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A profissão é como o casamento: se não houver sintonia, vira pesadelo!

Meus pensamentos sempre foram incansáveis ruminantes, mastigando com pressa o sentido das coisas, enrustidas,  no cerco da vida. Lembro-me dos instantes, em que minha alma mediadora nem sempre aceitou o tédio de uma cadeira estática, buscando compreensão na matemática. A voz da mestra vinha em sobressaltos, caminhando para lá e para cá. Seus sapatos, emitiam chiados em parcelas engraçadas, inerentes ao couro novo e duro, que marchavam sobre o assoalho. Todos os ruídos arranhavam meus ouvidos: o zíper de uma pasta, um lápis caindo ao chão, o pigarro nervoso de uma colega ao lado, um livro folheando,  o farfalhar das folhas da árvore próxima a janela.


Os sons estrilados e suaves do mundo pareciam fazer sentido, menos a voz da professora,  cheia de incompreensíveis cálculos. Vinha como ondas, elevando e diminuindo nas notas de uma melopeia  fazendo fundo à minha agonia. A ausência da concentração de alguns, fazia-me sentir menos só. E só, devia sentir-se a professora tentando chamar a atenção para a importância da potenciação O ênfase de sua elucidação, servia apenas para me deixar perdida em pensamentos, ponderando se a tal potenciação era mesmo uma bússola para nortear o homem na solução da complexidade dos problemas.

A profissão é como o casamento: se não houver sintonia, vira pesadelo!

Meu problema era simples, claro, e incomplexo: não me sentia atraída por números, nem pelos caminhos abstratos de sua ciência. Minha cabeça já era pouso da imensidade dos abstratos, e do bater de asas, abarrotando minha imaginação. Mesmo dentre o enfado da matéria, eu pegava carona em algumas palavras que surgiam, abandonando meu corpo imóvel e apático, e aterrissando em outros países. Algarismos romanos! E pronto, eu estaria em Roma a Cidade Eterna de Rômulo e Remo. Nunca fui, mas estive lá várias vezes entre as paredes do Coliseu, da Arena com suas mortes infames inventadas para a diversão da nata da sociedade da época. Viajava pelo tempo da opulência e da decadência, e diante do incêndio de Nero o rei louco, eu queimava os números da equação de meu desgaste tentando compreender a aula.

Nos algarismos arábicos eu me aquietava. A professora nunca me dissera, mas presumi ser invenção dos árabes, e acertei, sem saber que o tinha. Partia em mais uma viagem, agora  para o deserto imaginando os árabes rabiscando sobre a areia quente, enquanto cobras saiam dançando de dentro das botijas ao som da música dos faquires. As bailarinas ondulavam seus sete véus, e por entre nuvens brancas, Aladim passeava sobre o tapete voador em busca de aventuras, tentando descobrir a senha das palavras mágicas do “Abre-te Sésamo”. Havia assistido recentemente o filme “Sherezad, As mil e uma noites”, e ainda não tinha conseguido me livrar das imagens mágicas do deserto.


Minhas notas nessa matéria sempre ficaram entre: média e  péssima. Passava na raspa. Um raspão honesto, e sem cola. Não que eu fosse burra. No segundo ano primário tirei dez por saber toda a tabuada. Era boa nas continhas. A coisa se complicou quando parti para o Ginásio. Meu cérebro sofria horrores, e a saída catártica, era devanear durante as aulas, por lugares que não tinham nada a ver com a matemática.

Esforço caseiro não faltou. O medo de  um zero, fazia-me ler e reler, até os olhos arderem como se estivessem cheios de pimenta. Na proximidade das provas corria para a casa de alguma das companheiras que recebiam gordas notas na ciência dos números. Um dia não me contive e perguntei para uma coleguinha, que tentava me ajudar sem nenhum resultado positivo: como você consegue gostar, e entender tanto a matemática? Ela disse meio surpresa: “É como se você estivesse andando no escuro, e repentinamente surge uma luz. E você enxerga tudo. Ou,  encontra o fio da meada: você vai desembaraçando e tudo se torna simples”.

Pois sim! Simples?! O fio da meada nunca caiu em minhas mãos, tão pouco  acendeu uma luzinha sequer. O que acendeu – e até os dias de hoje eu não entendo a razão – foi uma espécie de desafio. Uma atração por aquilo que estava fora do meu alcance. Tem mulheres que se apaixonam por homens que não lhe dão a mínima, e arquitetam meios de conquistá-los mesmo sabendo, ou ouvindo das amigas: “ele é muita areia para seu caminhãozinho”.


Deve ter sido mais ou menos isso: diante dos meus olhos a matemática era toda a areia do deserto, que eu pretendia encher minha pequena carriola. Parti com sede para o Universo estranho da contabilidade. Em todas as outras matérias fui bem, mas na contabilidade passei raspando. A velha raspa honesta, e humilhante.  Deveria ter desistido dessa atração impossível, mas teimosamente insisti. Mesmo vendo a incompatibilidade, casei-me com ela.

A união foi um desastre, embora eu me esforçasse, e não aceitasse desistir. Fui empurrando com a barriga, até que a  uma certa altura, os números tornaram-se meu pesadelo. Olhava – sentindo-me esgotada e quase infeliz – para os quilômetros de fitas da máquina de calcular, que iam se amontoando no chão. Todo aquele desperdício de papéis, de tempo, de almoço perdido, de sede não saciada, de banheiro não ido,  para encontrar alguns centavos que não batiam. De volta para casa, os números dançavam diante dos olhos abertos, ou fechados ,e o tic tac da máquina de cálculos parecia ter se instalado, permanentemente, nos meus ouvidos. Isso era alucinação, e eu amava demais a vida para suportar uma alma transtornada.

Pedi o divórcio.

Liguei para o chefe, e despejei sem nenhuma explicação: ou me transferem para outro departamento, ou peço demissão. Preferiram me transferir, pois modéstia a parte, sempre fui uma exemplar funcionária.

A matemática? Ficou bem, vivendo no mundo onde a amam e a entendem.

E, eu… ah, finalmente pude respirar aliviada, vivendo o que amo e entendo.

Aprendi com a experiência, que a profissão é tal e qual um casamento: não pode haver tédio, desgaste, e a sensação de prisão.

Tem que haver um sentimento nota dez, que lhe preencha de contentamento, fazendo-a sentir vontade de cantar, mesmo após um dia exaustivo, produtivo e concluído. Se for um casamento que te incomoda como uma nota de raspa… pule fora. Arrastá-lo por teimosia, é a pior das opções, pois te deixará incompleta, e afundada na mais profunda angústia. Não há salário que pague o autossacrifício.

Abrir mão do que não nos faz bem, não é sinônimo de fracasso, mas  de chance a si mesma. Puxar a toalha, dar uma guinada na vida, nunca foi fácil. O recomeço sempre é assustador. Acredite: é melhor se arriscar do que conformar-se, em se tornar um ser humano com nota de raspa, estagnado, triste, e sem sonhos.

O primeiro passo será tímido, receoso, e cheio de medo. Afinal, você estará jogando fora uma carreira preparada por anos, e promissora. Conheço um advogado, que comprou uma pequena fazenda, e foi plantar laranjas. Dirigia uma caminhonete empoeirada, fazendo entregas nas cidades próximas.

Falei com ele algumas vezes. De tênis e bermudão, ele era o retrato da felicidade.

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Direitos autorais da imagem de capa:  andreypopov / 123RF Imagens





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