AmorO SegredoVida

Quando eu soube já era amor

Eu soube que era Amor no dia em que o seu cheiro não saiu de mim. E se assemelhou às manchas de vinho no tapete da sala que nem mesmo a lavanderia aqui da esquina foi capaz de tirar. A diferença, claro, é que eu não ganhei uma bronca por ter sido invadido pelo sentimento. Num movimento meio distinto disso, uns amigos me deram tapinhas nas costas e outras pessoas me disseram “coitado”. Coitado delas, isso sim, por chegarem a uma fase da vida em que constataram que estar apaixonado é um estorvo, não uma bênção.



E foi ali, entre um abraço na camiseta, que continha o seu inconfundível perfume e que eu não pus pra lavar durante uma semana inteira, e os sete dias até nos vermos de novo, que descobri a força descomunal que exerce sobre qualquer ser o tal do “Amor”. Me peguei rindo pro teto, conversando com as paredes, gritando para os relógios que corressem com a hora e, por fim, serenei na meia hora em que fiquei dentro do carro esperando que você descesse e me encontrasse com um riso frouxo em meio a um buquê de lírios.

Naqueles trinta longos minutos eu percorri toda a minha vida pensando em como nada tinha dado certo com outra pessoa para que aquele exato momento culminasse nas três palavras que sentenciam qualquer pessoa a uma nova etapa de sua caminhada. Lembro que, inclusive, levei um cartãozinho com os dizeres caligrafados e pensei em te entregar, mas fiz em mil pedacinhos ao me dar conta de que era muito melhor te olhar nos olhos e dizer. E você abriu a porta no exato instante em que rasgava o último quadradinho de papel e me perguntou o que eu estava fazendo.

– Me declarando – eu disse.


E você riu, me chamando de bobo e dizendo que se sentia aliviada, então, por entender que era recíproco tudo aquilo que também sentia seu coração. E eu, aceitando o meu papel de bobo e maluco por você, te perguntei como sabia o que eu iria declarar se não tinha dito mais nada. Poderia dizer qualquer coisa, até mesmo que tudo estava acabado. E aí, me beijando no rosto e colando de novo em mim o cheiro que me fez entender tudo, disse calmamente:

– Você não estaria com um buquê das minhas flores preferidas e há meia hora me esperando se não fosse pra dizer que me ama. E, sendo assim, me alivio ao saber que eu amo e sou amada. Desculpa ter feito você esperar tanto tempo.

E eu, atônito, liguei o carro sem conseguir responder que eu não esperei tanto tempo assim. Talvez apenas uma Vida inteira.

 


___

Originalmente Publicado em Gustavo Lacombe

Por uma vida com mais celebração e menos celebridade

Artigo Anterior

Quanto mais grossa é a armadura, mais frágil é o ser que a habita

Próximo artigo

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.