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O RACISMO QUE MORA AO LADO:

Uma pessoa muito bem vestida, com cabelos ajeitados, óculos de marca e um carro bacaninha contava sobre um “preto” que cuidava da sua casa na praia, que foi roubada no último Natal. Esse cara, esse da roupa alinhada e do emprego garantido, solucionou o caso em apenas dois dias. Facinho, facinho: o assaltante foi o “preto” que cuidava sua casa.


Como ele descobriu?

“Não precisei nem pesquisar, o preto tinha a chave, foi ele!”, disse como se seu MBA em administração de empresas também tivesse lhe concedido o direito ao exercício do cargo de investigador da polícia.

Eu, que sabia muito pouco sobre aquele homem, mas estava acompanhando um amigo naquela carona, perguntei o que ele fez a respeito disso. E ele respondeu que não havia prestado queixa, pois juntou uns amigos e deu “uns tapas” no cara.


“Ele nunca mais vai roubar nada de ninguém”, me garantiu com ar de Superman, antes de me olhar pelo espelho esperando um aplauso, mas somente emudeci diante daquela atrocidade e mudei o assunto para que o clima não pesasse ainda mais dentro do carro.

Pouco tempo depois, acho que duas ou três semanas, esse meu amigo me ligou e contou que no dia do assalto, veja bem, o “preto assaltante” nem estava na cidade, pois havia juntado uma grana e viajado com a esposa e os dois filhos para comemorar o Natal em outra praia.


Quem contou para ele isso foi o próprio administrador-investigador-Superman, que havia sido chamado para prestar depoimento, pois bateu no cara errado, que o denunciou logo em seguida na esperança de que a justiça fosse feita.

Resultado: Essa semana o cara postou uma foto em sua bela casa na praia, sem camisa para mostrar o abdômen sarado e um sorriso de quem acha que pode fazer o que quiser. O que eu fiz? Me perguntei como ainda não havia excluído essa pessoa da minha lista de contatos e aproveitei a ocasião para colocar para fora o que estava entalado na minha garganta.

“Fulano,

IPEA – 104,2 milhões de brasileiros são pretos e pardos, o que corresponde a 52,9% de nossa população. Sabemos, também, que a possibilidade de um negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um branco. A renda dos negros é 40% menor que a dos brancos. Mulheres negras são mais atingidas pelo desemprego. Taxa de analfabetismo é duas vezes maior entre os negros -.

Esses são apenas alguns dados que encontrei na internet, muitos são de 2014, ou seja, a coisa pode estar ainda pior. Se você desejar, e acho que deveria fazer isso, tem alguns livros que contam a história da escravidão no Brasil. Você vai encontrar detalhes sórdidos de mulheres e homens negros africanos trazidos de suas colônias na África para trabalhar como mão-de-obra escrava nos engenhos de açúcar do Nordeste.

Vai ler também que os comerciantes de escravos portugueses vendiam estes negros africanos como se fossem mercadorias aqui no Brasil. Os mais saudáveis chegavam a valer o dobro daqueles mais fracos ou velhos. Ah, eles apanhavam muito, mas muito, mas pensa em muito e multiplica pela idade que você tem. Pega o resultado e multiplica por mais um monte. Ainda não vais ter a dimensão do que essas pessoas sofreram.

Talvez, e eu espero que aconteça, você compreenda que julgar alguém pela cor da pele é voltar a um tempo que todo mundo quer esquecer. Quem sabe você vai compreender que uma pessoa se torna criminosa por um bocado de questões sociais, culturais, educativas ou de caráter mesmo, mas jamais pela cor da pele que tem”.

Ninguém curtiu meu comentário, que ficou exposto cerca de 20 minutos antes de ser deletado. Eu e meu amigo – que era o único que sabia do final daquela história de racismo e preconceito, fomos excluídos da sua lista de contatos.

Meu amigo ficou um pouco desconfortável no início, mas entendeu que não devemos estar perto dessas pessoas nem pelas redes sociais. Eu? Apenas agradeci internamente por não ser como ele e por amar todos os meus amigos brancos e negros com afeto e admiração. Não por serem brancos ou negros, mas por serem os seres humanos incríveis que são.





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