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Pedro Scooby e Paulo Freire: o que o brother quis dizer com a fala sobre dever de casa no ‘BBB 22’

Pedro Scooby e Paulo Freire

Surfista de sucesso e pai de três filhos, o carioca Pedro Scooby passou a chamar a atenção do público do “BBB 22” por conta do carisma e da facilidade de transitar por diversos assuntos dentro do programa.

Em uma das conversas das quais já participou no reality, o brother apresentou um ponto de vista sobre “dever de casa” que está presente, por acaso ou não, na obra do renomado filósofo e educador Paulo Freire.

Durante um bate-papo sobre filhos e escola com o ator Douglas Silva, que é pai de duas meninas, Pedro disse: “O cara que criou o dever de casa, criou pra punir as crianças, e a gente segue achando isso normal.”

Douglas contou que o sistema funciona para a filha dele e que é parecido com um “desafio”, que a estimula a aprender e a se esforçar mais.

Já Pedro afirmou que, para ele e de acordo com estudos, o método não funciona e desconsidera as individualidades de cada criança.

A fala repercutiu nas redes sociais e gerou opiniões contrárias às de Pedro, mas também levou à criação de memes e a associações da fala do surfista com o pensamento apresentado por Paulo Freire (1921 – 1997) no livro “Pedagogia do Oprimido”, de 1968.

Mas como o pensamento freireano pode ajudar a explicar a opinião de Pedro Scooby sobre dever de casa?

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Direitos autorais: Reprodução.

Quem criou o dever de casa? E para quê?

Não parece haver consenso sobre a origem exata do dever de casa, mas, a partir de seus usos mais documentados no século XIX, são claros os valores e usos ideológicos aplicados a ele.

Há fontes que apontam para o educador italiano Roberto Nevelis, quem teria demandado, por volta do ano 1905, que seus alunos fizessem tarefas da escola em seus respectivos lares.

Teria sido ele o responsável por utilizar o artifício como forma de castigo e de punição para os alunos.

Outras fontes apontam para a origem da lição de casa pouco após o fim do antigo Reino da Prússia, na região onde hoje se localiza a Alemanha, no século XIX.

Na época, a unificação da Alemanha como estado-nação era recente e havia a necessidade de fortalecer a presença e o poder do Estado sobre as crianças.

Assim, tarefas obrigatórias impostas pelas escolas (a serem feitas em casa) tinham o objetivo de enfatizar a hierarquia da nação sobre o indivíduo, de estimular o sentimento nacionalista e de alimentar os valores patrióticos.

Modelo similar foi importado para os Estados Unidos pelo político e reformador educacional Horace Mann (1796 – 1859) também no século XIX.

Como o pensamento de Paulo Freire conversa com o de Pedro Scooby?

Em artigo apresentado no IX Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire, realizado em Turim, na Itália, as pesquisadoras em Educação Roseane Cunha (UNB), Sílvia Ester (UNB), Ana Bárbara da Silva Nascimento (UNB), Ana Luiza de França (UNB) e Virgínia Silva (UNB) levantaram, em 2014, a mesma questão que Pedro Scooby abordou no Big Brother Brasil, em 2022.

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No texto intitulado “O dever de casa: uma prática na contramão da educação emancipadora“, as autoras relacionam as problemáticas que giram em torno da obrigatoriedade da lição de casa com a filosofia e o pensamento de Paulo Freire.

Em trecho do livro “Pedagogia do Oprimido” destacado pelas pesquisadoras no artigo, Freire afirma que uma educação passiva (que só estimula a reprodução e a memorização do que já foi visto na escola) não colabora para o desenvolvimento dos alunos como sujeitos críticos no mundo.

“Quanto mais se exercitem os educandos no arquivamento dos depósitos que lhes são feitos, tanto menos desenvolverão em si a consciência crítica de que resultaria a sua inserção no mundo, como transformadores deles, como sujeitos”, escreveu o filósofo.

Estudo baseado apenas em ouvir e escrever

Ainda no artigo, as pesquisadoras da Universidade de Brasília (UNB) explicam que “o dever de casa revela o perfil de educação cuja a tônica assenta-se em fixar as narrações realizadas pelos professores”.

“É a relação onde educandos e educadores são colocados numa posição hierárquica, desprovidas de diálogos. Freire denunciava que ‘A tônica da educação é preponderantemente esta – narrar, sempre narrar’.

“Observa-se que no Brasil o foco da aprendizagem está centrado predominantemente na aquisição da leitura e escrita, mesmo para crianças de 3 ou 4 anos de idade. Crianças que deveriam estar com o tempo voltado para os jogos e brincadeiras da infância juntas com seus pares.”

Segundo elas, “a ênfase é dada, já nesse primeiro momento da escolarização, à instrumentalização do ato de ler e não no sujeito que aprende”.

Dever de casa como punição

Assim como Scooby, o artigo ressalta que o não cumprimento das tarefas de casa é interpretado quase como um castigo para as crianças e é lido como falta de disciplina pelos professores.

Quando [os alunos] não realizam o dever de casa, conforme a orientação, são encaminhados para o Serviço de Orientação Educacional (SOE), com grandes possibilidades de recomendação a atendimentos psicológicos e reforço escolar.

Além disso (e como o surfista carioca também ressalta), métodos tradicionais de avaliação de desempenho escolar muitas vezes diminuem e não dão alternativas para crianças neuroatípicas — que sofram com transtorno de ansiedade e TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), por exemplo — se desenvolverem de forma feliz e saudável.

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