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O sal das minhas palavras…

O Sal das minhas palavras

O Sal das minhas palavras       



Se não fosse seu nome, Roland Barthes e abaixo sua biografia em letras gigantes, quem não sabia desta sua faceta de pintor poderia supor que a exposição Intermezzo não seria naquele espaço. Era meados de março, precisamente 2004 e por sorte ou destino aquela foi uma das experiências mais ricas ao adentrar o imenso salão, depois de escalar infindáveis degraus largos e aristocráticos e passar por caminhos estreitos, salas após outras e enfim um pano preto obrigando quem quisesse entrar atravessá-lo. As duas mãos num ato lúdico e teatral, aproveitei e romperam o pano negro! Veio um clarão de luzes e holofotes indicando a grandeza do evento, extremo sistema organizado.

Três palavras acenderam: Sistema, organização e linguagem!

A partir dali à direita, as primeiras duas salas estavam repletas de 34 pinturas e desenhos. No Museo Nazionale del Palazzo di Venezia, em Roma, Itália. Uma mostra em homenagem ao intelectual, mestre da Semiótica, claro e sabia bem o que fazer com as palavras, aliás, dizia em sua obra a Aula, que estas deixam de ser meros instrumentos e são lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores, onde a escritura faz do saber uma festa. Porém, em sua obra O prazer do texto complementa esta noção da “palavra”, pois a língua segundo o autor especialista em signos reconstrói em outro lugar pelo fluxo apressado de todos os prazeres da linguagem. E neste mesmo livro pergunta ao seu leitor aonde seria este lugar de reconstrução da língua? E ele mesmo responde: – No paraíso das palavras!


É certo, sem sombra de dúvida, ali naquele lugar das artes porque não ousar dizer paradisíaco rodeado de painéis brancos compostos por páginas da sua densa produção, que acolhiam os visitantes dar-se-ia a verdadeira lição, ou melhor, como Barthes usa o termo em sua outra obra A Aula, uma “excursão” do saber! Dizia ser o ensino opressivo não pelo saber ou a cultura, a qual veicula, contudo são suas formas discursivas e como é proposto. Assim, ao escrever ou ao ensinar o principal deste ato de desprendimento é ao escrever, a fragmentação e ao expor, a digressão e isto resumia a palavra “excursão”. Um desenrolar barthesiano de idas e vindas de um desejo, onde a pessoa apresenta e representa sem fim. Por outro lado, em O prazer do texto contribui nessa tessitura (leitura) e da apreensão dos saberes quando Barthes atribui o significado da palavra texto, […] quer dizer Tecido; – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia. (BARTHES, 1987, p.82)

Comecei a entender, o quanto os trinta e quatro desenhos em técnica mista abstrata, sobretudo sinais formando milhares de fragmentos sob os holofotes da linguística e da semiótica indicavam o caminho da linguagem destas teias traçadas e alcunhadas, através dos signos. A narrativa daquele evento estava tramada num enredo trançado pela escrita, símbolos gráficos, fotografias e culminava numa sala fechada onde podia-se ouvir a voz do autor. Uma espécie de vínculo com seu leitor ou como se tivesse a necessidade de justificar o que faz com a “palavra” ou o que esta provoca no pintor, amante da fotografia, da moda, das artes, além de escritor, sociólogo, filósofo, crítico literário e um dos teóricos da escola estruturalista e assim, Roland Barthes desabafa: “a palavra me oprime com a ideia que farei qualquer coisa com ela. É uma emoção, o tremor de um fazer futuro, algo como um apetite, um desejo que transtorna todo o quadro imóvel da linguagem”. (BARTHES 2004).

A pintura de Barthes parece remeter ao “jogo” da sua teoria da linguagem que vêm em forma circular de fragmentos e é justamente, neste aspecto, que para quem leu suas obras O prazer do texto e a Aula consegue entender onde se incidem. Obviamente nos signos, quase sempre um dizer obsessivamente caracterizado por sinais labirínticos, percursos indissociáveis ou por sua geometria exata ao lidar com a matéria viva. Um “dialeto” aberto que empurra ao debate dando ao sujeito a liberdade de pensar, imaginar, sair da zona de conforto como uma leitura feita pelo “sujeito anacrônico”, “clivado” e dividido, que segundo o autor de O Prazer do texto, anacronismo este daquele detentor desta façanha. O indivíduo que concilia o ato de ler os dois textos, mantendo o comando do prazer e da fruição, no primeiro participa do “hedonismo profundo de toda cultura” e no segundo “frui da consistência de seu ego” e permite perder-se.

No entanto, apesar dessas lembranças, a viagem continua por que me sentia pequena diante os enormes painéis brancos fazendo o fundo para escrita em negro que parecia uma provocação. Cada palavra na horizontal ou na vertical, parágrafos inacabados, frases sem início e nem fim. Assim, os progressos e avanços dos pés num chão invisível, inseguro insistiam em continuar pela curiosidade do que estava sendo apresentado, tal como ler a Aula. Este livro é o resultado de uma aula magna, intitulada Leçon, pois em 1978 inaugurava no Collège de France, a cadeira de semiologia literária e coordenada pelo ilustre autor Roland Barthes, justo neste contexto dizia que a língua devia ser combatida, desviada e não pela mensagem da qual ela é instrumento e sim pelo “jogo das palavras de que ela é o teatro”.


Ao mesmo tempo, em O Prazer do texto, ao explicar a palavra “fruição”, aquela leitura que faz balançar as bases remete à própria maneira barthesiana de estabelecer o “jogo” dos “signos”.  Uma história onde a literatura, o texto barthesiano e sua teoria reafirmam o seu papel de obra de arte, quando faz das palavras o sabor a ser degustado com prazer nos usos das linguagens. Melhor dizendo, a literatura para Barthes é arte! Poderia isto ser identificado ao usar o termo “trapaça” em Aula: o que é capaz de tirar do prumo, usar de artifícios ou escutar a língua longe dos poderes ideológicos, onde Barthes chama de “revolução permanente da linguagem? ”E de que forma esta linguagem pode se apresentar? No caso da literatura, o autor indica “a prática de escrever”, no entanto, a literatura não se limita somente ao texto de um livro. A escrita/texto está presente no teatro, outdoor, na bula de um remédio, nas galerias de arte ou desfiles de moda.

Agora, o que ela provoca no sujeito? Nosso cotidiano é repleto das leituras frívolas, rápidas e acompanham a velocidade dos afazeres mecânicos da sociedade moderna.  Talvez, todos fiquem esperando o dia em que O prazer do texto chegue, pois cedo ou tarde vem essa necessidade de afrouxar o cinto, tirar os sapatos, desarrumar os cabelos e transgredir, uma “[…] urgência em desaparafusar um pouco a teoria, em deslocar o discurso, o idioleto que se repete, toma consistência, em lhe dar a sacudida de uma questão. O prazer é essa questão”. (BARTHES, 1987, p. 83) Seria o caso de pensar a literatura realmente como um “jogo”, Barthes exemplifica na sua lição a Aula o “teimar com a língua”, “não ceder” e reafirmar o caráter irredutível da literatura.  Talvez, esteja se referindo àquela que desloca o sujeito, a linguagem e o transporta para o inesperado ao inverso da cultura de massa que ameaça soterrar de vez o individualismo, além de afetar os sujeitos de forma alarmante em sua capacidade de percepção, conforme tese da estudiosa e literata Camille Paglia, onde exprime em seu mais recente livro sua angústia em perceber que: “… um mar de imagens…. A intensa expansão da comunicação global instantânea pode ter concedido espaço a um grande número de vozes individuais, mas, paradoxalmente, esta mesma individualidade se vê na ameaça de sucumbir.” (PAGLIA, 2014, p.4)               

Portanto, enquanto degustava cada momento daquele dia espetacular, inédito e único, fruto desta enxurrada de elementos desconexos, onde tudo fazia nexo foi onde lembrei: o problema consiste no que Roland Barthes chama de intertexto, que é a impossibilidade de viver fora do texto infinito. A necessidade de estar entre uma margem e outra seja ela a tela da televisão, de um clássico da literatura ou hoje, navegando na internet faz este livro ter sentido, o sentido da vida. O lugar, onde existe a perda, uma brecha, uma escapada, o que o autor chama de “fenda” e a cultura e os discursos ideológicos, porém o adverte que “Fumar faz mal à saúde” ou ao “Beber não dirija”. Interrompe esse Prazer do texto e ao impor uma margem, o the end, o fading do cinema, ao fechar a página do livro, ao sair do teatro, o sujeito retorna à realidade das vozes polifônicas e retoma seu cotidiano caótico e limítrofe.

O que fica claro nessa Aula que sua proposta sempre foi um novo paradigma e onde for que a escrita se estabeleça, que co-existam “saber e sabor”, duas palavras em latim com a mesma etimologia, bem exemplificado em a Aula por Barthes. E me veio o gosto, que faz o “saber profundo e fecundo” e assim, fiquei sabendo que jamais alguém poderá reclamar de estar degustando algo sem sal, o “sal das minhas palavras”.


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