ComportamentoO SegredoReflexão

Quanto nos custa um pouco de humildade?

Esta é a história de uma paciente em luta contra o ego, o orgulho. Quantas vezes nos deparamos com situações limite que só requerem de nós um pouco de humildade, de revermos nossas atitudes, de termos coragem de pedir perdão?



Ela fumou duas carteiras de cigarro por dia durante 28 anos e hoje luta para não perder uma perna. Está num leito de hospital faz nove dias. Não sabe se a irritação que sente é por causa da abstinência ou se foi o cigarro que lhe deixou com o pavio curto. Só sabe que o vício deve ter culpa nessa história.

Hoje mesmo já brigou com o filho e o marido pelo telefone e vai passar o final de semana sem visitas. O homem avisou que não tinha dinheiro pro ônibus, que precisava terminar um serviço pra conseguir a passagem. Ela então lhe disse que não precisava mais vir. E desligou o telefone. Contou que adorava bater o telefone na cara dos outros.

Mas depois se arrependia. Sugeri então que ligasse e pedisse desculpas. Ah, isso disse que não conseguia. Nunca pedia desculpas. Só a Deus. Contou que sempre fora assim. Irritada. Devia ser o cigarro.


No trabalho, não levava desaforo. Quantas vezes já falara poucas e boas. Depois pegava a bolsa e saía. Disso também gostava. Mas sabia que não era bom, pois tinha que arrumar outro serviço. Revela que até tenta se controlar, mas quando vê, já falou tudo. Parece que uma voz bem na nuca vai lhe instigando. E ela explode de novo. Conta como certa vez brigou com o marido e quebrou 10 copos, um atrás do outro, atirando-os contra a parede. Sentiu-se muito bem, me informa.

Explico que a vida às vezes nos faz parar pra pensar. Quem sabe aquela cama de hospital não era um chamado pra refletir. A primeira decisão era abandonar o cigarro. Ela concorda, mas não sabe se consegue. Quando sair do hospital e sentir o cheiro do cigarro, vai voltar a fumar. Tem quase certeza.  Mas pensa que pode perder uma perna. E entre perder a perna e largar o cigarro, melhor parar.

Faz as contas de quanto dinheiro já jogou fora nesse vício. Dava pra comprar uma casa. Bate um arrependimento. Tento transformá-lo em decisão, busco um compromisso. Mas ela não demonstra muita confiança.  Como pode estar prestes a perder uma perna e ainda balançar a cabeça?

De repente fala do pai. Ele é o único na família que nunca pôs os pés num hospital. Enquanto a mãe vive doente. A mãe é como ela, sempre irritada. Adora se fazer de vítima. Nossa, como detesta gente que se faz de vítima. Já o pai, esse parece que sabe viver. Gosta de pegar a bicicleta e andar pela cidade. Se tem que ir ao mercado, demora umas cinco horas. Vai parando pra conversar com os amigos, jogar dominó, fazer a compra. Quando volta, está feliz. Nem se importa com as raivas da mulher.


Deve ser por isso que ela está no hospital. A irritação, a teimosia. Digo então que ela já sabe o que tem que mudar. É só dar o primeiro passo. Pode ser o pedido de desculpas quando percebe que errou. Ou se colocar no lugar do outro. Avaliar se gostaria que fosse tratada do mesmo jeito. Ela entende, mas diz que não consegue. Pedir desculpas? Nunca.

Eu insisto. Falo em libertação. De como é maravilhoso tirar dos ombros a raiva de si mesma, o arrependimento. Mas ela vira o rosto como que descrente. Melhor parar por aqui, penso. Já fomos longe demais.

Desejo melhoras. Sugiro transformar a irritação em confiança. Afinal, já se foram nove dias sem fumar. Vai conseguir. Ela balança de novo a cabeça, mexe a perna, faz uma careta de dor. Na verdade, não sabe.

Sei que a deixo absorta. Nossa conversa pode não ter sido em vão. Só me pergunto por que um pouco de humildade nos precisa custar tão caro?


Esta história se passou no Hospital de Base de Brasília, mas se repete na vida de cada um de nós de várias maneiras. O orgulho que nos impede de rever uma atitude, fazer uma mudança, pedir perdão é causa de grandes sofrimentos. A falta de confiança na transformação por meio de mais humildade em nossa vida não seria um simples medo do desconhecido? Afinal, se tomarmos uma atitude diferente, o que vão pensar de nós?  Em quem nos transformaremos? Como vamos lidar com essa nova pessoa que vai surgir a partir de um pequeno gesto de baixar a guarda?

Ninguém tem as respostas mas, como na história, se você for longe demais a própria vida vai lhe forçar à mudança. Cabe a você escolher em que grau de dificuldade quer enfrentá-la.  

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