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Parentes de mortos no Jacarezinho vão pedir na Justiça para que polícia reconstrua memorial

Foto: Reprodução
Parentes de mortos no Jacarezinho vão pedir na Justiça para que polícia reconstrua memorial

Advogado de 14 famílias de 28 dos homens mortos durante a operação da Polícia Civil que foi considerada a mais letal do estado do Rio, no ano passado, João Tancredo afirmou nesta quinta-feira (12) que vai entrar na justiça para que a polícia e o estado reconstruam o monumento com os nomes dos mortos e arquem com os danos da destruição do objeto.

O monumento foi posto abaixo nesta quarta-feira (11) por agentes da 25ª DP (Engenho Novo) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core). Enquanto isso, vereadores da Câmara Municipal do Rio articulam um projeto de lei que garanta a construção de um novo memorial por parte da prefeitura do Rio. O decreto deverá ser protocolado na próxima semana.

“Vamos entrar com uma medida judicial visando a autorização pela Justiça do Rio e a manutenção do memorial. O que a Polícia Civil fez é um ato ilegal. Quem vai dizer se pode ou não é a lei, não um policial. Não existe nenhuma lei dizendo que não poderia colocar aquela homenagem ali. A derrubada é um ato arbitrário e precisa ser condenado.”, destacou João Tancredo, que completou:

“Além da garantia da manutenção do memorial, vamos requerer que a Polícia Civil e o estado reconstruam o objeto destruído e pague pelo outro monumento destruído. Aquele espaço era a lembrança dos mortos, inclusive do policial civil. Ali era uma homenagem aos mortos da operação mais sangrenta do estado.”

Em nota, a assessoria da Polícia Civil reforça que o memorial é ilegal:

“Investigação da 25ª DP comprova que o memorial era ilegal, pois além de não ter autorização da prefeitura, e nem da família do policial morto, também fazia apologia às drogas. Essa apologia é comprovada com a própria frase estampada no memorial, que afirmava que o tráfico local era ‘apenas um comércio varejista de drogas’, quando é sabido por todos que o Jacarezinho era comandado pela maior facção criminosa do estado e que os 27 criminosos mortos em confronto com a polícia tinham envolvimento comprovado com o tráfico.

O programa Cidade Integrada, que retomou o território para o estado, não admite nenhum tipo de nova construção sem as autorizações necessárias, como é exigido em qualquer área formal da cidade. Além disso, o Cidade Integrada comprova o tamanho da quadrilha do Jacarezinho, pois desde o início do projeto o prejuízo financeiro ao tráfico já é da ordem de R$ 60 milhões”.

Protesto de movimentos sociais

Instantes após a polícia destruir o espaço de homenagens aos mortos na ação de maio do ano passado, movimentos sociais protestaram contra a derrubada. Em nota conjunta, instituições como Associação Juízes para a Democracia (ADJ), Casa Fluminense, Instituto Marielle Franco, Voz das Comunidades, Federação de Favelas do Rio, Observatório Cidade Integrada e Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) criticaram a ação policial e destacaram que receberam “com surpresa” a derrubada. Elas deverão acionar a Polícia Civil na Justiça.

De acordo com trecho do comunicado, “o memorial foi uma ação concreta para lembrar as 28 vidas perdidas durante a chacina, sejam elas de civis ou policiais, vítimas da política de violência que os governos do estado do Rio vêm aplicando contra a população de favela, em sua maioria composta por pessoas negras”. Ainda de acordo com o documento, “a violência não pode ser o único caminho para o estado se fazer presente nas favelas”.

Para a Federação das Associações de Favelas do Rio (Faferj), “não existe apologia a nada, pois há liberdade de expressão”. Ainda de acordo com a instituição, “os 28 mortos na chacina no Jacarezinho, sequer foram julgados ou condenados. Apenas executados com aval do estado”.

Vereadores querem que prefeitura do Rio reconstrua espaço

As vereadoras Thais Ferreira (Psol) e Mônica Benício (Psol) farão juntas um projeto de lei que institua o objeto destruído pela Polícia Civil como parte dos monumentos da cidade do Rio. Thais destacou que os dois mandatos estão terminando a justificativa, que seguirá à Casa. O Projeto de Lei quer a garantia da construção de um novo memorial por parte da prefeitura.

“Ficou definido que em conjunto com a Mônica que faremos um Projeto de Lei para instituir um memorial para as vítimas. Queremos que seja legalizado e que exista um direito ao luto das famílias. Faremos uma audiência pública com os movimentos do Jacarezinho e os familiares para trazer outras soluções para a região.”, destacou a vereadora.

Além disso, o mandato de Thais Ferreira entregará ao governo do estado e para a prefeitura uma série de recomendações para mitigar os crimes na região. Durante um ano a parlamentar fez um estudo, principalmente com crianças e adolescentes, e agora entregará o material às autoridades estaduais e municipais.

Apologia ao tráfico

Para justificar a derrubada, a Polícia Civil afirma que o monumento faria apologia ao tráfico de drogas, já que “27 mortos tinham passagens pela polícia e envolvimento comprovado com atividades criminosas, além do fato de que a construção do mesmo não tinha autorização da prefeitura do Rio de Janeiro”.

Ainda de acordo com a justificativa da Polícia Civil, o nome do policial civil André Leonardo de Mello Frias, também morto na operação, foi incluído no memorial sem a autorização da família, e isso teria sido mais um motivo para a ação.

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