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Pro cara que vai chegar em breve

pro cara que vai chegar em breve

Eu sei que você vai abrir a porta do seu apartamento recém-decorado, me pedir pra não reparar nas caixas e explicar que atrasaram a entrega da cama, por isso só tem o colchão no chão. Você vai ficar sem graça e me dizer que fez alguma coisinha pra gente jantar, mal sabendo eu que os dois últimos finais de semana foram dedicados a aulas no Youtube só pra preparar aquele risoto que eu amava. Cê vai virar abreviação rapídinho porque eu não vou querer perder tempo te chamando pelo nome todo, eu vou te devorar aos pouquinhos pra já sentir teu gosto desde a hora em que você chegar.



Vou passar a mão pela tua coxa pra você parar de balançar a perna de nervoso, calma, eu não sou presença estranha, algo me diz que tu já me conhecia e se não conhecia, prazer, eu vim pra ser teu.

Cê vai rir pra caramba quando eu te contar que tenho medo de palhaços e que o meu sorriso torto não é charme coisa nenhuma, é só uma paralisia chata que uns nervos aí me deram de presente. Não sou gauche na vida, nem tive um anjo torto me gritando profecias na saída do metrô, mas se eu pudesse prever o futuro naquela saleta pintada de verde com um quadro do Almodóvar na parede, eu poderia dizer que tive sorte. Sorte, sim, porque sinais vermelhos nunca são propícios, e aquele me fez esbarrar o guidão da bicicleta na tua mochila. Quase te carreguei comigo – não que eu não quisesse, mas era inoportuno, eram quase 6 da tarde numa São Paulo que quase não vê o sol e eu vi, vi quando o teu rosto mudou de turvo pra arco-íris.

Lavo a louça ou você lava? Nenhum dos dois, deixa aí que depois eu arrumo, você diz. Cê gosta de toca-discos e LP, mas só tem um dock de iPod. Te acho sensível, mas você luta. Pergunto da trilha sonora de hoje e você diz que não é de filme, que se a gente fosse uma história ela seria feito uma crônica, uma prosa cotidiana como se um dos dois tivesse indo pegar o metrô e imaginasse o outro. Abro um sorriso e pergunto qual é a melhor frase do melhor livro que você já leu. “Talvez amar dispense cronômetros”, você não acha? Acho, sempre achei, desde a hora em que te vi de cinza e agora vermelho, desde as mãos suadas antes de apertar o 10 no elevador até agora. Mas não te diria isso, deixo você falar sobre o tal livro e digo que a noite já vai cair. Você só ri.


Vou perguntar se você fuma e você vai levantar um isqueiro, na tua sacada ou na minha? Na sua a vista é melhor e dá pra ficar de costas pra rua ouvindo você perguntar se eu vim mesmo do Rio e por que eu troquei aquele tipo de pôr-do-sol por tanto cinza. Talvez eu não soubesse, mas meu chiados ritmados só fariam sentido com o teu sotaque que também não é daqui. Eu tentaria fazer bolha de fumaça no ar e você apagaria o cigarro, virando de costas pra mim. Olho pro lado, você desvia, pergunta o meu signo de novo e eu te respondo, respondo já rindo de agonia porque eu baixo os olhos e vejo os lábios, eu subo os olhos e vejo azul, talvez por isso eu não sinta falta do mar agora, talvez eu possa me banhar em você. Cê ri e segura a minha cintura enquanto a noite chega. E lá de baixo alguém diria que eram dois moços bonitos assassinando a solidão, dois moços bonitos descobrindo como era encontrar alguém pra vida inteira.

 

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Escrito por Daniel Bovolento – Via Entre Todas as Coisas


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