Reflexão

Quando um pai abandona seu filho, as feridas que lhe provoca serão sentidas por toda a vida

Por que a sociedade permite que um pai abandone o próprio filho, deixando-o como segunda opção, como se não fosse responsável por aquela vida?



O número de crianças sem o registro do pai na certidão de nascimento cresce a cada ano, como mostram os dados do Centro Nacional de Informações do Registro Civil (CRC). Em 2018, 5,74% dos registros dos nascituros ficaram sem o nome do pai; em 2019, esse número subiu para 6,15%, e, no ano passado, cerca de 6,31% das crianças foram abandonadas pelo pai.

Esse número corresponde a 80.904 crianças que, provavelmente, nem sequer vão conhecer o próprio genitor. Segundo levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de 2019, mais de 5 milhões de brasileiros possuem o campo “pai” na certidão de nascimento em branco, mas esse número não retrata, necessariamente, a verdade. Existem muitos homens que chegam a registrar os filhos, mas não passam disso, deixando a mãe em completo desamparo financeiro e emocional.

O abandono é sistêmico e mostra uma sociedade que corrobora a ausência de responsabilidade paterna, enquanto obriga as mulheres a lidarem com a maternidade de maneira sempre sobrecarregada.


Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nos mostram que aproximadamente 12 milhões de mulheres chefiam lares sozinhas, sendo que 57% delas vivem abaixo da linha da pobreza.

Mas o abandono paterno também se enquadra em violação dos direitos da criança, já que é considerado um descumprimento dos deveres e obrigações do poder familiar, e está previsto tanto no artigo 229 da Constituição Federal Brasileira quanto no artigo 19 do Estatuto da Criança e do Adolescente. As crianças precisam receber cuidados dos seus pais, mas acabam passando por traumas sem que os adultos sejam responsabilizados judicialmente por isso.

Tem-se como crença que uma criança precisa da mãe nos primeiros anos de vida e, claro, isso é a mais completa verdade, mas não devemos fazer disso um pretexto para simplesmente abandonar o infante, sem nem sequer prestar apoio à mulher. É preciso que os homens participem da criação infantil tanto quanto as mães, independentemente de serem casados ou não com as genitoras, já que isso pouco importa.

Num mundo ideal, pais e mães transmitem seus valores aos filhos. As mulheres não ficam extremamente sobrecarregadas, precisando chefiar o lar, trabalhar fora e lidar com todas as demandas das crianças.


Esse é um assunto sério, que impacta a vida de vários indivíduos nas diferentes esferas sociais. Empregadores, por exemplo, acham-se no direito de não contratar mulheres que têm filhos ou pagar menos para elas, já que podem “engravidar algum dia”.

A obrigação de cuidar dos filhos já é tão automaticamente creditada às mães, que vemos as mulheres perdendo espaço no mercado de trabalho, enquanto batalham sozinhas para dar o melhor às crianças.

Enquanto isso, os homens seguem a vida quase sem obrigações, não precisam assumir as obrigações com os pequenos, se isso não for do seu agrado, não precisam estar presentes emocionalmente e fisicamente nem prestar nenhum tipo de satisfação.

As crianças crescem achando que isso é normal, vendo que a maioria dos pais não têm as mesmas responsabilidades que as mães. Naturalizar o abandono paterno não pode acontecer, assim como devemos compreender que registrar e pagar pensão não é estar presente. Os filhos precisam compreender que os pais se eximem do trabalho do cuidado por opção própria, porque quem tem interesse sempre dá um jeito de se fazer presente e ser importante.


Desejamos um mundo onde homens e mulheres sejam responsabilizados de maneira igualitária pelo cuidado das crianças, assim, definitivamente, veremos menos adolescentes e adultos precisando lidar com cicatrizes profundas e traumas complexos oriundos do abandono.

Não é justo que uma criança precise se sentir culpada pelo fato de seu pai ter ido embora ou por não ser bom o suficiente e nem sequer fazer questão de lhe dar amor. Pais, responsabilizem-se!

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