Por mais dias santos e pensamentos sagrados…

Por dias mais santos e pensamentos sagrados…

A paçoquinha feita pela mãe junto do café passadinho na hora e o leite que acabara de fazer, talvez fosse o momento mais santo. Porque era sagrado em todos os fins de quaresma.

Sempre havia a expectativa de que ela preparasse o amendoim e com os outros poucos ingredientes se transformasse no sabor mais singelo de qualquer receita.

Ah e se os amendoins sobrassem, podia-se até fazer outros doces ou um bolo. Era uma semana calma, apesar de os relatos históricos mostrarem tempos sombrios até que o registro do calendário apontasse que a Páscoa estava entre nós.

Tudo era simples, como tinha que ser. Um peixinho na mesa, uma salada, mais algum alimento para complementar, acompanhado de um jejum silencioso.

A quinta-feira era uma quinta com coisas para se terminar. Estava proibida a procrastinação. A sexta podia chegar de repente e dali por diante só muito pouco ou nada de tudo era permitido.

Tão costumeiro e tão normal não aumentar o som. A vigília dos atos, das palavras seguia constante. Pode-se chamar de lenda, uso, tradição.

Criava-se uma atmosfera melancólica, que talvez já começasse lá na quarta-feira. Momentos meio cinzas em torno de papos sobre o que tudo aquilo representava: penitência, Cristo, coelhos, ovos, pecado.

Abster-se de alguns prazeres era regra e ninguém se mostrava contrário. Respeito puro e simples, orações mais longas e intimistas.

Mesmo que no final da semana viriam sorrisos mais relaxados, celebrações, cantos, sinos alegres e o tão aguardado e doce presente, que era um doce, a sensação e a lembrança que acompanham até hoje é de que sempre renasce um desejo de introspecção, de um pouquinho de paçoca e um café para repensar a vida.

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Direitos autorais da imagem de capa: tomertu / 123RF Imagens



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