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PARA AMIGOS DE VERDADE, O LADO ESQUERDO DO PEITO!

Uma grande amiga está prestes a ter um bebê. Parei pra pensar na vida e em como ela brinca com a gente. Faz rir e faz chorar. Nesse caso – o da minha amiga – faz rir. De alegria, de reciprocidade, de vontade de fazer um mundo melhor pra receber a Helena.


Parei também pra pensar que já conheço a mãe dela há 8 anos e que, antes desse tempo, não fazíamos ideia da existência uma da outra, mesmo morando em cidades vizinhas. E aí tentei me lembrar de quando comecei a ficar amiga da mãe da Helena. Foi na faculdade. Mas queria me lembrar de como foram nossas primeiras conversas, de quem puxou papo, de quem criou assunto, de quem notou afinidades. Não me lembro. E aí me dei conta de que amizade de verdade é assim: simplesmente acontece (!) sem marcar hora, sem escolher data.

Foi assim com a mãe da Helena e foi assim com outros poucos e grandes amigos que carrego no coração. A gente não se lembra de como começou porque parece até que a gente já nasceu sabendo que na hora certa as amizades haveriam de acontecer.

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E esses flashes que vamos tendo dos momentos entre amigos são como porta-retratos internalizados na mente, como segredos ao pé do ouvido, como reunir as amigas numa quarta-feira à tarde pra comer brigadeiro e assistir Friends.

Me lembro de estudarmos juntos, na mesma sala. Me lembro de fugirmos da bola nas aulas de Educação Física. Me lembro também do alívio quando um deles me escolhia para ser do time mesmo sabendo de todas as minhas inaptidões esportivas. Me lembro dos recreios sob o sol quentinho na varanda do colégio. Me lembro das excursões para o parque de diversão, da viagem de formatura, da festa, do baile. Me lembro do noivado surpresa também. Me lembro do nervosismo antes de apresentar os trabalhos e da boca seca lendo os slides do Power Point. Me lembro da valsa, da dança, do movimento, do salão cheio, das risadas, dos soluços de saudade. Me lembro de estar lá, sempre lá, dividindo esses momentos, esses detalhes tão intensamente sensacionais da vida. Me lembro de tantas coisas que nem cabe dizê-las todas em palavras, pois os olhos começam a transbordar, emocionados.

Emocionantes! É isso que as amizades tendem a ser. Um cantinho emocionante (já) emocionado que carregamos conosco, do lado esquerdo do peito, como diz em melodia a bela canção. É que amigo tem assunto quando se vê todos os dias e tem assunto também quando se vê uma vez por ano. E sempre vai ter emoticon e áudios de WhatsApp sendo aquele soprinho em brisa nos dias turbulentos e sendo também aquela piada que faz a gente rir nas horas mais impróprias.


Acontece que amigo não é aquele número exorbitante que o Facebook mostra. Para amigo de verdade, a gente não precisa de lembrete da rede social avisando do dia do aniversário. Porque amigo é quem liga na véspera da prova e passa e repassa a matéria inteira de História. É quem divide as resoluções dos exercícios de Física, é quem ajuda a gente a entender a intransitividade de alguns verbos. É quem avisa que tem uma sujeirinha bem no dente da frente. É quem tem foto da gente banguela e com espinhas no rosto do tempo de máquina fotográfica com filme de 36 poses. É aquele que escuta pacientemente sobre as alegrias e os dissabores no trabalho e sobre as maravilhas da última viagem. Amigo é aquele que estava com a gente na última viagem. É quem viaja com a gente de ônibus, de carro, de navio e de avião. E é quem também topa uma caminhada fitness mesmo sabendo que é bem provável que tudo acabe em açaí.

Amigo é quem avisa dos perigos do sol e fica a postos quando já é tarde demais e rolou aquela insolação. É quem diz que a roupa não caiu muito bem. É quem passa horas dividindo as minúcias da vida enquanto se refresca na piscina do quintal. É quem dá o abraço mais forte quando perdemos alguém que amamos. É quem diz que nem sabe o que falar, mas que está lá pra qualquer coisa. Amigo é justamente quem está sempre lá pra qualquer coisa. É quem se faz presente mesmo quando ausente, é quem sabe que dá pra passar horas em silêncio ao lado um do outro sem nenhuma espécie de constrangimento. Porque amigo foi irmão na vida passada e irmão cuida de irmão.

E o que mais me faz sentir a explosão estelar em brilho faiscante dessas amizades é que não importa o tempo que passemos longe uns dos outros, quando nos encontramos parece que foi ontem mesmo nosso último papo. Clichê? Que seja, pois é isso mesmo que acontece! Não tem problema se eles moram em São Paulo, em Araraquara, em Paulínia, na casa ao lado, do outro lado da cidade, do outro lado do país ou nos Estados Unidos. Esse negócio de distância, essa invenção de medir o tempo…nada disso separa amigos de verdade.

E basta que a gente se encontre sem querer no shopping ou numa visita programada de final de semana que os assuntos todos brotam e crescem em caule firme, mostrando que a raiz é forte mesmo! E a gente dá risada de si mesmo, lembra que a vida é curta e que não devemos nos levar tão a sério. Aí nos sentamos com o tempo beirando a madrugada e, regados a pizza e a lembranças, vamos desbravando o futuro enquanto nos damos conta que dividimos não apenas a amizade, um bocado de afinidades e um tanto de admiração.

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Compartilhamos os mesmos medos, as mesmas vontades e as mesmas dúvidas que a idade vem trazendo aos seres humanos há muitas e muitas gerações. E aí é que percebemos que amizade não é quando a gente conhece o outro, mas sim quando a gente (se) reconhece (n)o outro. E que a única coisa que importa mesmo é que a Helena vem aí!

Ana Helena Lopes





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