Reflexão

Quando existe tensão na família, todos sentem, inclusive as crianças

Capa Quando existe tensao na familia todos sentem inclusive as criancas.

É preciso dar um basta nessa ideia de que as crianças não compreendem os conflitos à sua volta. Elas sabem e podem levar traumas disso para a vida.

Não é estranho ouvir de adultos responsáveis por crianças pequenas — seus pais, avós, irmãos ou tutores — que elas ainda não entendem o que está acontecendo à sua volta, por isso não há mal algum em conversar sobre certos assuntos ou até mesmo terem discussões acaloradas na frente delas.

Essas pessoas sustentam esse argumento numa velha crença de que crianças não têm percepção aguçada ainda. De fato, a pouca idade delas não lhes permite compreender os códigos do mundo dos adultos, mas muito se engana quem pensa que não entendem o que acontece; alguns diriam até que elas têm uma observação mais apurada que a dos demais.

É por conta dessa história de que crianças não entendem os conflitos à sua volta que várias delas crescem com traumas internalizados causados por tudo que presenciaram ou sentiram na infância. Em alguns casos, apenas muitos anos de acompanhamento com um profissional da psicologia é que a pessoa consegue compreender que o que a atormenta é justamente fruto daquilo que foi exposto ainda em tenra idade.

De fato, quando somos jovens não conseguimos compreender exatamente o porquê de uma situação — alguns de nós, mesmo adultos, não compreendemos —, e isso deveria ser mais um motivo para preservar as crianças.

É preciso entender, de uma vez por todas, que os pequenos conseguem sentir as tensões familiares e que justamente para eles esse processo pode ser mais difícil.

De nada adianta discutir como se o pequeno não fosse entender o que acontece no seu lar. É preciso afastar o menor do olho do furacão, lidando com os problemas em ambientes e em momentos em que a criança não seja diretamente afetada. Ainda assim, a situação atingirá a criança de alguma forma, pois por mais protegida que ela esteja, as mudanças que virão desse momento — positivas ou negativas — interferirão na visão de mundo dela.

Você pode estar confuso agora, pensando que é melhor fazer como antes, discutir na frente da criança, já que de qualquer forma ela será atingida, certo? Errado!

O objetivo dos responsáveis não é blindar o pequeno do mundo, até porque isso não seria possível em nenhum cenário, mas sim garantir que o impacto das intempéries da vida seja o menor possível para que ele consiga lidar com elas da melhor forma que sua pouca idade permitir. Entre os trabalhos de quem cria uma criança está o de oferecer colo e respostas para perguntas do pequeno sobre este mundo tão cruel em que vivemos, que nós mesmos podemos não entender, mas ao menos aprendemos aos trancos e barrancos ao navegar.

Às vezes, não haverá como preservá-la, a tensão tomará conta do lar da família, é compreensível. Este texto não tem o intuito de que pais e responsáveis se disfarcem como super-heróis para proteger seus filhos, isso seria cruel. Por vezes, essa tensão é parte do processo que a família precisa passar para chegar a uma nova fase.

Nestes casos, compreenda que a criança percebe tudo, então é melhor que ela ouça de você diretamente o que está acontecendo do que ficar confusa, tentando interpretar as sensações.

Sente-se com seu pequeno e, em termos que ele possa compreender, tente lhe explicar o que está acontecendo. E aceite que, ainda assim, o sofrimento venha.

Se a tensão está sendo causada pela morte de um ente querido ou uma separação, a criança tem todo o direito de estar chateada. Essa conversa mais direta vem no intuito de ajudá-lo a compreender o que sua família está passando, incluindo-a como um membro dela.

Se as crianças conseguem sentir tudo e perceber tudo, do bom ao ruim, nada mais justo do que ter um diálogo franco com elas sobre o que está acontecendo.

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