Qual é o seu dom? Você está a serviço do seu chamado?

Diariamente temos uma nova chance para manifestar o nosso dom. Você sabe qual é o seu? Dom vem do latim donus e significa dádiva, presente. É aquilo que nascemos com ele, é a nossa capacidade inata de realizar algo, com facilidade e maestria. É o nosso talento natural.

Quando o nosso dom está em ação, a vida ganha sentido, brilho e alegria. Fazemos o que gostamos, com paixão. Incorporamos o nosso chamado e sentimos a leveza de estar a serviço de algo maior.

Aprendi isso com a língua alemã, onde as palavras são verdadeiras obras de arte a serem contempladas. Frequentei as aulas particulares de alemão a contragosto, incentivada pelo meu pai, filho de austríacos. Para mim, o alemão, além de duro, parecia não ter grande utilidade, já que o mundo falava inglês e era dessas aulas que eu gostava.

Cheguei a tentar convencê-lo disso dizendo: “se eu esbarrar em alguém, até eu conseguir falar a palavra “Entschuldigung” (que quer dizer desculpa em alemão) a pessoa já me bateu”.

Eu era uma menina, ainda não tinha olhos para ver a beleza da língua, e não imaginava que um dia as palavras seriam minhas amigas e que eu não só me renderia ao alemão como me encantaria com ele.

“Schuld” significa culpa e o prefixo “Ent” significa sair. “Entschuldigung” quer dizer sair da culpa. E foi exatamente o que fiz ao abandonar as aulas: saí da culpa de fazer o meu pai gastar com algo que me dava aversão e me livrei de uma obrigação.

Muitos anos depois, o alemão voltou a bater à minha porta e eu tive maturidade para recebê-lo e aturá-lo, até que ele se revelasse uma língua inteligente e profunda, ainda dura, porém encantadora.

Hoje, sei bem porque os austríacos levam tudo ao pé da letra. As palavras, para eles, têm peso e carregam literalmente seu significado. Quando eles verbalizam algo, sabem e honram o que estão dizendo.

Olho para aquela menina que fugiu das aulas de alemão com compaixão, confiando que o que é realmente importante na vida volta num outro momento e pede uma nova chance.

Assim foi também com a minha profissão. Depois de dez anos muito produtivos, cansei e tirei um período sabático de outros dez. Para muitos, loucura. Para mim, equilíbrio.

“Beruf” significa profissão em alemão. “Rufen” é o verbo chamar e o prefixo “Be” quer dizer tornar-se, incorporar. “Beruf” é tornar-se o chamado. Ter uma profissão significa incorporar o nosso chamado e estar a serviço daquilo que nos foi dado, o dom. Existe uma beleza imensa nisso.

Em um período da infância sonhei ser médica obstetra, a anfitriã dos bebês no Planeta. Cresci ouvindo a história de que fui salva por um médico. Talvez eu quisesse fazer por outras crianças o que ele fez por mim, mas pouco antes do vestibular os medos do sangue e de trabalhar em corpos mortos me assombraram. Apesar de amar os bebês, eu não tinha a menor condição de recebê-los.

Parece-me que o nosso dom tem mais a ver com as nossas reais aptidões, com o presente divino, do que com os nossos sonhos infantis.

Então, perguntei-me, com sinceridade: o que gosto de fazer e flui naturalmente? O que me dá prazer? E a resposta foi: escrever. Assim, tornei-me jornalista.

Acredito que a menina que se apaixonou pelas palavras fez a escolha certa e que o período sabático me preparou para incorporar o meu chamado, com responsabilidade e amor.

Sinto-me feliz por escrever e muito grata por poder compartilhar. Continuo acreditando que o que é realmente importante na vida volta e pede uma nova chance.

E você, qual é o seu dom? Você está a serviço do seu chamado?


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: iakovenko / 123RF Imagens



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