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Precisamos falar sobre rejeição: por que todo não da vida é um sim?

Eu costumo dizer que talvez tenham sido os momentos mais difíceis e confusos da minha vida os que mais me fortaleceram e me ensinaram sobre mim mesma e sobre o mundo também.

Isso porque, toda vez que me vi desafiada ou testada até o limite do que julgava capaz de lidar ou suportar, descobri dentro de mim uma força que eu jamais imaginei possuir. Ao enfrentar uma dificuldade, sofrer uma perda ou ter sido rejeitada em algum momento, seja na vida pessoal ou profissional, aprendi que aquilo que não me mata, de fato, me fortalece. E que sim: a gente vai cair muitas e muitas vezes ainda, mas, a cada queda, vamos nos erguer mais fortes e calejados para enfrentarmos o que vier.



O que acontece é que, a exemplo dos músculos do nosso corpo, que a gente exercita a cada vez que se movimenta ou faz algum esforço, músculos de rejeição também precisam ser exercitados, para que se fortaleçam e não atrofiem.

Não é que você deve se acostumar a ser rejeitado, sofrer ou enfrentar momentos de prova extrema, não é isso.

O que quero dizer é que, se você nunca exercita esses músculos, chances são que você leve uma forte rasteira da vida e que se quebre todo em caquinhos quando, por algum motivo, a dificuldade bater à sua porta, seja ela em que forma for: na ideia que você teve e que ninguém comprou, no amor não correspondido, no sonho não compartilhado, na sociedade desfeita, no projeto ao qual você dedicou horas e horas e que não teve o retorno esperado, na promessa não cumprida, no decepcionar-se por ter criado expectativas a respeito de alguém ou de alguma coisa, no imprevisto que tirou todas as suas certezas do lugar, no não conseguir o que tanto queria, na passagem de alguém a quem você tanto amava, no simplesmente não saber mais o que fazer.

Se você não exercita esses músculos, a começar pela compreensão de que tudo isso faz parte dessa nossa jornada aqui na Terra – o nosso corpo e tudo o que julgamos “possuir”, na verdade, nos foram simplesmente emprestados para que pudéssemos crescer e evoluir – muito dificilmente você se sentirá forte o suficiente para enfrentar o que quer que seja.


E não é apenas sobre resiliência, entende? Até porque, não dá pra se quebrar inteiro e simplesmente voltar a ser o que já foi um dia. Nada será como antes. Por mais serenas que tenham sido as suas experiências até agora, todas elas – todas elas mesmo – te transformaram de alguma maneira, fazendo de você um tantinho diferente do todo que você era até o momento em que você passou pelo que passou na vida.

Se ao longo da minha jornada eu não tivesse me sentido perdida tantas e tantas vezes, se eu não tivesse me lançado em buscas que me levaram a tantas outras buscas, se eu não tivesse escutado tantos “nãos”, se eu não tivesse gravado vídeos tão ruins e escrito textos tão ruins e pedido demissão e mudado de profissão e tido tantas ideias que não foram aceitas do jeito que imaginei e me envolvido em relacionamentos tão sugadores e tão platônicos e tão complicados e tão cheios de disfarces e nuances e linhas tortas… Se não tivessem rido de mim em alguns momentos, ou criticado os meus sonhos e a pessoa que eu era, ou falado de um jeito manso que eu não era ninguém para conseguir o que tanto queria, talvez eu não estivesse aqui agora, entende? Talvez eu não fosse quem sou.

Precisei ser rejeitada para aprender a fortalecer os meus músculos e não me deixar abater por qualquer problema ou dificuldade que surgisse no caminho. Para não desistir ao primeiro obstáculo. Para não achar que eu era fraca demais quando eu não era, não.


Durante grande parte da minha vida foi mais cômodo me atrofiar sempre que o assunto era rejeição. Eu gostava de ser cuidada, de ser mimada, de correr para o colo de alguém feito criança a cada vez que o bicho pegava e que eu me via diante de algo que, no meu papel de vítima frágil, eu não conseguiria enfrentar sozinha.

E tá certo que nem sempre vamos conseguir sozinhos mesmo não. Mas, quando eu olho pra trás e me vejo com medo de abrir a porta e enfrentar os meus próprios monstros, eu entendo o quanto somos infinitamente mais fortes e mais capazes do que podemos imaginar. E o quanto assumir as rédeas da nossa própria vida, mesmo que dê medo e que machuque de vez em quando, nos empodera e nos liberta das correntes que amarramos em nós mesmos.

Quando eu escuto um “não” e transformo esse não em oportunidade de crescimento, estou dizendo para o Universo e para mim mesma que o que eu penso e sinto sobre mim depende única e exclusivamente de mim. E estou dizendo pra você que, por mais que eu ainda me importe com a sua opinião sobre mim – porque não somos máquinas e temos, sim, necessidade de aceitação e conexão –, essa opinião é e sempre será um problema seu, porque ela não fala sobre mim, ela fala sobre você.

O julgamento é assim: ele diz muito mais sobre quem julga do que sobre quem está sendo julgado.

Quando eu me lembro de tudo o que já passei pra chegar até aqui, quando eu me lembro das madrugadas viradas, do choro escondido no chão do banheiro, da grana que eu não tinha pra começar o que quer que fosse, das várias portadas na cara, dos vários “nãos”, ditos em tom de riso ou de ofensa, de todas as coisas que simplesmente não saíram da maneira que eu imaginava, dos relacionamentos que só me diminuíram ou me sugaram, das expectativas que, por falta de cuidado da minha parte, acabei transformando em decepções, eu agradeço.

A cada pedra e cada estaca e cada palavra e cada pessoa e cada problema que surgiram no meu caminho, porque foi graças a tudo isso que hoje eu construí uma vida escolhida, uma vida que me preenche de propósito e amor. Se nada disso tivesse acontecido, como eu teria exercitado os meus músculos da rejeição e me sentido forte o suficiente para escalar a montanha, quando tudo o que todo mundo falava era no quanto eram inalcançáveis as pessoas que já tinham chegado ao topo?

O seu caminho é o seu caminho. E, para segui-lo com propósito, você vai precisar aprender a contornar os obstáculos que surgirem e fazer de cada um deles uma ponte que vai te levar para ainda mais perto de onde você quer chegar.

Nessa jornada, ser rejeitado faz parte. Não é todo mundo que vai comprar a sua ideia ou viver o seu sonho ou corresponder aos seus sentimentos ou se lançar nessa busca junto com você. Vai dar errado. Vai ser difícil. Vai dar vontade de jogar tudo pro alto. Vai doer. Vai dar raiva. Vai ser uma merda às vezes. Mas, sabe, vai valer a pena. E vai valer a pena porque vai te ensinar tanta coisa e te mostrar tanta coisa e fazer tanta coisa por você  mesmo que, após tudo isso, você vai perceber o quanto foi maravilhoso, apesar dos pesares, ter vivido essa experiência exatamente dessa maneira.

Está tudo certo.

Todo não da vida é um sim.

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Direitos autorais da imagem de capa: racorn / 123RF Imagens

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