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Para entender sobre as flores tem que ter o dom…

Para entender sobre as flores tem que ter o dom…


 

Nascer jardineira.  Possuir o olfato apurado e a delicadeza no tato.

Suavidade e espanto no olhar.  Epifania para sentir sua essência.


E a linguagem sem som… A fala,  que não atinge os ouvido,  mas canta na alma.

Fui incapaz de aprender a reconhecer todas as flores e toda a verdura saídas da terra. Infelizmente, dom não se aprende. Nascemos com ele. Como o músico que nunca foi à escola e arranca maravilhosas canções de qualquer instrumento.  Seria um momento único e perfeito, poder distingui-las, de olhos fechados, seguindo o rastro criado por seus diferentes perfumes.

Vi tantas senhoras viajando de um lugar para outro, arrastando suas bagagens a torto e a direito, aos trancos e barrancos, mas levando contra o peito, uma sacola, com mudas de diversas plantas balançando seus ramos, com tanta ternura quanto o embalar de um filho.


Sei alguns nomes de plantas. Sim, lidos em alguns livros ou ouvindo-os por acaso em algumas conversas. Nomes belos como madressilva, miosótis, hortênsia, antúrios e angélica. Alguns,  cômicos como o título de alguma comédia, e outros descrevendo algo: boca de leão, chuva de prata, malmequer, espada de São Jorge, comigo-ninguém-pode e o copo-de-leite. Não distinguiria algumas dessas flores se acaso as avistasse. Talvez… Sim, talvez se a boca de leão rugisse, a chuva de prata me assoprasse o inverno na face e o malmequer me desejasse um mal qualquer. Minha dúvida: se o bem-me-quer e o malmequer, são duas flores distintas ou apenas uma com dupla personalidade.

O hilário de minha ignorância, é que sei o nome de plantas, nascidas como verdadeiras pragas invasoras, as ervas daninhas,o inço,  e algumas só servem para ferir. A urtiga e o carrapicho, meus inimigos, nas andanças  da minha infância sobre os caminhos das roças. E tem também o picão, mas esse ainda se salva da lista dos repudiados, pois é tiro e queda pra cura da tiriça, conforme os ensinamentos de minha mãe. Além das plantas medicinais ela sabia o nome de todas as flores, folhagens e árvores.

Desconhecer tudo que ela conhecia faz-me sentir uma escrava miserável, atada ao mourão de minha  ignorância. Por alguma razão curiosa, meu nariz detecta o cheiro do hortelã, do agrião, da arruda e do manjericão. Se não fosse o cheiro eu não saberia seus nomes. Pela imagem, só conheço os cravos, as rosas brancas, as encarnadas e as boninas.

Jamais afofei a terra e coloquei lá uma semente. Nenhum vaso de planta, acompanhou-me nas minhas mudanças, pois eu não dispunha de tempo para cuidá-las. Quando o assunto girava em torno de plantas, eu trovejava minha  enfática desculpa que plantas davam trabalho.

As poucas plantas que tenho, hoje, nasceram pelas mãos de minha mãe. Adotei-as já adultas e viçosas, e por não saber o lugar ideal, arrastei-as para o sol e por pouco não morrem torradas. Quase fui às lágrimas,  como uma mãe desesperada, enfrentando o choro de seu primeiro rebento, no sofrimento das cólicas. Sua dona, já não podia me ajudar pois perdera a noção de jardinagem. A recompensa, por ter semeado com tanto amor os diversos canteiros pelo mundo, são os perfumes que hoje devem habitar sua alma. A lembrança, dela, aguando as plantas e dizendo-me frases que pareciam tão irrelevantes e que não percebi nas entrelinhas que era um alerta, assaltou meus pensamentos do dia: “Você precisa arrumar tempo para ter um jardim. As flores enfeitam, perfumam, entretêm e dão vida à casa”.

Estou estudando sobre as flores. Sem me ater, apenas, aos traços de suas belas formas e cores, mas saber como fazer para que fiquem assim. Não quero comprar um vaso com uma planta já crescida numa dessas floriculturas abastecidas com variedades, tão pouco arranjar mudinhas com as vizinhas. Isso seria o mesmo que adotar uma criança já crescida que estranharia minhas mãos inseguras no minguado da inexperiência. Quero plantar a semente e acompanhar seu crescimento como uma mãe zelosa e orgulhosa da beleza e saúde do filho que saiu de suas entranhas.

Ao ser mãe, pela primeira vez, apavorei-me achando que me faltavam predicados para criar, bem, um filho. Se o sentimento de ser mãe, fez-me tão completa e feliz como nenhum outro sentimento já me  fez, o brotar da flor que plantarei, acordará o dom que carrego e que deve estar adormecido.

Como mãe de primeira viagem,  fui surpreendida nas minhas incertezas. E como jardineira… espero passar pela emoção de ver o desabrochar da minha primeira flor.





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