O SegredoRelacionamentos

Quando a gente precisa esquecer alguém…

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Hoje eu vim trabalhar com o seu casaco. Ele é grande demais pra mim, mas tava sentindo frio e, por coincidência, ele tava dobradinho no topo da gaveta de casacos. Hoje ele me escolheu, como se eu fosse um Harry Potter desbravando o Beco Diagonal em busca de uma varinha. Dizem que quando a gente quer muito uma coisa, o mundo dá um jeito de botar essa coisa no nosso caminho. Não tinha pelo de unicórnio nem pena de Fênix, mas tinha o seu cheiro. Vesti exatas doze vezes, perdi a hora, amor, nem sei que horas cheguei no escritório. Mas fui vestindo você, decidida.

Senti como se fosse você puxando o freio de mão, senti como se fosse respondendo as minhas mensagens e tomando o meu café. Senti-me tão feliz que até acertei a colocação pronominal dessa frase. Senti um monte de coisas, eu ria e olhava pra fora do carro. Eu ria e estacionava aqui pertinho pra entrar no prédio. O espelho da garagem gritou pra mim que você não me vestia bem, as meninas da recepção disseram o mesmo, recebi três mensagens antes de chegar no meu andar tentando me convencer de que você não caía bem. Não cai, eu sei disso, eu vejo isso, mas não são eles que sentem o que eu sinto. E eu fui sentindo você.

Hoje eu sentei numa mesa diferente e pedi um táxi pra almoçar num lugar que eu gosto. Mas você não tava dirigindo? Tava, meu bem, mas queria ir abraçada com você lá atrás sem sentir como se você tivesse no volante, porque você mudaria a rota pra outro restaurante. Mesa pra dois? Engoli em seco e pedi uma mesa pequenininha no canto. Larguei você numa cadeira e fui comer sozinha. O que você quer? Não tem ele no menu, então me traz um vinho tinto que mancha a boca da mesma forma. Traz um tipo de saudade que vocês não vendem aqui, por favor. Pedi um café sem açúcar e desceu tão forte, tão amargo, tão como deveria ter sido e não foi que meus olhos marejaram. Vesti você de novo.


Demorou até chegar em casa. Demorou pra passar o dia. Demorou pra eu borrar os olhos num Coldplay em volume máximo a 100 por hora. Nem sei se acertei na baliza, mas sufoquei. E já tá quente aqui em casa, já tô aquecida e foi essa a sensação que você sentiu quando não mais precisava de mim? Eu achando que você era o seu casaco, mas era eu. Sempre fui eu. Fui tão eu que você o deixou aqui pra ver se eu me aquecia sozinha. Ele nunca foi você, só era seu. E você deixou pra trás. E você me.

Dizem que quando a gente quer muito uma coisa, o mundo dá um jeito de botar essa coisa no nosso caminho. De vez em quando, acontece a mesma coisa quando a gente precisa esquecer alguém.

Guardei você no fundo da gaveta de agasalhos e dormi sozinha. Sinto frio, confesso. É melhor ir me acostumando com isso porque vai ser assim. Não tem você, não tem seu cheiro, mas é mais honesto. É muito mais sincero admitir que você podia, mas não me escolheu, não é um casaco que vai mudar isso, você não vai voltar pra buscar a gente porque.

Não é a gente que escolhe a varinha, é ela que escolhe o dono. Igualzinho o amor.


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Postado Originalmente em: Entre Todas As Coisas

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