OS ANIMAIS MUDAM AS NOSSAS VIDAS…

Quando comecei a andar e a falar, comecei também a pedir um cachorro para os meus pais. De Natal, de aniversário, de dia das crianças, de dia de data nenhuma.

Fui criança sem computador e sem internet, então, minha praia era brincar no quintal mesmo. E para isso eu queria um cachorro.

Uma bolinha de pelos que corresse atrás de mim e que fosse buscar a bolinha. Que deitasse no carrinho de bonecas, apreciando nossos passeios entre as flores do canteiro. Que cavasse buracos escondendo ossinhos, que pulasse de felicidade quando eu chegasse do colégio. Que ficasse sentado na cadeira, atento às minhas brincadeiras de escolinha na lousa pregada na parede.

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Só com 11 anos de idade consegui realizar meu sonho de infância. Meus cansativos argumentos em promessas jamais cumpridas – nunca mais desobedecer, arrumar meu quarto, não brigar mais com meus irmãos, não pedir presentes nas próximas datas festivas – convenceram meus pais e, no dia seguinte, o Bijou chegou.

Ele era o cachorro mais bonito do mundo. Era um algodão doce, uma nuvem cor de champagne com aquela carinha de ursinho carente. Meu primeiro grande amor e também o carinha que mudou a minha vida, porque me mostrou com uma candura inigualável que conviver com os animais é um carinho de Deus. É o jeito mais bonito do divino estar pertinho do humano.

O Bijou viajou com a gente, passeou por outras bandas, latiu para muitos cachorros e para um tanto de pessoas também, correu no gramado, se enfiou na lama logo depois do banho, caiu na piscina, foi hóspede escondido de hotel que não aceitava animais, comeu tudo o que cachorro não pode comer (e a gente nem sabia…), fugiu de casa, roeu portas, destruiu chinelos, fez xixi em tudo que é lugar, ganhou um bocado de irmãos de quatro patas e, quando tinha seus 14 anos, ficou doente.

Ele, que nem gripe pegava, ficou doente pra valer. Foram os rins. E aí tudo foi se complicando. Era soro todo dia, era remédio a toda hora, era ração especial, papinha fortificada, sonda alimentar. Eram termos técnicos invadindo nosso dia a dia de incansáveis visitas ao veterinário. Era fluidoterapia, diurético, enalapril, hemograma, edema, ultrassom…. Teve uma hora em que as fraldas foram necessárias e as roupinhas também. Teve uma hora em que ele começou a trocar o dia pela noite e chorava feito bebê até ser ninado e cair no sono outra vez. Teve vez que ele não caiu no sono e foi a noite toda de colo e filmes, séries, competições culinárias e tudo mais que a madrugada televisiva pode oferecer.

É que o melhor remédio que a gente conhecia não vinha em cápsulas e nem em gotinhas. Era amor mesmo. Amor em doses cavalares. Amor que a gente aplicava no Bijou em forma de carinho, de afagos, de beijinhos, de colo em livre demanda, de massagens para aliviar a dor de barriga, de bolsas de água quente para espantar o frio.

E quando o Bijou fez 15 anos teve festa porque ele era, de fato, um Super Herói! E também porque ele não era só um cachorro, como alguns (normalmente, quem não tem cachorro) podem pensar…ele era meu cachorro, meu melhor amigo, meu filho, meu pai, meu irmão! Mas antes mesmo de nascer, o Bijou já tinha marcado a data de reencontro com os mistérios do universo, o dia em que suas asas de anjo voltariam para ele. A gente não fazia ideia de quando seria, apesar de sentir a proximidade. Aprendemos a dormir rezando por um dia a mais, pelo abraço de amanhã, pelo colo na hora da novela.

Aí, um dia, o Bijou comeu a papinha na seringa, resmungou de dor de barriga, chorou um tantinho e ganhou o colo que ele tanto gostava. E quando a gente achou que ele fosse dormir só um pouquinho, ele resolveu que era hora de voar. Foi, devagarzinho, largando seu corpinho de algodão doce para descansar em alguma nuvem macia do Céu.

O Bijou nunca falou uma palavra sequer, mas os olhos dele tinham muito a dizer…e como diziam! Bastava que a gente aprendesse a universal comunicação do coração: a intuição. Foi com ele que eu brindei as alegrias e chorei as tristezas. Foi por ele que eu deixei de sair em noitadas e festas porque, no mundo inteirinho, era lá do lado dele que eu queria estar! Foi o Bijou que me trouxe responsabilidades de gente grande ao mesmo tempo em que me ensinava que, ao seu lado, dava para ser criança para sempre.

Foi com ele que eu perdi o medo de cachorros que carreguei por toda uma infância. Foi por ele que guardei mesadas e investi salários. Foram suas incríveis habilidades no futebol que me renderam boas risadas, foram suas surpreendentes recuperações que me deram esperança. Foi vendo sua luta em batalha valente que passei muitas noites de desespero, mas foi também com ele, em sono de calmaria, que amanheci sem saber como foi que adormecemos.

Sim, o Bijou mudou minha vida! Ele foi (e continua sendo) amado do primeiro segundo em que nos conhecemos até seu último suspiro, no meu colo, embalado pelos meus braços, acalentado pelo meu pranto de saudade. Ele não deixou de ser querido quando foi ficando velhinho, como, infelizmente, muito se vê por aí. Sua velhice foi, pelo contrário, lição de vida que escola e faculdade nenhuma seriam capazes de ensinar.

É que tem coisas que a vida quer que a gente entenda e vivenciar é o único meio de aprender. E com o Bijou eu vivi! Vivemos. 15 anos. Ele me viu menina, criança, de pé no chão fazendo bolhas de sabão. Ele me viu crescendo, mudando como as estações. Ele me viu mulher, ninando seu sono em pose de mãe.

Foi justamente aquele seu rostinho, no fim dessa vida, já tão magrinho, que me fez entender que a serenidade só depende da gente, que o amor incondicional só sobrevive nos corações mais puros e que a vida é carpe diem, sim, afinal, não somos nada mais que memórias e elas só nascem de dias bem vividos, de dores compartilhadas, de sonhos realizados, de cachorrinhos cor de champagne que correm por horas a fio atrás de uma bolinha em uma tarde calorenta de sábado.

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E sabe do que mais? Foi com o Bijou que eu aprendi a rimar porque, pra falar a verdade, acho que ele nem era um cachorro. Ele era um poema!



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