiente apenas dizer a alguém que eles precisam “amar a si mesmos mais”. “Você precisa trabalhar em sua autoestima!” É mais fácil falar do que fazer. Acredite em mim, eu sei.

Primeiro, você precisa entender por que você sente que não é amável ou não é bom o suficiente. Como você chegou a ter uma autoestima tão baixa que você permitiu com que uma pessoa fosse abusiva com você. Só então você pode quebrar o ciclo de dependência e se recuperar.

Você pode ser como eu, ter crescido em um lar confortável e feliz. Nunca experimentando abuso verbal ou físico antes em sua vida. Ou você pode ter sofrido em sua família e estar repetindo os padrões negativos do seu passado. De qualquer forma, a raiz da baixa autoestima é como se, de alguma forma, suas necessidades emocionais não fossem atendidas quando criança.

Se nossas necessidades emocionais não foram atendidas quando criança, crescemos com esse medo de que “não somos bons o suficiente”. Também tememos o abandono, pois sabemos o quanto isso já é doloroso.

Nossos pais podem ter sido presentes quando éramos crianças, mas não conseguiam lidar conosco em um nível emocional. Então, escolhemos um parceiro cuja bagagem corresponda à nossa. Alguém cujas necessidades não foram satisfeitas quando criança e que é tão inseguro quanto nós. Pois se eles precisam de nós, se eles dependem de nós, então em nosso subconsciente acreditamos que eles são menos propensos a nos abandonar.

Além disso, se pudermos ser seus salvadores, poderemos concentrar toda a nossa atenção neles. Ao fazê-lo, podemos negar, ignorar, podemos até entorpecer nossos próprios sentimentos de insegurança e medo por dentro. São eles que tem o problema, não nós! E é uma droga tão eficaz que talvez nem tenhamos consciência de que esses sentimentos existem. Eu não tinha.

O problema é que esta é uma dança disfuncional. Duas pessoas que são inseguras são incapazes de satisfazer as necessidades do outro.

Para se sentir seguro, ambos têm a necessidade patológica de se sentirem no controle. Enquanto eu estava “resgatando” meu ex, me senti no controle e confiante de que ele não me deixaria. Mas isso o deixou sentindo-se vulnerável, com medo de que eu fosse ver suas falhas e ir embora. Então, ele precisava me afastar para recuperar seu poder.

Agora eu era quem estava vulnerável. Aterrorizada com a ideia de que ele pudesse me abandonar, eu perdoava qualquer coisa para recuperá-lo novamente. Se eu não pudesse, isso reforçaria os dolorosos sentimentos de infância que eu tinha de não ser digna de amor. Isso revelaria a profundidade da minha insegurança e medos.

E assim, eu tentava agradá-lo, provar que eu era merecedora de seu amor e minha fraqueza lhe dava forças novamente.

O amor que ele então despejou sobre mim foi apenas a droga que eu precisava para anestesiar esses medos e me deu segurança para começar a resgatá-lo novamente. E assim, o ciclo continuava.

Mas isso é amor? Eu tive que me perguntar. Ele era alguém  que me tratava como uma inútil, eu sabia disso. Ainda assim eu não conseguia deixá-lo. Eu ainda o “amava”. Ou eu pensava que amava. Até que entendi que isso não é amor, mas sim um vício. Um vício em alguém que nunca poderia me amar, que nunca poderia satisfazer minhas necessidades emocionais.

Quando finalmente fui embora, tive que tratar o meu vício nesse homem indisponível da maneira que qualquer viciado faria. Cortando pela raiz. Eu tive que sentir e lidar com todos esses sentimentos dolorosos de inadequação e insegurança. Essa era a única maneira de me curar.

Eu tive que voltar para a raiz da minha falta de autoestima, que tinha sido semeada na minha infância. Não como forma de julgar meus pais. Como eu, eles estavam fazendo o melhor que podiam na época. Mas para entender como e porque eu era assim.

Por mais doloroso e difícil que seja, uma vez que você consegue enfrentar esses medos, sua insegurança começará a desaparecer. E pouco a pouco você começa a se amar. 

Você só atrai aquilo que você acredita que merece. Pessoas abusivas, que antes viam uma brecha na sua armadura, agora o veem e correm para bem longe de você. Eles verão que você percebe que eles não são bons o suficiente para você.

As pessoas que são autoconfiantes e não precisam de você para resgatá-las, não vão mais apavorá-lo. Você encontrará a pessoa que o (a) trata com gentileza e respeito. A pessoa que busca acrescentar e trazer para a superfície o que há de melhor em você. A pessoa que permite que você seja vulnerável, mas segura. Eles nunca usarão essa vulnerabilidade como uma arma contra você.

Claro, eles podem ir embora a qualquer momento. Mas você não vai mais temer isso. Pois se o fizerem, você apenas descobrirá que não é para ser, e você será suficiente para satisfazer todas as suas próprias necessidades emocionais, com ou sem um parceiro.


Direitos autorais da imagem de capa: Oleksandr Pidvalnyi from Pexels



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