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Pelo bem ou pelo mal, a escolha sempre será nossa!

A escolha sempre será nossa!

Uma Cabeça Não Deve Ser Apenas Um Cofre Transportador de Pensamentos. Ela Pode Ser Uma Bailarina: Ousada, Expressiva, e Rodopiante!


A hermenêutica compara-nos à uma cebola. Se a palavra hermenêutica já tem uma uma imagem assustadora, imaginar-me sendo uma cebola, assustou-me mais ainda.

Preferia ser comparada à uma fruta de bela aparência e bom sabor do que a esse bulbo, que nos arranca lágrimas. Resignada, li com pouco interesse, pois cebolas não são atraentes e nem perfumadas. Entretanto, concordo que realmente temos camadas: da infância, da juventude e da vida adulta. E, entre uma camada e outra, temos uma pele, escondendo nossas deficiências ou nossos medos.

Peles! Precisamos ser descascados…


Schleiermacher, considerado o pai da teologia liberal, escreveu: “Pensamento e expressão são íntima e essencialmente a mesma coisa”. Ele sugere que existe algo mais a dizer, sobre o pensamento do autor, do que o significado de suas palavras, e que o intérprete deve desenterrar tal pensamento. E pensei: isso é bem nós. Somos textos de expressões, que só serão compreendidos se conhecerem nossos pensamentos. Se escarafuncharem a cebola…

Já estive sob a análise da hermenêutica. Não me convenceu… Sai de lá com a sensação, que só foi arranhada a casca da expressão que eu demonstrava, sem atravessar minhas camadas. Fiz por curiosidade, pois nunca acreditei nessas análises que buscam decifrar uma pessoa em poucos minutos. O perfil traçado estava incompleto, mas também não fiz nenhuma forcinha para ajudá-la. Se não foi capaz de descobrir quem sou, de mim é que não iria saber. Talvez, estirada num divã, anestesiada pela hipnose…Porém, isso estava fora de cogitação. Hipnose? Nunca! Sabe-se lá, se o hipnotizador, num desses surtos psicológicos, não consegue me trazer de volta?…

Meu problema não era, assim, tão sério. Era apenas um pequeno “parafuso” frouxo, que cabia a mim apertar, ou continuar com ele, bambo, causando-me um repiquete incômodo, na cabeça….Não com o que estava dentro dela, mas o que fazer com ela. Eu a impedia de ir em direção ao que meus olhos queriam ver. Não achava certo passar essa imagem de curiosidade ou bisbilhotice aloprada.


Onde adquiri essa postura?! Não sei, com certeza…Talvez, com os livros épicos, que lia, onde uma dama caminhava de olhos baixos. E, encarar as pessoas, era falta de educação. Ou vendo minha mãe parar, repentinamente, para elogiar os cabelos, o vestido, ou qualquer atributo de uma estranha…Esse olhar solto, invasor, que ela possuía, fazia-me cambalear de constrangimento. O certo é que, aprendiz de etiquetas dos livros antigos ou insatisfeita com a sinceridade de minha mãe, eu não mirava em rosto nenhum. Nem mesmo se despencasse uma chuva de príncipes ou de Alain Delon, o símbolo de beleza dos anos 60 e 70.

Por isso, não tão recentemente e nem tão antigamente, decidi que minha cabeça não seria apenas o membro transportador de meus pensamentos. Ela dançaria como uma bailarina expressiva; rodopiante, deselegante e ousada. Meu pescoço agradece, livre de torcicolos, livre de sofrer a dureza das cordas de um violino.

Olho para onde desejo olhar.

Olho para as caras feias, bonitas, azedas, antipáticas, felizes ou tristes. Olho para os seres inanimados, para os viventes presentes, os viventes ausentes, e principalmente: para dentro de mim, quando estou só, e posso olhar para a minha mais profunda camada.

Olho para o cinza sujo da calçada, para o azul do infinito e para as pedras que me barram.

Aceno para a lojista do outro lado da rua, uma simpatia de pessoa, que só fui descobrir depois que tomei coragem e passei a sorrir-lhe abertamente.

Paro e teço elogios para a mulher soturna, que rega suas belas flores. Seu rosto sério se modifica, transformado pelo orgulho. Sorri, fala das plantas e me oferece uma muda. Ao partir, levo nos olhos todas as cores vivas. E a semente plantada de uma amizade nova.

Olhar com simpatia, ou elogiar alguém, tem um efeito bumerangue — e ao fazê-lo, pude compreender o que minha mãe sentia.

É necessário coragem para mudar. Rasgarmos a pele, que oculta nossa forma rudimentar, e nos aventurarmos naquilo que julgávamos ser um erro. Enquanto minha cabeça se move, sem breque, meus olhos vão peneirando e separando o joio do trigo. Eles são seletivos, e por natureza – exigentes. Busco ver aquilo que acrescenta e me ensina a ser.

O que os olhos não veem, o coração não sente (?)… besteira! Pior é arrepender-se, no futuro, de ter evitado, desviado do objeto desejado. E perder!… Uma imagem inédita de um instante único, na probabilidade de não vê-la outra vez!

Se “quem tem boca vai a Roma”… quem tem olhos, carrega o mundo nas pestanas, com suas cores, dores e alegrias. Superei minha vergonha de olhar, dentro do olhar do outro,  desvencilhando-me do pensamento obsoleto, que me detinha.

Afinal, somos artigos caminhantes, e expomos a aparência, na grande vitrine do mundo.

Pelo bem ou pelo mal, a escolha sempre será nossa!

Eu escolhi olhar para tudo e para todos. 

Foi libertador, livrar-me…  do que me fazia caminhar rente ao chão.

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Direitos autorais da imagem de capa: haywiremedia / 123RF Imagens





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