Amor

Que amor é esse do qual tanto se fala?

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Por trás dos parágrafos afetados há subtendida a máxima “já não se ama mais como antigamente”. Textos, frases, diretas ou indiretas, sugerem recorrentemente a falência de um amor que um dia vingou. “Outros tempos!”. Exclamações metralhadas por bocas e mãos daqueles que nunca viveram outros tempos que não este. Queixas sobre o amor invadem a timeline do Facebook diariamente. Amigos queixam-se do amor nas mesas de bar. Lembro-me que por vezes sustentei e semeei semelhante discurso. Todavia, que amor é esse do qual tanto se fala?



Deito no travesseiro me perguntando sobre esse amor. Para os admiradores da arte cinematográfica e da literatura, é possível construir muitos ideais de “amor”. Desde os contos de fada que escutamos na infância, até as comédias românticas invadindo a TV aberta. Ou ainda, mais da metade da bilheteria, seja do cinema de grande público ou em espaços cults. Músicas falam de amor para amados e amadas. Livros contam histórias e enunciam conselhos sobre o amor.

Fala-se muito de amor. Fala-se muito da falta de amor e das pessoas que em outras épocas amaram mais, porque não tinham isso ou aquilo para se distrair. Fala-se de relações líquidas como se o mundo houvesse se liquefeito repentinamente, e não como se este fosse um processo secular. Usa-se nomes de filósofos, sociólogos, psicólogos, arqueólogos, biólogos, enfim, qualquer palavra de autoridade, para justificar a nossa solidão e insatisfação diante da vida cotidiana. Desde que seja apenas uma frase, um parágrafo, uma interpretação para justificar nossa dor. Conhecimento perde-se em lamúrias.

Autoafirmações úmidas pressentem tempestades. Melhor ficar só. Melhor não ficar só. Melhor respeitar quem está só. Uma questão de maturidade? Uma questão de escolha? Uma imposição social? Do que se está falando afinal? Desse amor que reclamam não existir mais, nunca ouvi falar a não ser em raros casos, desses casais afortunados, assim como alguns ganham na loteria, e outros transmitem felicidade mesmo nas fronteiras do inferno. Fora isso, vejo esse amor nos livros, nos filmes, nas músicas. Algo ideal. Sempre ideal. E até mesmo, para quem quiser de fato enxergar, nessas próprias obras artísticas, o amor romântico é frequentemente satirizado. Sutilmente, claro! Para não espantar o espectador.


Estou aqui arriscando espantar o espectador. Antigamente casava-se por conveniência, convivia-se com aqueles que estavam próximos e não com aqueles com quem se compartilhavam afinidades e afeições. A distância, a dificuldade de locomoção e comunicação levavam alguns ao isolamento. A mulher por muito tempo e em diversas culturas foi propriedade, enquanto o homem era provedor. Relacionamento homossexual era crime sem discussão. Amizades eram ilusão, o que contava era sangue, família e relações convenientes.

Acolhia-se por dever moral, e não por postura ética ou por sensibilidade. A escolha religiosa nem sempre foi uma escolha, não se podia amar livremente nem mesmo suas crenças. Poderia continuar a listar as adversidades passadas. Igualmente extensa seria uma lista das adversidades presentes. Deixemos o futuro onde está, desconhecido, alimentando a esperança de uma lista menor. Em meio a tais peripécias e apesar delas, em todos os tempos, vez ou outra, o amor brotou em algum lugar. E assim continua.

Tendo em vista estas reflexões, paira diante de mim o questionamento: “de onde nós tiramos essa ideia de amor da qual falamos?”. E se hoje me questiono é porque já passei por vários momentos e diferentes posicionamentos em relação a essa guerrilha solitária na tentativa de entender e viver o amor. Me pergunto se não estamos comprando inconscientemente um ideal de amor, que além de não ser o único, talvez nem seja o melhor para todas as pessoas (sempre).

Aquilo que se vem chamando de amor, se parece muito mais com os relacionamentos vitalícios pelo contrato e não pela natureza. Costumes que se enfraqueceram através de lutas políticas e revoluções culturais que ainda não cessaram. Plenamente não se vive ainda a liberdade, constitucionalmente falando. Vivemos tempos de mudanças. Mudanças que veem de algum antigamente, e que continuam fluindo pelo tempo presente em direção ao futuro.


Se hoje vivemos mudanças mais rápidas, temos mais possibilidades, recursos, informações, opções, conhecimentos, questões, e tanto o mais, não é de se estranhar que nos encontremos confusos, perdidos e doloridos diante da frustração em não encontrarmos aquele “amor da vida”, como a moça do filme, ou como o cara do livro. Nada mais previsível do que termos dificuldades de nos relacionarmos e mantermos relacionamentos, uma vez que temos a possibilidade de escolher permanecer ou não nesta condição, sem maiores prejuízos. Não precisamos mais conviver com pessoas que não suportamos, simplesmente porque escolhemos isto uma vez. Isso é ruim? Pode-se argumentar que as pessoas não se esforçam em encarar os desafios de uma relação. No entanto, eu pergunto se o fato de duas pessoas dividirem uma mesma casa, por exemplo, alguma vez significou isso.

 

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Temos ainda a convivência e a miscelânea de percepções de diferentes gerações que nos assolam, e tornam nossa noção de amor ainda mais rica de sabores paradoxais: eu tento reinventar o amor (Rimbaud, no século XVIII, também tinha essa ambição); minha mãe acredita no amor, mas não se casaria novamente; minha avó não acreditava no amor, mas não se separaria; minha bisavó não pensava em amor, era apenas uma dona de casa; minha tataravó não sabia o que era amor, porque em sua língua e em sua cultura existiam outras palavras e outros sentidos para tais sentimentos e aspirações. Para ela, o amor e o respeito pela natureza por exemplo, eram mais intensos do que o sentimento resultando da relação com outro ser humano.

Se rebuscarmos as diferentes percepções e sensações, de diferentes culturas, credos, épocas e lugares, encontraremos formas muitos distintas de amor, que as vezes se divergem e outras vezes se encontram com a nossa forma de percebê-lo hoje. É possível até mesmo, encontrar alguém da sua geração, que vive na mesma cultura e no mesmo lugar, mas que percebe o amor de uma forma diferente. Então, qual o sentido de atribuir a um antigamente ilusório um amor que, quiçá, aqueles que estiveram por lá não devem tê-lo experimentado mais ou menos intensamente do que o que experimentamos hoje?

A mudança, o caos, a liberdade (sempre relativa), as escolhas, as rejeições, as dificuldades, todas as nuanças de nossa vida giram em torno da busca daquela parceria inabalável, intensa, sublime e emocionante que chamamos de amor. Aquela vivência que altera o ritmo da respiração, que embala os batimentos cardíacos, que ocupa o pensamento, que engendra arte, que semeia sorrisos e colhe gratidão. Se não todos, tantos buscam por essa experiência e tantos outros se lamentam por não conseguir vivê-la plenamente, associando o fracasso dessa peregrinação sofrida ao tempo, ao espaço, às tecnologias, sempre ao externo.

De modo algum quero dizer que o mundo em que vivemos esteja livre de defeitos. Pelo contrário, é certo que questões gerais e globais nos afetem nas nossas mais intimas atividades cotidianas. A própria condição de sobrevivência determina muito dos rumos que tomará nossa vida, que por vezes pode parecer um beco sem saída, de modo que acabamos nos entregando à pelo menos 8 horas diárias de infelicidade garantida.


No entanto, não é deixando de encarar o presente no presente que vamos encontrar, seja pra nós ou para vários, uma maneira melhor de lidar com as adversidades. Talvez precisemos mesmo reinventar o amor, trazê-lo para o nosso século, para o nosso ano, para a nossa realidade, e ver as formas que ele toma por aqui. Talvez precisemos amar mais o que está ao nosso redor, em vez de buscar por ideais de beleza e de comportamentos que são ditados desde sempre, em cada época com a sua particularidade.

Uma pessoa pode amar vivendo um casamento, tendo filhos, estabelecido em um lar, fiel a uma única pessoa. Uma pessoa pode amar conhecendo diferentes pessoas, em diferente lugares e preservando em si o que cada uma daquelas pessoas tem de único e especial, sempre com afeto e carinho. Uma pessoa pode amar em silêncio, à distância, sorrindo discretamente e preferindo a companhia das montanhas.

Pode-se amar de muitas formas. Desejo acreditar que amar sempre é possível, desde que se descubra qual é a sua própria forma, em vez de se perder em uma odisseia em busca de uma espécie de amor sacralizado, que nem sempre é a forma que melhor interage com o nosso coração. No caminho, pode ser que encontremos alguém que ame como a gente.

Quem sabe se tentarmos viver o amor mais do que falamos dele, um dia consigamos descobrir de fato, que amor é esse do qual tanto se fala?


Fonte: Paula Peregrina via OBVIOUS 

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