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Por que você não larga desse cara?

Como

Sim, é exatamente esta a primeira pergunta que se faz a uma mulher que notadamente sofre violência doméstica: Por que você não larga desse cara? A resposta não é assim tão simples quanto parece e para compreendê-la antes de tudo é preciso saber o que se entende por violência doméstica dentro das relações íntimas e como ela se desenvolve.



A questão em torno da violência doméstica é capaz de fomentar debates de todo gênero nos quais é possível levantar as mais diversas teses para tal fenômeno. Na busca por uma explicação para o fenômeno da violência doméstica entre casais, especialistas levantam teses mais acertadas, como aquela em que pode ser vista na infância uma história familiar disfuncional onde há alto conflito ou violência movida pelo pai contra a mãe, tornando as crianças expostas a fatores de vulnerabilidade e fazendo com que quando adultas,busquem em relações análogas a chance de “reproduzir e consertar”aquilo que viveu na infância, e outras mais “exóticas” como aquela de que algumas mulheres sofrem de uma forma social de masoquismo e escolhem parceiros violentos porque experimentam uma sensação de prazer ao serem espancadas,controladas e humilhadas por seu homem. Nenhuma tese, porém, é tão cruel e equivocada quanto é a tese popular:
“Se ela apanha e não larga do cara é porque gosta de apanhar.”

Ao longo do texto desejo explorar a dinâmica das relações que culminam em violência e meu objetivo final é extirpar do leitor este pré-conceito e esta opinião formada e equivocada sobre os motivos que levam uma mulher a suportar abuso por longos períodos, de modo que o leitor, ao ser esclarecido, deixe de atuar como julgador obtuso e passe a ter capacidade analítica sobre a questão,sabendo a complexidade da relação que se desdobra por trás daquela surra final e passando a compreender que a violência doméstica nem de longe pode ser definida através daqueles sinais evidentes no corpo. O leitor saberá ao final da leitura que ainda que nunca ocorra a agressão física, ainda assim estará caracterizada a violência doméstica e que a decisão de permanecer com o agressor vai muito além do que uma simples escolha de ir ou permanecer.


Alguns podem achar estranho o que vou dizer: às vezes a mulher está sofrendo violência e sequer sabe que está sendo agredida. A violência psicológica e emocional nem sempre é percebida pela vítima como forma de agressão e a violência física nem sempre se materializa. Muitas vezes a mulher que sofre constantes agressões psicológicas e infundadas, se vê como a pessoa forte da relação e vê o parceiro como um homem perturbado que precisa de ajuda e ela acredita ser “a única pessoa no mundo capaz de compreender e ajudá-lo.” Confesso que eu mesma cheguei à minha quarta década de idade acreditando que violência doméstica só podia ser física e jamais soube interpretar outros comportamentos como sendo agressões gravíssimas como, de fato veremos, são.

Ao iniciarmos o debate sobre violência doméstica, é inútil começarmos pelo episódio da agressão física. Ao fazermos isso, estaríamos começando pelo fim. Quando a violência doméstica atinge patamares em que há agressão física e até mesmo a morte da vítima, chegamos ao ponto em que a violência silenciosa que já vinha se desenvolvendo ao longo de meses ou anos atingiu seu ponto máximo e se materializou. A violência física nada mais é do que a exteriorização de uma violência velada que já ocorria dentro daquela dinâmica de casal. A violência física é o culminar de um longo processo de maus tratos e abuso do qual pouco se sabe a respeito. Estuda-se, discute-se, prova-se com facilidade e tutela-se juridicamente a vítima da violência física pelo simples fato que esta é evidente, mas ignora-se quase que por completo, não é levado a sério ou pouco se consegue comprovar daquilo que antecede essa explosão.

Para compreendermos “por que ela não larga desse cara?”, é importante entender antes de tudo que violência física não acontece de repente. Há um “escalar” da violência o que, mais adiante veremos, retira da violência física o impacto do choque de algo inesperado que nos faria, numa reação natural, correr para longe.

De modo a ilustrar como o relacionamento se desenvolve até o ponto da agressão física, vou buscar inspiração nos meus anos de trabalho como especialista técnico em equipamentos de alta complexidade para a área médica e chamar este fenômeno de “violência de torque”, pois nos dá a ideia de escalada gradual até seu ponto de força máxima. Tal fenômeno refere-se a um modo de relacionamento que se desenvolve gradualmente e é baseado na manipulação emocional, no controle e violência psicológica que nem sempre culminará em física, o que em hipótese alguma diminuirá seu potencial lesivo.


A violência física e violência psicológica (um conjunto de atitudes e discursos destinados a denegrir e rejeitar o modo de ser de outra pessoa) estão intimamente ligadas. Nenhum homem começa, numa crise de loucura repentina, a espancar sua companheira de um momento ao outro. Homens com índole violenta nem sempre demonstram essa face àqueles fora de seu convívio íntimo, porém já desde o início da relação “enrustem” um processo de manipulação que visa dominar e controlar a parceira e, como quem segue um padrão, adotam uma série de comportamentos e abordagens que se repetem e se reforçam com o tempo até chegarem a obter a completa submissão, a anulação total da companheira e em casos mais extremos, sua morte.

No percurso para chegarmos à violência doméstica assim como a conhecemos, a relação permeada de abusos passa por diversas fases. De início cabe dizer que o indivíduo que é potencialmente violento é também, inevitavelmente, um manipulador hábil e capaz de encontrar na parceira seus pontos fracos o que lhe permite de início agradá-la em todas as suas expectativas e mais tarde machucá-la da forma mais eficaz possível. Tudo começa com um namoro cuidadoso onde ele se apresenta e se comporta como o “Príncipe Encantado”, refletindo perfeitamente os seus sonhos. Para aguçar os instintos maternos e protetores da mulher, apresenta-se como vítima de uma infância infeliz, de um divórcio no qual foi injustiçado ou de um namoro com “uma mulher má, desequilibrada” e que o fez sofrer muito.

Atenção: passado difícil todos podem ter e não significa que estaremos diante de um agressor. O que diferencia um agressor de uma pessoa normal, é que o agressor utilizará este sofrimento passado para despertar o instinto protetor e justificar sua crueldade para com a companheira. Outras vezes, tal sofrimento sequer existiu e trata-se somente de artifícios para causar compaixão na nova parceira de modo a obter seus cuidados e sua desculpa quando se mostra agressivo ou negligente.

Haverá muitas demonstrações de afeto, atenção e disponibilidade formando um processo de sedução que é necessário, e dura tanto quanto precisar para consolidar a relação e obter controle sobre a parceira. Há, de início, um verdadeiro “bombardeamento de amor” de forma que a parceira, tomada pelo efeito inebriante de toda aquela atenção, não prestará atenção em características suas que possam demonstrar seus traços violentos e controladores.


Numa relação com este perfil, tudo se desenvolverá muito rapidamente, e enquanto se desenvolve, haverá momentos que seus comportamentos inadequados serão percebidos rapidamente pela parceira e delicadamente questionados. Para tais questionamentos, o parceiro manipulador encontrará modos de inverter as culpas e, sem perceber, a mulher passa a “se desculpar” continuamente. Já nessa fase ela começa a “compensá-lo” por sua “chatice” para com ele.

Com a coabitação ou casamento, desencadeiam-se outros mecanismos: haverá ainda sedução, mas também a introdução do que chamo de “ciclo abusivo”, ou seja, comportamentos perfeitos e bons alternados com momentos de microviolência que se manifesta de forma imprevisível, com uma série de discursos pejorativos e pequenos ataques verbais.

Verifica-se no parceiro um comportamento de “o médico e o monstro” no sentido que ora se apresenta dócil, ora hostil, sem qualquer explicação lógica. Enquanto tal alternância imprevisível de microagressão e bondade é mantida como um esquema sutil, a mulher entra em estado de confusão mental, e, lentamente, enfraquece sua força e sua capacidade de reagir. Ela passa a sentir-se desconfortável, mas ao expressar descontentamento, o parceiro dirá que está exagerando e que a sua percepção do que está acontecendo é errada. O parceiro abusivo poderá fazer isso ora dizendo que aquela microagressão era brincadeira, ora que foi algo que ela fez e o deixou nervoso,e outras vezes dirá que ela simplesmente está “louca”.

Como os episódios de afeto se intercalam com aqueles de agressão, logo ela começa a duvidar dos próprios sentimentos. Nesse ponto, o domínio e o ciúme extremo do parceiro são interpretados como formas de amor.


A partir deste momento inicia-se a tentativa de controlar tudo na vida da companheira: o modo que ela se veste, como usa os cabelos, a maquiagem, os lugares que frequenta, o trabalho que faz e como se comunica com o mundo, de modo a impor como ela deve se comportar. Perde-se a liberdade de apenas “ser”.

Em seguida, será isolada dos amigos, da família de origem (quase sempre impõe que passe tempo somente com a família dele) e de qualquer vida social. Fará isso de modo sorrateiro. Dirá que os amigos não prestam, que a família aproveita dela, que mulher decente não está sempre saindo, se vitimizará porque “ela o deixa sozinho”, etc. A vida da mulher deve basicamente girar em torno de seu parceiro. Seus interesses pessoais são totalmente suprimidos, restando apenas aqueles que para ele não representa nenhuma ameaça de domínio sobre ela. Se ela ousa “desobedecer” ele passa a aplicar-lhe pequenos castigos como, por exemplo, o uso da agressividade passiva(silêncio injustificado por dias seguidos como forma de punição) para demonstrar seu descontentamento.

Desta forma, frequentemente a própria mulher passa a enclausurar-se, a isolar-se dos amigos, da família e de seus interesses de modo a evitar pressão psicológica e confronto. O ciúme passa a ser patológico, com uma suspeita contínua, com a distorção de tudo o que é dito e com atribuições de intenções infundadas. Nessa fase, é comum o agressor “recrutar” entre seus familiares,amigos e até terapeutas, “apoiadores” de seu ciúme. Conseguem isso contando a estas pessoas mentiras sobre a índole da própria companheira de modo que as pessoas a sua volta passem a vê-lo como vítima e a duvidar da idoneidade da parceira. Sem perceber, essas pessoas que possibilitam sua conduta ao dar-lhes apoio sem buscar a verdade dos fatos, tornam-se cúmplices, mas também vítimas de sua manipulação.

A partir do momento em que a mulher é afastada de seus entes queridos e,sobretudo, de quem é crítico em relação ao comportamento do parceiro,deixando-a assim longe da sua network de apoio, iniciam-se as críticas aviltantes e as humilhações. A difamação sistemática, insultos, intimidações e ameaças agridem a autoestima e o valor pessoal da mulher e cria uma fratura gravíssima em sua identidade, o que fará com que passe a desprezar a si mesma de modo que não se sentirá digna sequer de ser amada. Paradoxalmente, é neste momento que, ao olhar ao seu redor, encontrará como apoio somente o seu próprio agressor, estreitando com ele os laços de “afeto” e passando a fazer”qualquer coisa” para levar a relação ao estado do início, o que,para seu desespero, jamais ocorre. Não importa quanto “esforço” fizer nada é capaz de agradar o seu parceiro que se mostra cronicamente infeliz e atribui a culpa de sua infelicidade a ela.


A violência física, no entanto, na maioria das vezes só aparece se a mulher resiste à violência psicológica, isto é, quando o homem não é capaz de controlar suficientemente a mulher que decide pela sua independência quando reage às agressões verbais e psicológicas, como, por exemplo, quando ela não renuncia aos parentes e amigos, não muda seus modos para adequar as demandas dele, procura um emprego, mas PRINCIPALMENTE, quando ele percebe que há o risco dela estar saindo da relação.

Contudo a questão principal permanece: por que algumas mulheres sofrem por tanto tempo estas situações de violência? Por que em face de sinais claros de violência física no corpo, nega o ataque, contando mentiras absurdas de quedas estranhas, chegando até mesmo a defender o companheiro que tanto a machucou psicológica e fisicamente? Enfim, por que ela não larga desse cara?

Algumas respostas para nossa pergunta já podem ser encontradas ao longo do texto. Ficou evidente que as relações onde há abuso e violência de qualquer tipo são fundadas sobre uma forte dependência emocional da vítima para com o seu agressor que, através de um longo período de manipulação, desenvolveu por ele a Síndrome de Estocolmo, na qual pequenos gestos de afeto são interpretados como amor. No entanto, esse comportamento nada mais é do que um mecanismo de defesa daquela que se encontra dentro de uma situação constante de abuso.

Do texto podemos concluir, portanto, que há uma espécie de simbiose que se cria entre agressor e vítima e a forte presença do “trauma bonding”, ou seja, da ligação emocional e psicológica através do trauma.


Pensemos, como exemplo, em uma pessoa que é sequestrada por 3 sequestradores e levada a um cativeiro. Após dias de maus tratos e privações,um deles lhe oferece um agasalho. Automaticamente dispara na vítima um mecanismo de defesa ao qual ela irá se apegar: “se este me ofereceu um agasalho é porque se preocupa comigo, logo, ele é bom e posso confiar e gostar dele, pois ele representa minha única chance de sobrevivência! ”

É exatamente este o mecanismo que se desencadeia na Síndrome de Estocolmo, no “trauma bonding” e nas relações abusivas. A diferença entre a situação hipotética e relação abusiva é que nesta última o agressor, ao alternar comportamentos bons e ruins numa só pessoa, não dá à sua vítima a escolha por um deles como seu salvador, apegando-se fortemente às características positivas de seu próprio algoz, passando a temê-lo e a amá-lo ao mesmo tempo.

Como podemos perceber, trata-se de barreiras de ordem emocional ou psicológica. Aos poucos, essas mulheres perdem seu espírito crítico e começam a “se acostumar” a aumentar cada vez mais o seu limite do tolerável. Da mesma forma, progressivamente, o companheiro passa de gestos ou comportamentos não abertamente hostis à violência identificável, e a mulher que sofre continua a achar tudo suportável vez que mantém a visão idealizada de seu “príncipe encantado” que “só ficou nervoso, mas a ama”, passando a culpar-se pelos seus arroubos de raiva e violência. Sente-se desta forma responsável pelo comportamento inadequado do parceiro e por “salvar” a relação.

Nesta fase, os ataques se tornarão mais frequentes e mais graves e a mulher mais insegura, isolada, com a autoestima destruída, confusa, assustada e cada vez mais incapaz de tomar uma decisão. Essas mulheres chegam à violência através de um processo sutil e não tem consciência da trajetória que esta sendo trilhada.


Lentamente passa por um processo de submissão e lavagem cerebral, o que bloqueia seu crescimento emocional, seu raciocínio lógico e discernimento. Logo será reduzida a ser um objeto sem vontade própria, passando a não ser mais capaz de se rebelar ou condenar o abuso sofrido, chegando a proteger seu agressor e absolvê-lo de qualquer violência. Foi certamente pensando nisso que o legislador retirou do ordenamento jurídico brasileiro a possibilidade da retratação nos casos de violência doméstica.

Por fim, se hipoteticamente a mulher conseguisse superar todas as barreiras psicológicas e emocionais expostas acima, estaria ainda diante de alguns desafios muitas vezes intransponíveis na dura empreitada de sair da vida de um parceiro abusivo e violento: 1. aquela que não manteve sua independência financeira deverá encontrar modos de superar tal dependência ao deixá-lo; 2. aquela que teve filhos deverá lidar com as ameaças de perder a guarda das crianças já que por vezes depende financeiramente e outras vezes, é tida pelos demais como a pessoa desequilibrada da relação, tendo em vista o estado emocional a que chega a mulher que sofre abuso; 3. na possibilidade de simplesmente sumir, como se afastar levando os filhos consigo sem ser denunciada por sequestro e por último, 4. o mais preocupante e que se aplica a todas as mulheres vítimas de uma relação com um agressor, tenha ela ou não filhos e independência financeira: como sair sem que ele lhe tire a vida.

Por: Lucimara Rocha, Advogada e pós-graduanda em Psicologia Jurídica
Em: Dublin, Outubro de 2013 (Workshop “The Impact of Personality Disorders on Domestic Violence”)


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***Nota: A violência doméstica faz vítimas de todos os sexos e idades, com diferentes relações entre agredido e agressor. Contudo, como a violência se manifesta de forma e por motivos diversos nas várias relações,este texto explorou especificamente este fenômeno entre a vítima do sexo feminino e o agressor do sexo masculino dentro das relações íntimas. De forma alguma, frise-se, a autora quer sugerir que somente mulheres são vítimas de violência doméstica. Seria um disparate e uma desconexão total com a abrangência do tema.

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