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PELO DIREITO DE FECHAR A PORTA

Ruidosamente me olham de lado e reprovam minha opção escolhida de permanecer em silêncio. É como se tivesse algo de errado em se recolher por um momento ou por um tempo maior. É como se não percebessem que toda essa exposição ao cotidiano me faz mal de alguma forma e eu preciso – há quem precise – me envolver um pouco mais comigo mesmo pra não me perder.


Eu preciso daquele momento a sós comigo mesmo pra ser franco, pra botar na mesa uns pontos em que andei pensando e que martelam na minha cabeça. Preciso dormir além da conta ou escrever num quarto mais escuro pra me aproveitar um pouco mais e dar voz aos ruídos que passam apagados porque a gente prioriza outras coisas do cotidiado. Imagina se toda dúvida ou reflexão que atinge o fundo da nossa cabeça fosse silenciado? Não dar voz ao que o meu eu interior pergunta é forjar uma vida superficial.

O problema é que não percebem, eles, que calma e solidão são conceitos diferentes. Que eu dependo de uma tarde sem fala pra promover alguma catarse dentro de mim e não enlouquecer. Se a maioria de nós vivesse segurando os turbilhões, sendo fortes, secando lágrimas e suor, escondendo a vulnerabilidade até da gente mesmo, se a gente resumisse a vida numa eterna questão de sobrevivência, a gente desabaria. É preciso desabafar em doses homeopáticas de silêncio pra aguentar o tranco.

Fechar a porta é o mesmo que conversar com o meu eu de 13 anos de idade. Sem necessidade de etiqueta ou roupas bonitas e vamos direto ao ponto. Com toda a franqueza de quem não precisa se defender o tempo todo e só precisa falar das coisas que realmente importam. Às vezes não tem motivo algum e nós dois (eu e o meu eu de 13 anos) só queremos respirar a sós. Olhar um pro outro pra  vermos as mudanças no rosto, no sorriso e nas coisas todas que vieram com o tempo. Pra reparar nas cascas de ferida, nas cicatrizes, nos arranhões recentes e concluir que dói, mas uma boa noite de sono e silêncio ajuda. Pra entender e defender que um “me deixa sozinho” é a melhor solução pra quando a gente não tá bem. Estar sozinho não é estar perdido no mundo, e arrisco eu que talvez seja a melhor forma de se encontrar quando a gente esquece de quem nós somos.


Ao contrário do que você pensa, eu não tô me enterrando quando faço isso. Eu tô lutando, resistindo e me fazendo encontrar os motivos necessários pra não desabar de vez. E eu tento explicar a eles, a vocês, a quem me quer bem de algum jeito que não tem nada de errado em fechar a porta. Que não tem nada de errado em se sentir triste ou em não querer companhia. Não tem nada de errado em desprezar aqueles clichês animadores de que “tudo vai ficar bem” e “você precisa sair dessa” porque eu não quero. Eu quero ficar nessa e reconhecer que as coisas não vão ficar bem, pelo menos agora não. Me deixa descansar no meu travesseiro com a cabeça pesada, o coração embrulhado e um rio de lágrimas descendo por conta do sufoco. Me deixa botar tudo pra fora em silêncio ou berrando tanto que as cordas vocais doeriam. Me deixa fechar minha porta e fazer tudo isso sozinho. Pelo menos por hoje.

 


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Escrito por Daniel Bovolento – Via Entre Todas as Coisas





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