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O vício de viver a vida dos outros…

CONTO – “VICIO”



A tecnologia sem sombra de dúvida foi uma das melhores coisas que aconteceram nos últimos tempos, mas não podemos deixar de constatar que além de afastar as pessoas da realidade também as deixaram um pouco frustradas e quiçá até melancólicas. A vida dos outros começou a ser mais interessante e descomplicada.

Paula era uma menina, bonita, inteligente e alegre, até que se viciou. Não, ela não se viciou em drogas, álcool, muito menos em sexo ou açúcar. Seu vício era viver a vida dos outros. Paula acordava e antes mesmo de se levantar da cama checava seu celular, entrava em todas as redes sociais para ver o que estava acontecendo.

Seguia várias pessoas, acompanhava a vida delas como se fosse uma novela, pessoas estas que muitas vezes nem sabiam de sua existência. Talvez isso fosse algo normal se ela não perdesse grande parte de seu tempo comparando-se com as meninas que postavam fotos em lugares lindos, com pessoas interessantes e fazendo programas que ela sabia que estariam muito longe do seu alcance.


Mas até onde tudo isso era verdade? Ela nunca parou para pensar que pudesse estar acompanhando uma mentira, uma farsa vivida pela grande maioria dos internautas. Paula começou a se achar menos interessante, mais feia e não tão inteligente como todas aquelas pessoas que ela cegamente acreditava que existissem.

Parou de ler seus livros, de frequentar a academia e vivia reclamando que não tinha tempo para nada. Perdeu o interesse por ela mesma, deixou de acreditar em suas verdades para viver as suposições alheias. Pessoas muitas vezes que por falta de fé, preferem viver em um mundo o qual acreditam ser melhor do que o seu.

O medo de enfrentar situações faz com que elas se afastem de sua própria vida, e nem sempre é de proposito, acontece de uma maneira inconsciente quando o universo em que elas vivem deixa de ser atrativo.

Mas em que momento Paula se perdeu? Se é que podemos dizer assim. Bom, nem ela mesma sabia ao certo, só se lembra de tentar conversar com suas amigas na escola e as mesmas ficarem totalmente mudas e catatônicas olhando pro telefone, e quando conversavam era sobre a vida de alguém. Paula em principio se afastou, tentou mudar de grupo, mas tinha algo ali que lhe atraia, as meninas ficavam tão quietas e concentradas que por um instante isso podia ser confundido com uma profunda paz de espirito ou até meditação.


Seria engraçado se não fosse trágico. O universo das outras pessoas começou a ser melhor que o dela e gradativamente sem que Paula percebesse ela já estava lá, sem controle, querendo saber mais e mais da vida dos outros. Sua mãe dizia que ela parecia uma velha fofoqueira e despeitada o que a deixava muito mais irritada e revoltada. Era impressionante, mas mesmo sua mãe sendo uma mulher madura não conseguiu diagnosticar que algo errado estava passando com sua menina, sim, Paula tinha apenas 16 anos e estava viciada. No mundo de hoje ainda uma grande maioria de pessoas não se dão conta que o vício seja ele qual for não é saudável até mesmo quando uma pessoa se diz viciada em ser saudável.

O “vicio” pode parecer gratificante e prazeroso, até o momento em que se torna algo compulsivo que não se pode mais dominar.

Vicio, seja ela qual for, não é bom!


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