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Obesidade é doença e não falta de vergonha na cara!

obesidade

As redes sociais deram voz aos intolerantes!



Não nego as vantagens que a internet trouxe à humanidade, porém, me questiono incessantemente qual a tênue linha que separa os benefícios da tecnologia dos males que ela causou a muitos, cujas vidas foram expostas, julgadas e condenadas.

Nas redes sociais somos todos sabichões, donos da verdade, dispostos a aconselhar sem crivo e sem discernimento algum sobre todos os assuntos. Somos juízes, algozes ferozes capazes de digitar palavras horrendas a um desconhecido. Desconhecemos a humildade e o respeito ao outro quando este se mostra diferente. Entramos em um estado de transferência e contra transferência constante como se ali fosse o lugar e o tempo de cuidar das nossas neuroses.

E foi vendo uma cena assim que me deparei com o seguinte comentário para uma foto de uma mulher obesa em roupas íntimas sensuais.


A frase era: “Gorda! E é gorda porque come! Não tem vergonha na cara e ainda tem coragem de postar este horror.”

Acredito que a frase acima burle todas as regras de respeito, educação e convívio de qualquer sociedade. Tenho visto com bastante frequência, pessoas achando-se no direito de questionar, discordar e opinar sobre o que o outro “diz” (publica ou posta) sem que haja entre estas pessoas intimidade alguma, espaço algum para que se inicie um diálogo de discordância, nem tampouco de ofensas.

Nenhum ser humano é obeso por ser portador da tal “falta de vergonha na cara”, denominação que eu não faço a menor ideia do que seja de fato. Acredito que a tal vergonha ou falta dela esteja ligada ao bom senso sobre como agir ou talvez ao superego que é tão competente na arte de nos embutir vergonhas e culpas.

A obesidade é uma doença estudada por vários profissionais da área de saúde e cujo enfrentamento requer, inclusive, repertório emocional. De repente, um ser humano de vinte e poucos anos decide constatar – sem ser questionado sobre o fato – que a causa da doença é a tal falta de vergonha na cara. Ele então recebe centenas de curtidas e aplausos por ter sido agressivo, mal educado e por ter magoado ao outro que ele nem sequer conhece, exercendo um total desserviço à sociedade.


Inúmeras são os estímulos que levam um indivíduo ao comportamento alimentar inadequado. O padrão compulsivo, o ambiente desfavorável, a falta de repertório para enfrentamento de frustrações, as falsas crenças, os maus hábitos alimentares trazidos de geração para geração, os fatores genéticos… Tudo isso tem levado uma grande parte da população mundial a estar obesa e não apenas a “falta de vergonha na cara”. Talvez falte um pouco dessa vergonha na cara de quem escreve uma frase dessas ou quem acredita ter o direito de julgar e condenar o outro!

Muitos são os casos de indivíduos que abandonam o tratamento da obesidade por razões emocionais. Geralmente eles encontram muitas barreiras ao tentar abandonar o prazer imediato da comida em nome do prazer ainda não palpável nem visível de ter uma silueta que lhe agrade e agrade ao mundo. Muitos são os que perdem a batalha para as pedras e chibatas que lhes atacam porque acreditam que ser obeso é uma escolha.

E o que dizer sobre os que apedrejam? Quem são estes capazes de escrever tão cruel frase a uma desconhecida que tem coragem o bastante para publicar sua foto, mesmo estando obesa e sabendo o quanto isso afeta aos que passam suas fotos por trezentos filtros antes de publicarem-na?

Quem são estes tão incomodados com a obesidade do outro? Talvez sejam os mesmos que, ao se depararem com alguém que está em meio à batalha contra a balança, dizem frases como:


-Ah come só hoje!
-Você merece!
-Se você não comer, vai engordar mais ainda!

Eis os algozes da pior espécie. Os lobos em pele de cordeiro. São os cuja fala e sempre mansa, melódica, o olhar terno. Parecem estar sempre prontos para encorajar o outro a seguir em direção ao fracasso e então possam novamente dizer: ah, mas é muita falta de vergonha na cara.


Os seres humanos podem ser fantásticos, magníficos, mas muitas vezes se mostram ser uma espécie merecedora da extinção.

Somos mesmo esta dialética, esta complexidade, somos capazes de agredir ao desconhecido e também capazes de dedicar a vida buscando a cura para uma doença.

A obesidade é um mal que assola grande parte da população. Inúmeros são os experimentos em busca da cura para os casos mais severos. Muitas são as técnicas cirúrgicas, clinicas e comportamentais que vem sendo aplicadas no controle do peso e das doenças decorrentes dele. Obesidade não é falta de vergonha na cara, mas talvez a maldade, a disposição para agredir o seja.


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