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Por isso, eu me tranquei na solidão do quarto, e pela primeira vez, fiz uma prece de meditação…

“Somos todos criaturas de um dia, tanto os que lembram quanto os que são lembrados. Tudo é efêmero, tanto a lembrança quanto o objeto da lembrança. Em breve você terá esquecido o mundo e o mundo o terá esquecido. Nunca esqueça que logo você não será ninguém nem estará em lugar algum”. Fiquei com uma sensação de desamparo e o coração angustiado quando li pela primeira vez esta citação, que é atribuída a Marco Aurélio, filósofo e imperador romano e foi referenciada em um dos livros do psicanalista e escritor Irvin Yalom. A obra trata de temas espinhosos, dentre os quais se destacam as grandes questões existenciais, como a necessidade de construção de um sentido para a vida e como lidar com o fim inevitável.



Sinceramente, tenho escrito reiteradas vezes que há muito não acredito em vãs filosofias, em soluções expressas para a dor da alma e suas chagas e tampouco em uma salvação imediata do meu caos interno.

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Não acredito em absolutamente nada que não proceda da tomada de consciência da minha responsabilidade pessoal sobre quaisquer que sejam meus questionamentos, mas isto não atenua a dor da minha própria existência nem me conforta a alma. De modo que me sinto tentada a questionar-me todo os dias sobre o sentido da vida.


Talvez tenha sido o impacto da notícia da partida de uma amiga especial, que deu por encerrada sua etapa de trabalho nesta existência, ou talvez ainda o mal-estar que senti durante todo o final de semana, a sensação de perda eminente de algo ou alguém que não havia se concretizado ainda. O fato é que fiquei mais reclusa que o habitual e não festejei o tão esperado almoço semanal da família, nem fui efusiva, tampouco receptiva aos beijos e carinhos dos meus filhos e netos. E por não saber descrever a agonia que me consumia por dentro e as palavras que gritavam no meu peito e transbordavam de minha alma, embora indizíveis, decidi que o melhor a fazer era ficar calada.

Por isso, me tranquei na solidão do quarto e, pela primeira vez em anos, fiz uma prece em forma de meditação. Quando terminei, abri um livro para acalmar a minha mente e relaxar a tensão e me deparei com outra citação, tão impactante quanto a anterior, desta feita de um filósofo moderno chamado Charles Kiefer, que finalmente foi capaz de traduzir minha angústia em palavras.

Kiefer também se deixou embalar pelo consolo de um momento místico, a despeito de ter sido, como eu, devastado pela cáustica filosofia de Nietzsche, que invadiu sua adolescência e estraçalhou sua fé romântica e messiânica, mas que, infelizmente, havia passado como um vento do norte, que lhe trouxe uma longa chuva em forma de melancolia. Dos escombros da fé, tratou de salvar um jeito enviesado de observar o mundo, no qual mistura um niilismo reticente com um misticismo inócuo, pensando que o nada é o destino final de todo o universo. Mas não deixa de parar, de vez em quando, em algumas estalagens que vendem ilusões da eternidade, e delas sai como um turista experimentado, consciente de ter comprado quinquilharias. E a pergunta que ele sempre se faz é: e daí?

Nas noites borrascosas, seu falso brilho sobre a cômoda será uma esperança e uma saudade. Faço minhas as palavras do autor e os votos de um amigo em comum, que escreveu sobre a partida de nosso doce, generosa companheira de jornada e querida amiga: “Que ela seja recebida em sua nova morada, que descanse em paz, que acorde tranquila, que tenha uma boa vida, e que desfrute do seu mundo”. Minhas palavras estão aprisionadas na dor da perda e da saudade.


O recomeço está na mudança de dentro pra fora!

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