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Por mais empatia e menos projeção

Nasci em uma casa cheia de conceitos espirituais. Ir em centros espíritas tomar passes, meditar embaixo de uma pirâmide de cobre, beber águas lunarizadas, usar cristais em chakras, tomar florais de Bach entre outras terapias alternativas, sempre foram usuais durante minha infância e adolescência.


Mais tarde, adulta, fui estudar os assuntos que mais me interessavam e lá comecei uma nova jornada.

Certamente entre as coisas mais importantes que aprendi foi sobre o efeito espelho ou projeção.

Quando não trabalhamos internamente o autoconhecimento e a empatia, tendemos a projetar em outra pessoa algo que existe dentro de nós e que, na maior parte das vezes, desconhecemos a sua existência (e procedência dentro de nós). Então, inconscientemente, a negamos e saímos pela vida, distante de nós e projetando conteúdo próprio em faces alheias.

Por exemplo, geralmente na adolescência nos apaixonamos perdidamente por uma celebridade que nunca conheceremos pessoalmente. Colamos fotos na parede, ouvimos suas músicas dia e noite ou assistimos repetidas vezes os filmes. E muitas pessoas, mesmo depois de adultas, seguem com esse comportamento. E o que significa? Projetamos em tal celebridade toda nossa luz, beleza, qualidades nossas que não reconhecemos por falta de autoconhecimento e damos a esse desconhecido um poder e um amor que seria para nós próprios. O mesmo acontece com nossas sombras, quando sentimos raiva profunda e ódio por uma determinada pessoa, que muitas vezes que nem conhecemos. A pessoa só está servindo como um reflexo de todo aquele veneno que já existe dentro de nós e que tem origem em um lugar muito profundo. Ou seja, a nossa percepção está desconectada da verdade.


No meio holístico, esotérico, místico e espiritual é onde mais vivenciei o comportamento de projeções berrantes. E por quê? Acredito eu porque infelizmente a maioria das pessoas só busca se autoconhecer e se aprofundar na espiritualidade quando está sofrendo de algum mal em sua vida, portanto, ela chega em um lugar, terapia ou experiência totalmente desconectada do seu centro e passa a endeusar o outro que lhe ajuda a encontrar a luz e reconhecer a sombra dentro de si mesma.

Sem perceber, essa pessoa, longe de seu centro, segue negando sua luz, beleza e sabedoria interiores, mais uma vez, endeusando o professor, o terapeuta, o pai de Santo, ou quem quer que seja. Infelizmente, assim, ela tarda também seu processo de cura e reconhecimento de suas sombras.

Presenciei as mais diversas experiências e o que posso dizer é: se você está encarnado nesse lindo planeta chamado Terra, você é um ser humano assim como todos os outros também são.

Se estamos vivos e de passagem por aqui, quem quer que seja (o tio, a mãe, a avó, a freira, a o peão, a veterinária, o índio, o papa, a mãe de santo) estamos todos para aprender, crescer, transformar e evoluir em consciência.


Portanto, fica claro como a nossa sociedade está extremamente doente ao julgar sem parar o outro. É só verificar a audiência dos tabloides. O sofrimento alheio vende mais do que a felicidade alheia porque há uma boa dose desse sofrimento todo na audiência que a consome. É uma projeção massiva de feridas que estão em si, que não foram olhadas e muito menos curadas. Todos endeusam e depois crucificam. Ou o inverso, crucificam e depois endeusam.

Quem somos nós? Quem é você ou quem sou eu para falar da vida alheia e da escolha que alguém fez? Quem somos nós para dizer que fulano é santo e beltrano é diabo?

Se você reconhecer a sua própria luz e sua sombra e eu a minha, tenho a certeza de que é o início de uma grande cura e a única forma de transformar o todo.

Na Terra, a brincadeira é aprendermos com a dualidade. Esse é o jogo. Sabemos o que é certo porque erramos. Sabemos o que é som porque conhecemos o silêncio. Quanto mais luz há, mais sombra também haverá. This is it, babe!

Então, está mais do que na hora de amadurecermos enquanto seres humanos e “sermos o macaco que olha para o próprio rabo”. O que não dá para mudarmos, aceitemos e paremos de ser essas criancinhas birrentas que saem se vitimizando por aí, se juntando a outras criancinhas chateadas que projetam um salvador (seja o papa, o presidente, o terapeuta, a psicóloga, o guru, o chefe, a namorada, o filho, a avó, o cantor, a atriz). Paremos de projetar nossas frustrações, dores mal vividas, feridas não curadas nos outros e passemos, com muita humildade, amor-próprio e vontade a olharmos com mais profundidade para nós mesmos.

E lembrem-se do que a Santa Rita das Ovelhas Negras uma vez nos falou em sua música Pagu: Nem toda feiticeira é corcunda.


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