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Os excessos e os super-heróis:

O excesso é o que sobra, o que está a mais, o desregramento, a falta de moderação. O excesso é o que prejudica em vez de ser útil ou benéfico.



O excesso magoa, provoca dor. É um vício, uma adição, uma compulsão, uma doença. É consequência de algum descontrole químico e emocional que abala as pessoas interiormente e transborda para o corpo, como um copo cheio água.

O excesso é sempre um excesso: comida, álcool, cigarro, drogas. São problemas com recortes e consequências diferentes, mas são, antes de tudo, um excesso: algo que rompe a fronteira da pele e extravasa pelo corpo. É quando atinge o corpo que o excesso deixa de ser um segredo e se torna visível e condenável, especialmente para aqueles que nunca se confrontaram com os seus limites interiores ou com a ausência deles.

Há quem aconselhe moderação – até com uma leveza inapropriada – aos que sofrem com algum tipo de excesso. Mas lidar com o excesso é um processo difícil e sofrido. Se fosse fácil não haveria excessos, mas apenas um mundo perfeito de equilíbrios.

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Mark Twain (1835-1910) dizia “Não nos libertamos de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau.” É assim que nos libertamos do que não queremos, do que nos faz mal, do que nos fere: devagar, muito devagar.

Qualquer um conhece bem os efeitos nocivos da sua compulsão, e muitas vezes já acorda a pensar que tem que parar ou superar o problema. E assim que aquele primeiro pensamento matinal o atinge, atira-se imediatamente à compulsão da qual se quer livrar. É como se bastasse apenas o pensamento para todo o corpo e energia se orientarem para satisfazer aquele vício. Ele torna-se maior que tudo. Ele é o centro de tudo e é em torno dele que o cotidiano se organiza.


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Não são os conselhos nem o conhecimento das consequências de uma compulsão que fazem  alguém parar. Nem os medicamentos mais modernos são eficazes contra uma adição se não houver uma decisão interior. Há, obviamente, a questão química – trata-se de um distúrbio – mas se não houver vontade não há superação.

Dominar uma compulsão, um vício, requer três coisas fundamentais: humildade para reconhecer o problema, força de vontade para abandoná-lo e o momento certo. Não adiantam as internações, as medicações sofisticadas ou um batalhão de amigos e profissionais cheios de boas intenções.

Uma compulsão abandona-se do interior para o exterior – começa de dentro, como qualquer grande decisão na vida. Precisa de tempo – do momento certo – para maturar, até a vontade se tornar densa e passar do estado gasoso que é o pensamento, ao estado sólido que é a ação. E só funciona se for assim. Enquanto não houver consciência, vontade e tempo não há como abandonar uma compulsão – comida, cigarro, álcool, droga ou qualquer outra.

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Deixar um vício é um processo lento que mede a têmpera das pessoas, até porque as pessoas deixam o vício, mas ele nunca as abandona. É uma sombra que mora para sempre dentro da cabeça e volta ao mínimo gesto de distração, ao mínimo descuido. Um vício é como uma criança indisciplinada, arrojada, rebelde e sem limites: precisa de constante vigilância e carinho. Não se sai de um vício com raiva, com fúria, detestando-o e renegando-o.

Sai-se de um vício como quem deixa um amante de longa data, quando ainda ficou o amor, mas o desejo já se foi: devagar e com ternura, respeitando o passado, mas gerando um novo futuro.

Os que conseguem abandonar uma compulsão descobrem uma força inesperada que é capaz de mudar-lhes o destino. Depois do sofrimento provocado pela abstinência e pela reeducação dos hábitos, renascem e sentem-se um pouco como os super-heróis dos cartoons: donos de um superpoder que os torna senhores da vida, e verdadeiramente livres. Eles superaram os seus limites ao dominaram o que de mais difícil existe: os demónios que habitam na alma, os fantasmas que assombram a mente.

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Texto escrito com exclusividade para o site O Segredo. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




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