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O que você carrega consigo?

 Ao longo da vida todos nós carregamos coisas. Das mais simples, as mais raras e caras; uns carregam coleções de selo, de álbum de figurinha, de discos de vinil, de livros raros, de fotografias, de gravatas, de CDs, de sapatos, de carros importados, de ternos Armani, de jóias caras, de perfumes franceses, de diamantes… E a lista não acaba!



Outros menos “apegados” carregam idéias, frases de efeito, certezas, memórias, crenças, rancores, amores… Também não tem fim!

Eu carrego memórias. Memórias das viagens que faço. Eu sempre achei que viajar é a melhor coisa do mundo! Nada nem ninguém – não importa o que haja – consegue tirar de mim as lembranças que

tenho de fatos, pequenos acontecimentos, coisas inusitadas, engraçadas, imagens inesquecíveis, experiências boas ou até más. Mas estarão sempre lá comigo e posso dispor deste “arquivo sensorial” em momentos precisos e preciosos; quando estou meio triste, por exemplo.


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Vou contar aqui sobre uma passagem que aconteceu há alguns anos atrás, quando estive no lago Königsee, na Baviera. Fui visitar (já havia estado lá com meu primo e a mulher dele, tempos antes) a cidade medieval de Berchtesgaden a dois mil metros de altitude, bem nos Alpes bávaros, pertinho de Salzburg, na Áustria. A cidade é lindíssima, pequenina, muito sinuosa, com ladeiras, igrejas e quase todas as construções são de pedra. Bem rústica e medieval mesmo. Esta cidade por acaso, era a cidade de “veraneio” de Hitler. Lá de cima a vista é de tirar o fôlego; vê-se Salzburg e o lago Königsee. Resolvi dormir num chalé-pousada muito acolhedor, estilo rústico e com muita madeira. Extremamente aconchegante.

Sai para jantar e tive uma experiência deliciosa e caríssima – embora valesse cada centavo – num excelente e excêntrico restaurante todo de pedra e iluminado com tochas nas paredes com colunas arredondadas, teto abobadado e castiçais de estanho com velas vermelhas à mesa. Enfim,


um primor de lugar. Depois do magnífico jantar fui para o hotel-pousada dormir, mas não sem antes pedir na recepção que me levassem uma garrafa de Erdener Prälat (Riesling Auslese) um ótimo vinho da Mosela. Não havia percebido antes que no teto do quarto havia uma clarabóia que me dava uma visão espetacular daquela noite clara de lua cheia. Liguei meu mp3 player e abri o vinho. Eu lembro que foi um encantamento! Eu ouvindo Händel, Bach, Mozart e aquele cheiro de madeira do quarto, o sabor do meu vinho e a visão daquela lua imensa iluminando meus pertences. Reportei-me ao século XVI imaginando como seria a vida naquele tempo – certamente não tão boa como a que eu estava a desfrutar – Aí me lembrei daquele filme “Somewhere in Time”, onde o personagem acaba por se “transportar” para o passado, numa determinada época a qual ele mentalizava, assim mesmo, num quarto de hotel… Fiquei meio preocupada e resolvi voltar para o século XXI e tratei de sintonizar U2 (Just in case).

Na manhã seguinte desci a montanha, já voltando para Munique, mas não resisti a um passeio de barquinho no lago Königsee. O mais incrível aconteceu ali:  escutava a Overture de Tannhäuser, de Richard Wagner e já remando longe pude avistar um castelinho barroco lindo bem às

margens do lago. Aquelas montanhas cobertas de pinheiros verde musgo enormes, aquela água cor de esmeralda porque descem direto do cume das montanhas e por isso têm essa coloração esverdeada e linda, quase cintilante.

Eu pensava em como Wagner compôs Tannhäuser bem pertinho dali, no castelo de Neuschwanstein, a pedido do Rei Ludwig II da Baviera, conhecido como “O rei dos sonhos” e “O rei dos contos de fadas”  – um gay asumido, que tinha o hábito de levar rapazinhos que interpretavam “Romeu” nas peças de Shakespeare para a sua gruta encantada de seu outro castelo, Linderhof, e navegar com eles numa gôndola em forma de cisne – não preciso nem dizer que além de excêntrico,  ele também era conhecido também como o rei louco!

Mas ele foi muito mais do que isso. Apreciador das artes patrocinou inúmeros artistas. Era tão vulnerável quanto sensível e inteligente.

Sunset Woman

Tudo isso junto me fez sentir como se eu estivesse numa ópera de Wagner ou num conto de Shakespeare, tal a sensação mágica de me sentir parte daquilo. Eu podia sentir os séculos de história que aquele lago contava. Eu respirava e absorvia aquilo tudo que era de uma beleza plástica sóbria, altiva e tranqüila como as próprias águas daquele lago encantado!

Estas imagens, cores, sons, aromas e sensações são ainda tão vívidas, que eu tenho a impressão que irão ficar gravadas na minha retina e nos meus outros sentidos para sempre.

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Texto escrito com exclusividade para o site O Segredo. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




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