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Perdão: uma gentileza para o outro e um favor para si

perdão

Antes de qualquer coisa, é preciso diferenciar vaidade de orgulho. Vamos manter isto simples: vaidade é o que você quer que os outros pensem sobre você; orgulho é o que você pensa sobre si. Faz sentido? Entre estes dois aspectos, sob uma linha muito, muito tênue, ainda caminhará o amor-próprio. E este é o trançado que vamos produzir, hoje.



Partamos do princípio de que o perdão não é para o outro, é para si. Ao outro você desculpa, des-culpa, isto é, tira a culpa. É claro que há uma variável infinita de casos e perspectivas, mas, grosso modo, há três possibilidades: você tem culpa, a pessoa tem culpa, foi um acidente. Aqui vai uma grande lição para toda a vida: esqueça os culpados, busque soluções. Simples assim. Esqueça a culpa e o culpado! Do que adianta encontrar o culpado? E se o culpado estiver morto ou impossibilitado de fazer contato? Reforço: busque soluções. Busque soluções! Independentemente de quem seja a culpa, faça a sua parte. É tudo e só o que você deve fazer: a sua parte. Só.

As lembranças, o amargo, o rancor… Estas coisas todas criam uma espécie de prisão, já que você fica voltando ao mesmo ponto toda hora, ou seja, deixa de ir para frente e seguir a vida, para remoer o que houve lá trás. Outra coisa que é muito claro neste sentido é que eles prejudicam todo o sistema (corporal, emocional, psicológico…). Há várias e várias pesquisas e estudos que mostram que, para o cérebro não importa se você está vivenciando aquilo, em tempo real, ou se você está recordando aquilo. Não importa! Para ele tem o mesmo efeito! Então, se você ficar remoendo o passado, será como se você estivesse, literalmente, vivendo e revivendo aquele momento de novo e de novo e de novo! E mais: a situação de estresse prejudica o sistema imunológico, o raciocínio, eleva os batimentos cardíacos, libera cortisol, fadiga, hipertensão, entre tantas outras coisas.

Então, ponto número um: o não-perdão te faz perder.


Calma. Todos nós sabemos que o orgulho – ou seria a vaidade? – nos propicia certo prazer diante desta situação rancorosa. Uma sensação de superioridade, de não dar o braço a torcer, de não se humilhar… É claro que esta sensação existe. Mas é aí que está o problema: é uma sensação, não é uma realidade. Sensação e realidade são coisas distintas. Uma coisa é ter sensação de perigo, outra coisa, completamente diferente, é estar em uma situação real de perigo. Então, fora esta sensação – que é nociva, mas é gostosa, vamos ser sinceros –, o que o não-perdão nos proporciona? O que você ganha ao não perdoar alguém? Saúde? Dinheiro? Sonhos? Emprego? Novos amigos? Nada?

Number two: o não-perdão te faz ganhar nada.

Leia com atenção: ganhar nada. O que é ganhar nada? Nada. Só por estes dois motivos, “perder” e “ganhar nada”, já seria benéfico perdoar alguém. Além de não ganhar, perde-se.

Se nós fizermos uma ilustração e transformarmos os sentimentos em números, digamos, em dinheiro, vamos entender melhor que há um ponto de escoamento, um furo no balde. Além de não receber salário, prêmios ou bônus, ainda temos que pagar. O que acontece quando o dinheiro para de entrar na conta, mas não para de sair? Saldo devedor. O que acontece quando a água para de entrar no balde, mas não para de vazar? Esvazia e seca. É isto o que o não-perdão faz com você.


Jesus dá uma ótima explicação sobre este assunto, ao ensinar o “Pai Nosso”: perdoai as nossas dívidas (ofensas), assim como nós perdoamos aos nossos devedores (a quem nos tem ofendido). – Este trecho, porém, tem uma forte conotação espiritual e religiosa, e não é o foco da mensagem. Cautela ao fazer conclusões sobre ele.

O perdão e a desculpa são universais, cabe em crentes e descrentes. “Esqueça” Deus por um momento, e aplique esta oração no seu contexto. Eu desculpo você (pelo seu erro), assim como outras pessoas me desculpam (pelos meus erros). (A desculpa) É uma troca. O perdão é uma graça, uma virtude, uma força, uma beleza, uma luz.

Portanto, quando alguém lhe dizer algo ou fizer algum mal, alguma ofensa, procure analisar em você se há alguma semelhança de atitude. Talvez você tenha sido ríspido com seus pais. Talvez você tenha ignorado uma vizinha. Um egoísmo aqui, inveja ali, maldade naquele dia… Atente-se ao efeito espelho, e veja se você também tem falhado com alguém da mesma forma que alguém tem falhado com você. Quando sim, se você quer/merece ser perdoado e desculpado, então a pessoa que te ofendeu também merece. Do contrário seria uma injustiça enorme.

Uma característica interessante neste tema é que as situações envolvem pessoas com as quais temos algum elo. Dificilmente você vai guardar rancor de um motorista que te fechou no trânsito. Você pode ficar muito nervoso na hora, e, de repente aquilo até perpetue ao longo do seu dia, mas você não vai guardar rancor deste motorista. Não faz sentido que guarde. Até porque há grandes chances de você nunca mais vê-lo na vida. Então, em geral, o rancor se estende às pessoas com as quais temos algum elo; não necessariamente afetuoso, mas algum elo. Por exemplo, você pode não amar a sua patroa, mas sentirá ódio, raiva ou rancor, de acordo com suas atitudes.


Isto significa que, muito provavelmente, você terá que lidar com esta pessoa por um período significativo. (Não perca o raciocínio e mantenha em mente: você perde e não ganha)

O que fazer para amenizar a situação?

É importante entender que desculpar e perdoar não significa deixar impune; que por sua vez, não é sinônimo de vingança – a vingança está muito mais ligada ao complexo de inferioridade do que a qualquer outra coisa. Vingar é mostrar quem é que manda, é mostrar autoridade, dar a última palavra. Vaidade: mostrar aos outros. E este é o complexo, porque se você não mostrar que não é frágil e inferior, você se sentirá inferior – É um assunto muito profundo, e por isso vamos ficar por aqui, por hoje.

Numa analogia simples: queimar o dedo na panela quente é diferente de queimar o corpo num incêndio. A primeira situação é fácil de ser apagada, enquanto a segunda deixa marcas irreparáveis. Assim é o perdão e o castigo, uma ação não necessariamente anula a outra. Uma coisa é você perdoar um agressor, e não ficar relembrando suas atitudes, não dar indiretas, não fazer insinuações, não revidar, etc. Outra coisa, completamente diferente, é deixá-lo impune. Impunidade significa ausência de castigo/pena/punição, e há situações onde a impunidade é, por si só, outra agressão.


Perdoar não significa, também, que você deve ficar se expondo à situação de novo. Ora, se existe uma pessoa que te critica sempre que te encontra e só lhe faz mal, não é saudável, nem inteligente que você mantenha contato e ou aproximação com esta pessoa. Por isso foi importante distinguir vaidade de orgulho. Aqui já não se trata mais de vaidade, mas de orgulho, daquilo que você pensa e sente a seu próprio respeito, orgulho de ser quem você é, se dar valor. Eis o amor próprio que citamos no começo do texto.

Outra atitude, simples, mas poderosa, é trocar a perspectiva. É extremamente difícil perdoar e respeitar alguém que só causa o mal. Procure ignorar, ou minimamente, esquecer a parte ruim da pessoa, e passe a olhar suas qualidades. Todo mundo tem qualidade. Absolutamente todo mundo. Não existe uma pessoa que seja absolutamente má, como também não há alguém que é completamente boa. Todos nós cometemos falhas e acertos, vícios e virtudes. É comum ver pessoas que são ríspidas em determinada situação, ser completamente dócil em outra; a pessoa é a mesma, mas há dois potenciais dentro de si.
Quem está acostumado a ler e estudar as religiões, teorias e culturas, sabe muito bem disso. E quem ainda está começando a sua própria ascensão vai descobrir isso por si só. Mas, se o posso fazer, eu diria que você tenha em mente que quanto mais alta uma árvore é, mais profundas são suas raízes. Logo, quanto mais calma uma pessoa é, mais explosiva ela pode ser em algum momento.

Ainda fazendo um último puxadinho no campo da inferioridade: vamos condicionar nossa visão a ver com olhos misericordiosos. Alguém que tem que te humilhar pra se sentir bem é alguém muito pequeno, alguém com uma enorme limitação, com dificuldades em crescer e com forte complexo de inferioridade.


Gente grande de verdade sabe que é pequena e por isso cresce. Gente muito pequena acha que já é grande e o único modo de [ela] crescer é se [ela] diminuir outra pessoa.”.

Você não vai ver o Bill Gates criticando o comerciante de bairro, nem vai ver a Beyoncé humilhar um amador que posta vídeos no Youtube, mas o oposto será (e é) facilmente visto. Ninguém se incomoda com quem é pequeno! Isto significa que se alguém tenta te diminuir, é porque você está grande o bastante para incomodar. Nesta hora, mostre grandeza. Cuidado! Grandeza não é arrogância. Grandeza é estar em pé é oferecer a mão para erguer o outro, e não para humilhar; mesmo que este alguém queira sua queda.

Fácil não é, mas se você vir à pessoa com misericórdia, você deixará de ter raiva e passará a ter compaixão, ou minimamente, dó. Dó porque ela não consegue crescer, dó porque ela se arrasta no chão, dó porque ela atingiu o pico e sua vida vai acabar ali, naquele estágio. Há um desespero enorme naquela pessoa para que alguém fique, pelo menos, no mesmo nível em que ela está, um desespero para que ela não passe o resto de seus dias na solidão.

É claro que isto tudo não se trata de uma fórmula mágica e milagrosa que vai te fazer perdoar da noite para o dia. Não! É um processo, que pode levar dias, meses ou anos, dependendo da intensidade das marcas.


Desculpe (verbalmente) quando entender que isto ajudará a pessoa; desculpe (internamente) quando entender que encontrar um culpado não resolve a situação.
Perdoe (verbalmente) quando entender que isto amenizará a tensão entre você e a pessoa; perdoe (internamente) para se livrar do peso e das correntes.

De novo: não é uma fórmula, não há uma regra; falar ou não falar para outra pessoa que você perdoa e ou desculpa é uma questão entre você e ela. O perdão não depende de comunicação para existir, você pode, inclusive, perdoar os mortos e os desaparecidos.

Não se force a amar ou sentir-se bem em relação a alguém só porque você perdoou ou… Não! O amor não se força, o amor é natural e deve ser espontâneo, não sentir rancor está de ótimo tamanho.


Desculpar e perdoar é limpar o quarto, trancar a porta e jogar a chave fora, deixando no passado o que deve ficar no passado, e carregar consigo apenas aquilo que lhe proporciona o bem-estar, a alegria e a liberdade. Você pode até se lembrar dos eventos, mas não remoerá aquilo, pois o presente está ótimo e o futuro pode ser ainda melhor. Perdoar é uma atitude de inteligência. Sim, inteligência, pois significa que sua razão está conduzindo as emoções; a razão você muda, você controla, você entende, as emoções, não. Ser controlado por algo que você não pode controlar é como estar num carro sem motorista.

Desculpar é aceitar o que a vida lhe ofereceu e fazer o melhor possível com ela. Perdoar é afirmar para si mesmo que, não importa o que aconteceu, você merece ser feliz. E vai.

Nos iludimos por que queremos ou por que precisamos?

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