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O que você pode aprender com a inveja

Todo mundo adora falar que é invejado. Se pararmos para pensar, ser invejado nos dá a falsa impressão de que somos melhores.

Lá no fundo, repetir a torto e a direito que você é alvo de inveja é como uma discreta massagem no ego. Pior: é confortável dizer que tal coisa não deu ou não “porque fulana tem inveja de mim”. Como se a outra pessoa tivesse todo o controle sobre o que nos acontece, como se não fôssemos nós os responsáveis por conduzir nossa própria vida.


Sem hipocrisia aqui: eu acredito que a inveja dos outros atrapalhe sim. Todo mundo tem um caso de inveja para contar, entretanto, mais difícil do que isso é quando os invejosos somos nós.

É tão simples classificar uma atitude do outro, apontar e dizer que ele está com inveja, não é mesmo? Mas quando esse sentimento toma conta da gente, ninguém quer falar.

A dificuldade de admitir que sentimos inveja – sendo que, por sermos humanos, estamos todos sujeitos a isso – tem várias explicações.


Inveja, uma emoção negativa?

A inveja é uma emoção que traz consigo uma carga muito negativa.

Não bastasse fazer parte dos sete pecados capitais estipulados pelo catolicismo, aprendemos desde cedo que a inveja é um sentimento ruim e que invejar algo ou alguém é feio.

O perigo é justamente esse: a polarização dos sentimentos, classificando-os como “bons” ou “ruins”.


Não reconhecer que, como qualquer outro sentimento (raiva, tristeza, etc), a inveja tem algo a nos ensinar, dificulta muito a nossa aceitação. E aceitá-la é tão dolorido porque mexe com as profundezas de nós mesmos.

Afinal, a inveja nunca é realmente sobre o outro: é sobre nós. Mas enxergar isso pode levar algum tempo.

Como saber (e admitir) que você está com inveja?

Há alguns anos, cientistas descobriram que a área do cérebro acionada pelo sentimento de inveja é a mesma de quando sentimos dor física.

A parte do córtex dorsal anterior do cérebro é rapidamente ativada quando a inveja aparece, assim como estruturas cerebrais associadas ao prazer também são acionadas quando vemos a pessoa que invejamos se dar mal.

E esse “se dar mal” não precisa ser um desejo crudelíssimo: qualquer coisa que dê errado para o outro é capaz de nos causar algum alívio.

A inveja é um sentimento de pouca racionalidade. Olhamos para o sucesso do outro como um aspecto isolado, como algo pontual, e esquecemos que toda ação bem-sucedida envolve muito trabalho e dedicação.

Atribuímos ao outro questões como sorte, contatos, herança familiar e por aí vai, quando a verdade é que só aquela pessoa sabe tudo que passou para chegar onde chegou.

Quando adultos, demonstramos inveja por meio de comentários maldosos. Perceba-se: você andou falando que “fulana só conseguiu aquela promoção porque é próxima do chefe…”, “Como ele consegue vender tanto é um mistério…”, “Claro que ela está sempre namorando, ela se envolve com qualquer um…”? Se andou, bingo: você foi mordida pelo bichinho da inveja.

E o mais interessante é que, se podemos reconhecer quando outra pessoa está sendo invejosa, é porque também temos essa capacidade de invejar dentro de nós.

A inveja aparece quando nos sentimos impotentes e esquecemos do nosso próprio valor. Quando acreditamos que o outro tem algo que nós não temos: capacidades, qualidades, apoio…admitir é duro, mas é o primeiro passo para lidar com esse sentimento tão controverso. Seja amoroso(a) com você, pare um pouco e reflita.

Identificando o alvo da sua inveja.

Comece perguntando a si mesmo o que exatamente você está invejando: algo material? Se for, isso pode indicar que você acredita que só quem tem um carro, uma casa própria ou uma roupa de marca, por exemplo, é que atingiu o tal sucesso.

Se o que o(a) perturba é aquele(a) seu(sua) amigo(a) que está sempre se relacionando com alguém, enquanto você está há tempos sozinho(a), significa que há um padrão afetivo negativo na forma como você enxerga os relacionamentos ou, ainda, a sua própria dificuldade em aceitar a solidão e ficar bem consigo mesmo(a).

Já na área profissional, se você não consegue ficar realmente feliz por ver o seu colega evoluindo e atingindo objetivos, é porque provavelmente está insatisfeito(a) com o seu próprio trabalho e a forma com que vem conduzindo as coisas.

Sim! A inveja tem muito para nos ensinar – se estivermos dispostos a olhar para ela.

Transmutando a inveja.

Quando entendemos que a inveja é um pedido de socorro por mais amor-próprio, tudo melhora. A inveja é uma chance de olhar para si, analisar o que não está tão legal e o que pode ser melhorado.

Vamos assumir: não é possível deixar de sentir inveja. O que podemos fazer é aprender a direcioná-la de forma positiva, como inspiração.

De forma negativa, a inveja nos paralisa, mantendo-nos na inércia e na zona de conforto, enquanto a comparação com o outro rola solta. Quando utilizada para o bem, ela nos permite batalhar mais, ter vontade de crescer, ter garra e valorizar nossas qualidades, sem esquecer do que já conseguimos.

Acredite: você é bom o suficiente e pode sonhar alto. Você veio ao mundo com habilidades únicas, e é um ser cheio de potencial, muito capaz de modificar a realidade ao seu redor.

Para transmutar de vez a inveja, veja-a como um convite para investir mais em você. Para fazer mais por você. A inveja é uma chamada para a ação.

Portanto, da próxima vez em que esse sentimento o invadir, não o reprima. Não se engane, não ignore, não finja que você não sente: aceite o convite, pegue a inveja pela mão e aproveite mais essa chance de mergulhar em autoconhecimento.


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