Para você que está solteiro há um bom tempo…



Eu sei, você clicou neste link só por causa da palavra solteiro. Fique em paz, somos uma multidão de pessoas sem aliança tentando compreender se a solteirice é um status ou um karma.

A melhor (e também pior) parte da vida de solteiro é que geralmente ela tem data de início, mas de fim…é complicado!

Nós somos o encanto das festinhas. Somos os responsáveis por alegrar o ambiente com nossas conversas descontraídas, que vão de signos à mecânica quântica, afinal quem não vai acompanhado, faz companhia para todo mundo, portanto, deve estar a par de todo e qualquer assunto.

Somos os ex que não saem do pensamento de alguém, e que geralmente também não deram conta de esquecer alguma pessoa do passado. Somos a pessoa que não engatou numa nova relação quinze dias após o término, e que até hoje não sabe ao certo como a outra pessoa conseguiu fazer isso.

Somos a turma que saiu do ensino médio há 4 anos e que ainda não conseguiu adicionar “em um relacionamento sério” ao status do Facebook, que dirá ter um álbum de fotos da festa de noivado.

Estamos compartilhando memes (e rindo disso), enquanto o pessoal que estudava com a gente usa uma foto do Enzo ou da Valentina como capa de rede social.

É, o tempo passou, e as coisas mudaram. Bom, ao menos para os outros elas já estão bem diferentes, e é aqui que o bicho pega.

É muito bom ser solteiro. É divertido sair quando quer, com quem quer e voltar a hora que bem entender, sem precisar avisar ninguém (às vezes, a gente avisa os pais e o cachorro). É gratificante acordar domingo de manhã e decidir se vai ficar olhando para o teto até o meio dia ou dar uma caminhada em algum lugar com árvores. Quando a faculdade não tem concorrência, fica fácil dar atenção a ela durante o feriado.

Sinceramente, a vida de solteiro é muito boa, mas como qualquer outra situação da nossa existência humana, tem lá seus picos e declínios, para não dizer logo suas risadas e bads. Há quartas-feiras de happy hour, onde sem sombra de dúvida estar solteiro é uma bênção, mas há sábados de chuva em que seria muito bom ter um abraço para se recostar. Há fins de tarde ao som de uma música qualquer em que a gente se sente grato por poder aproveitar a tranquilidade de estar só, e há baladas repletas de gente vazia que tornam impossível não pensar que, talvez, seria muito bom estar conversando com alguém capaz de entender nossas crises.

Alguns meses – como junho e dezembro – parecem ser maiores que outros, e a culpa é toda da publicidade, que enche ruas e telas com casais felizes, sorrindo com os olhos e dividindo caixinhas de presentes repletas de emoção. Já outros – como fevereiro, por exemplo – são sinônimo de alegria e ousadia para quem não tem ninguém que o prenda em casa.

É muito bom ser solteiro e ter direito à escolha. Os anos de solidão nos rendem anticorpos, e isso nos ajuda a pensar melhor sobre o amor que queremos, o que merecemos, e o que já aceitamos receber.

Quando se passa muito tempo sozinho, os relacionamentos ao seu redor tomam outra dimensão. Seu olhar se torna mais crítico, por vezes até mesmo rude, e o tal ditado “antes só que mal acompanhado”, de repente faz todo sentido.

O problema é que a gente se acostuma com isso, e quando se dá conta, trancou todas as entradas do coração, e qualquer pessoa que tente se aproximar de maneira mais íntima, parece uma ameaça. É como se a nossa capacidade de amar e de se permitir ser amado fosse reduzida a zero, e o medo de se perceber numa relação tóxica ou mal resolvida fosse aumentado milhões de vezes.

A gente vai se fechando e, de boca em boca, aumentando um vazio, até um dia, depois de muito tempo dançando coladinho com a solidão, perceber que cansou. Cansou de tratar todo mundo como opção e também de ser tratado assim. Cansou deixar ir embora quem valia à pena ter pedido para ficar. Cansou de adicionar 300 contatos à lista, e só conversar com 3 (e olhe lá). Cansou de não ser de ninguém e de não ter alguém também.



Todo solteiro chega nesse ápice da vida solo, onde ao menos por alguns instantes cogita a possibilidade de segurar a mão de uma pessoa especial e levar ela ao churrasco da família. A diferença é que alguns vivenciam isso por instantes, e outros ficam realmente mal, pensando que deve haver algum problema em si para ninguém ter permanecido em sua vida até agora.

Então, aqui vai uma verdade do coração: não se sinta mal, eu também já passei por isso. Na verdade, acredito que não haja sobre a face da terra uma pessoa solteira (há meses ou anos) que nunca tenha se questionado sobre os reais motivos de sua solteirice. Acredito também que podemos pensar sobre isso incessantemente, e ainda não vamos ser capazes de chegar à uma conclusão que faça total sentido.

O que mais precisamos saber é que esse tempo em carreira solo deve ser usado para nossas transformações e aperfeiçoamentos. Podemos estudar, viajar, aprender um novo idioma, trocar de emprego, comprar uma bicicleta, pular de uma tirolesa bem alta, mudar o cabelo, plantar uma árvore e mais uma infinidade de coisas, que automaticamente nos levarão a conhecer novas pessoas, e consequentemente, a descobrir novos gostos, formar laços mais fortes, e construir em nós mesmos a confiança necessária para se permitir ter uma relação.

Nada acontece do dia para a noite, da mesma forma, dificilmente vamos dar conta de lembrar como é se relacionar com alguém, até porque quando rompemos nosso último relacionamento éramos uma pessoa completamente diferente de quem somos hoje, e isso interfere de maneira direta em nossas escolhas e decisões.

Não se apavore na busca por alguém. Não sucumba aos comentários ácidos da família que pensa estar ajudando, e na verdade só nos faz passar raiva no almoço de feriado.

Não se renda à pressão do social que diz a todo instante que você precisa de alguém para ser feliz. Seja feliz à sua própria companhia e, se em meio à essa felicidade seu coração rir para alguém, tudo bem, vá em frente, permita-se.

Mas só vá quando quiser e faça apenas o que estiver dentro das suas vontades, dando um passo de cada vez. É difícil se apaixonar de novo após tanto tempo e inevitável o medo de quebrar a cara, mas só sabe o resultado de algo quem o faz, então, faça.

Mas enquanto isso não acontece, vamos continuar rindo nas selfies, falando sobre tudo com todos e nos divertindo ao conhecer alguém novo; e claro, rendendo comentários, afinal, somos aqueles que enfrentam a bad às 18h, e dão rolê às 21h.

Somos os donos do mundo, e não podemos nos esquecer disso. Somos nós mesmos, os solteiros.


Direitos autorais da imagem de capa: Unsplash.






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