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Quando alguém se vai, o amor fica e o torna insubstituível

Para cada pessoa que morre, existe um círculo de feridos com essa dor, essa angústia, essa mistura de tristeza e protesto que nos contagia sempre que sabemos alguém se foi. 



A gente vai embora. Desculpe-me lembrá-lo. Eu, você, seus amigos… Sabemos disso desde o começo, mas toda vez que lembramos dessa partida, isso vem como um susto, algo inesperado. A notícia se alastra como os vírus que vemos na televisão: primeiro a família, amigos próximos, colegas de trabalho…

Para cada pessoa que morre, existe um círculo de feridos com essa dor, essa angústia, essa mistura de tristeza e protesto que nos contagia sempre que sabemos alguém se foi.

Parece mesmo muita injustiça ser tirado daqui sem aviso prévio. Nós vamos e não levamos nem uma escova de dente, que dirá os móveis planejados, a conta bancária, os diplomas que batalhamos tanto para conseguir. Vamos e deixamos inclusive esse corpo de que falamos mal, quando nos olhamos no espelho, e o cabelo, que cresce deixando raiz.


Estranhamente, boa parte do que nos preocupa importa pouco ou muito pouco para quem fica. As rugas na testa, os sinais no colo, a gordura localizada, contra a qual travamos batalha, o nosso cargo ou a falta dele.

Seremos lembrados por coisas mais simples, como a amiga que sabe guardar segredos ou aquela que fazia todo mundo rir, como quem se mantinha firme na tempestade ou fazia do seu coração um abrigo.

Por mais que o sucesso seja reverenciável, nossos outros papéis contam mais: o de filhos, de pais, de vizinhos de prédio ou companheiros de canastra. 

Só não digo que deixamos tudo porque ficam as relações. Ficam os exemplos, as bandeiras que defendemos, aquilo que ensinamos. Ficam, acima de tudo, os que ficam sem uma parte. Enquanto nos contorcemos em busca de propósito, aqueles que nos amam têm muito claro o quanto significamos. Parece ironia ter de seguir em frente com esse buraco, mas a vida é religiosa em seguir acontecendo.


Com o passar do tempo, a dor dá lugar a algumas certezas: a certeza de que precisamos convidar mais gente para nossas festas de aniversário, de que precisamos responder a mensagens de amigos com mais urgência, a certeza de que os nossos planos, mesmos os mais estruturados, são apenas uma possibilidade e que o nosso tempo não é garantido.

Muita gente, eu levo dentro de mim, as quais preciso que estejam bem para eu ter um dia feliz. Tios, primos, amigos que fizeram parte das minhas aventuras de colégio e outros com quem convivi muito pouco, mas o suficiente para conquistarem o meu carinho para sempre. Nossas conexões mais relevantes não precisam de internet. Há muita gente que eu amo sem dizer e que me alegra pelo fato de existir.

Eu cresci ouvindo que “Deus é amor” mas, desde a adolescência, eu prefiro o contrário. No meu pouco entendimento, o amor é Deus. É essa troca, é esse se importar que dá sentido à nossa existência. O amor está aqui, claro, consistente, falível (porque somos humanos), mas incontestável. O amor nos torna insubstituíveis e inevitavelmente vulneráveis, dá-nos base, esperança e direção.

Um dia, voltaremos para o Universo com o mesmo descompromisso com que chegamos aqui. Nós vamos; o amor fica. Amor não precisa de corpo.


 

Direitos autorais da imagem de capa: Yassine Zbir/Pexels.

Deus se revela em tudo ao nosso redor. Veja, sinta, confie!

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