Quando a pessoa que amamos torna-se um desconhecido…

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Há um provérbio que diz: para conhecer verdadeiramente uma pessoa é preciso comer um quilo de sal junto com ela. Em média, é necessário pelo menos um ano juntos para consumirmos um quilo de sal.



É tempo, mas só conhecemos alguém de forma mais inteira e profunda depois de um longo convívio e onde um quilo de sal já tenha preparado inúmeras refeições ao longo desse período juntos.

Mas será mesmo que basta apenas um quilo de sal? Quanto tempo demoramos para conhecer a nós mesmos? Temos fragmentos escondidos de nós mesmos, nas profundezas de um inconsciente que nem sempre deixamos emergir. Como esperar que nosso parceiro seja uma alma transparente e completamente conhecida por nós? Ilusão nossa achar que dominamos os esconderijos da alma de quem amamos. Não pense que eles existem, porque existem!

Quando achamos que o outro é um território conhecido e dominado, uma surpresa, um comportamento inesperado, uma mudança de planos, uma traição ao projeto de vida em comum, nos demonstra que não conhecíamos o outro. Somos invadidos por uma sensação de descrença, perdemos o chão de nossas certezas, as raízes da relação são cortadas como se nunca tivessem existido.


Até que ponto o outro não foi uma ilusão de algo que criamos? Até que ponto em anos de convívio, numa mistura entre simbiose e cumplicidade, enxergávamos parte de nós no outro, qualidades que eram nossas e muitas vezes eram reproduzidas pela mistura da gente com o outro. Talvez, a pessoa que supúnhamos conhecer e amar, nunca tenha tido certas qualidades ou gestos de caráter e lealdade que eram mais nossos que do outro.

As pessoas não mudam, elas talvez nunca tenham sido o que achávamos que eram e o que julgávamos conhecer. Há um trecho da peça Hamlet, de Shakespeare, onde Hamlet insiste para que Guildenstern toque uma flauta. Este recusa-se, afirmando não dominar a técnica do instrumento. HAMLET – “Pois veja só que coisa mais insignificante você me considera! Em mim você quer tocar; pretende conhecer demais os meus registros; pensa poder dedilhar o coração do meu mistério. Se acha capaz de me fazer soar, da nota mais baixa ao topo da escala. Há muita música, uma voz excelente, neste pequeno instrumento, e você é incapaz de fazê-lo falar. Pelo sangue de Cristo!, acha que eu sou mais fácil de tocar do que uma flauta? Pode me chamar de instrumento que quiser – pode me dedilhar quanto quiser, que não vai arrancar o menor som…”

Uma pequena flauta não é fácil de tocar, requer tempo e dedicação para que consigamos tirar dela toda a expressão da alma do instrumento. Como podemos ser ingênuos a ponto de achar que podemos conhecer alguém por inteiro. Somos a mutação permanente, que o amor vai se moldando para aquilo que o outro se torna e ainda assim, o queremos ao nosso lado. Depois de anos juntos, mudamos muito e vai mudando também o amor.


Quando quem amamos se torna um verdadeiro desconhecido, pode ter sido a gente que se enganou e criou uma pessoa irreal, na projeção do nosso amor. Ninguém que amamos e conhecíamos tão profundamente muda tanto até se tornar um estranho.

Estranho fomos nós que comemos quilo de sal atrás de quilo de sal, sem se dar conta que havia muito mais ilusão que amor, que havia muito mais acomodação que amor, fingíamos não ver o que era líquido e certo, a pureza de nossas almas viam miragens no meio do deserto.

Ao final, morremos de sede, sede de um amor que era sal, mas nunca foi água pra manter-se vivo.

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