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Porque sentir-se “mal” não deve ser visto como algo necessariamente ruim

Você pode continuar a sentir bem-estar mesmo no meio de um período difícil. O bem-estar simplesmente reconhece que a vida é uma série de picos e vales, tanto na visão macro, quanto na diária. É artificial (e impossível) insistir em uma maré de um fluxo constantemente igual. 


“Quando há uma grande decepção, não sabemos se esse é o fim da história. Pode ser apenas o começo de uma grande aventura” – Pema Chodron

Desde novos, a maioria de nós recebe a mensagem de que devemos ser felizes – ela parte dos nossos pais, professores e até mesmo de desconhecidos. “Sorria!” Dizem-nos. “Por que essa tristeza?” Perguntam-nos. Não é de se admirar que crescemos com a ideia de que sentir algo menos do que alegria 24 horas por dia é sinal de que algo está errado.

Temos vergonha de admitir, até para nós mesmos, que, às vezes, nós nos sentimos para baixo. Parece que, de alguma forma, nós falhamos. Facebook e Instagram certamente não fornecem uma visão mais equilibrada desse problema: todos os outros estão aparentemente para sempre felizes e isso se tornou a norma da sociedade.


O problema é que a vida não é assim, e quando esperamos que seja nós acabamos nos sentindo pior. Há quase uma sensação de pânico quando um período menos eufórico dura muito (e não estou falando sobre a depressão clínica aqui, apenas uma excitação ou um tédio, os altos e baixos). Nós simplesmente não toleramos mais os baixos, ficamos ansiosos por uma solução contínua do que o ego chama de “felicidade”.

Eu, pessoalmente, comprei muito o mito da felicidade contínua muitas vezes e ainda tenho que me lembrar de que não passa disso – um mito. 

Desde verdadeiras experiências como doenças ou perdas, até os dias em que a vida se sente bem “bla”, minha primeira reação costuma ser a de buscar consertar esse sentimento de alguma maneira. Algo deve estar errado, certo? Eu não deveria me sentir assim – eu deveria estar feliz!

Algo que me ajudou muito foi substituir a palavra “felicidade” por um termo suficientemente amplo para abranger uma gama “mais normal” de emoções: o bem-estar.


Você pode continuar a sentir bem-estar mesmo no meio de um período difícil. O bem-estar simplesmente reconhece que a vida é uma série de picos e vales, tanto na visão macro, quanto na diária. É artificial (e impossível) insistir em uma maré de um fluxo constantemente igual.

Então, como cultivamos uma sensação de bem-estar? Começando com a forma como você fala consigo mesmo. A maioria das nossas reações emocionais à vida vem da forma como rotulamos nossas experiências. O ego vai tirar conclusões precipitadas usando de pouquíssimas evidências e o fará apertar o botão de pânico: “Ah, não! Alerta de depressão! Não estou me sentindo bem – isso é um problema!”.

Ao invés disso, experimente pensar: “Estou me sentindo um pouco para baixo ultimamente. Por que será?” 

Então, simplesmente aceite o sentimento e permita que ele siga seu curso. O ego quer que você faça algo para consertar o que vê como um problema. Não é confortável simplesmente experimentar o que é considerado como um sentimento “ruim”, e então você será estimulado à reprimi-lo ou fugir dele.

Existem muitas maneiras de fazer isso (e eu tentei de tudo): fazer compras, beber uma ou duas taças de vinho, assistir TV, mergulhar nas redes sociais, e assim por diante. Nenhuma dessas atividades está “errada”, a menos que você as use para evitar ou negar seus verdadeiros sentimentos. Nossas emoções, além de simplesmente serem uma parte válida da experiência humana, contêm mensagens importantes para nós – mensagens que não podemos receber quando estamos fugindo.

Então, digamos que você se permita ter a experiência de se sentir um pouco para baixo. Pode até durar uma temporada, mas você diz a si mesmo: “Está tudo bem. Eu sei que isso também vai passar. Posso me permitir ter esse sentimento e ainda assim estar perfeitamente bem”. Isso é bem-estar. 

Com o bem-estar, você pode continuar a desfrutar de tudo o que é bom em sua vida e se tratar com ternura, ao mesmo tempo em que deixa sua experiência evoluir naturalmente. E ela evolui. A beleza de se permitir sentir é que dessa forma estes sentimentos podem transmitir suas mensagens e serem liberados.

Talvez a mensagem seja: você precisa diminuir o ritmo um pouco. Talvez seja: o trabalho que você está fazendo não lhe  traz mais satisfação. Ou talvez você nunca “descubra”. Seu corpo ou espírito pode apenas precisar de um pouco de tempo de cura ou integração. Com uma sensação de bem-estar, você pode confiar que a vida está dando a você  exatamente o que precisa, mesmo que não faça sentido ou que não faça seu ego feliz.

O bem-estar é muito parecido com o conceito budista de equanimidade, o que significa serenidade ou imperturbabilidade. O budismo ensina que você não compreende o “bom” ou foge do “mal”, mas aceita cada um deles. 

A mente ocidental, muitas vezes, confunde isso com a passividade, mas não é a mesma coisa. Com equanimidade e bem-estar, a ação apropriada é tomada – naturalmente com calma. Como bônus, a ação removida do drama criado pelo ego é muitas vezes mais eficaz!

E existe outro benefício para aceitar as chamadas experiências negativas da vida. Elas na verdade permitem com que você aprecie bem mais as positivas.

Quando tentamos ir de um pico para outro, o que um dia foi satisfatório, torna-se chato; o que já foi uma grande vitória, já não parece tão impressionante. Existe uma espécie de “inflação da felicidade” que desvaloriza o que você tem e o faz buscar cada vez mais.

É contra-intuitivo, mas quanto mais você experimenta emoções como tristeza ou decepção, mais você realmente pode sentir alegria e gratidão. O poeta Kahlil Gibran escreveu: “Quanto mais profunda essa tristeza se esticar em seu ser, mais alegria você pode conter”.

Os momentos difíceis também nos trazem coisas boas. Eles nos tornam mais fortes, mais resilientes e mais compassivos. Normalmente, vemos isso apenas em retrospectiva, mas também podemos usar esse auto discurso para nos lembrar disso no meio desses tempo de turbulência: “esse momento não é muito divertido, mas eu sei que estou aprendendo e crescendo através dele”.

Sentir-se “mal” não deve ser algo do qual se deve fugir, pois oferece muito àqueles que estão dispostos a abraçar a experiência. Você terá que dispensar as mensagens do seu ego e da sociedade, mas você ganhará muito mais em termos de riqueza de vida, quando você aprender a receber as duas fases da maré, o refluxo e o fluxo, de braços abertos. 


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: lenanet / 123RF Imagens





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