Oferte o seu colo à criança que você foi um dia.

O nosso “eu” adulto precisa exercitar a compaixão pela criança que fomos.

Se é para perdoar, perdoe a si,  primeiramente, e então terá condições de perdoar o outro.  A temática do perdão é amplamente difundida, em especial,  nos contextos religiosos e espiritualizados, porém, no geral, prega-se aquele  perdão liberado ao outro. Percebe-se que o “autoperdão” é muito pouco estimulado. Mas não precisamos da  autorização de ninguém para começarmos  a nos perdoar hoje, ou melhor, agora.

Certamente, todos nós carregamos lembranças tristes e revoltantes com as quais nos sentimos machucados ou mesmo revoltados.  Lembranças que nos maltratam e que até comprometem a nossa  saúde emocional, e que ainda nos arrancam lágrimas,  independente do tempo que passou.

É que, por vezes, somos tomados por uma enorme indignação ao  nos darmos conta de que fomos maltratados e ultrajados por pessoas que tinham o dever de nos proteger.

Algumas vivências dolorosas são superadas e percebemos apenas  as cicatrizes delas, seja na alma ou no corpo. Essas cicatrizes nos fazem lembrar de que sobrevivemos e superamos, apesar de todas as dificuldades.

Entretanto, existem aquelas   experiências traumáticas que nunca conseguimos elaborar, as quais  se transformaram em feridas abertas que ainda sangram de vez em quando, basta que elas sejam tocadas.

Muitas das nossas feridas da alma são oriundas das vivências traumáticas da infância. Então, ocorre de muitas pessoas  tocarem a vida consumidas  por  culpas que não pertencem  a elas, visto que elas foram vítimas das  circunstâncias ou da negligência de pessoas que deveriam ter cuidado delas. Isso ocorre porque uma pessoa sequelada por maus tratos e abusos na infância, por vezes, perde o discernimento, e sai da condição de vítima assumindo,  injustamente, o papel de culpada. Se essa pessoa tiver o privilégio de se submeter ao processo de psicoterapia, ela terá clareza disso e terá condições de se libertar dessa culpa.

Diante disso, essa vítima poderá reelaborar  aquelas vivências tão dolorosas, adquirindo uma nova forma de enxergar tudo o que lhe aconteceu. O nosso “eu” adulto precisa exercitar a compaixão pela criança que fomos.

Se você se viu um dia na condição de uma criança abandonada e maltratada, libere-a  da  culpa e oferte o seu colo a ela.

Volte no tempo e olhe essa criança com compaixão e ternura. Abrace-a e proteja-a, acaricie os seus cabelos  enquanto explica que a  culpa que ela sente por aqueles episódios tão dolorosos, não pertence a ela. Aquela criança precisa do adulto que você se tornou para liberá-la desse aprisionamento emocional. Aquela criança não tem ninguém por ela, somente você.

Apenas você poderá inocentá-la. Aquela  criança implora pelo seu perdão… não negue isso a ela.

Brinque com aquela criança… gargalhe com ela. Ela precisa… ela merece.

Ivonete Rosa

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Direitos autorais da imagem de capa: zinkevych / 123RF Imagens



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