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“Quebrado por dentro”, diz motorista após perder filho em caminhão arqueado

caminhao arqueado

Um mês atrás, um acidente na BR-116, em Curitiba (PR), chocou o Brasil. Na ocasião, Gerson Mattos bateu na traseira do caminhão arqueado de seu pai, Jetro Mattos, e faleceu, junto com sua esposa Patrícia Abreu.

Em um depoimento exclusivo carregado de emoção e saudade, Jetro conta que a família suspeita que seu filho tenha sofrido um mal súbito e, por isso, não freou a tempo de evitar a colisão. O pai também afirma que seu caminhão não desobedecia às regras do Inmetro para alteração de suspensão.

Nas redes sociais de diversos caminhoneiros, fica claro que Jetro e Gerson, ou Pai & Filho, como eram conhecidos, eram dois dos profissionais mais queridos das estradas brasileiras. São incontáveis os relatos de colegas de trabalho exaltando a cumplicidade e caráter dos companheiros. Mas, no dia 13 de janeiro, infelizmente, a jornada em dupla chegou ao fim.

“A gente acredita que o Gerson tenha tido um mal súbito no momento do acidente por alguns motivos. Primeiro porque ele sempre andava a, pelo menos, 100 metros da minha traseira. É uma distância suficiente para frear sem bater. Ele estava longe. Foi uma fatalidade, quem perdeu fui eu, mas sei que se ele estivesse em perfeitas condições teria desviado ou parado o caminhão”, lamenta o pai.

Segundo Jetro, testemunhas do acidente (entre elas quem conduzia o carro que vinha atrás de Gerson) afirmaram que o motorista não freou em momento algum após o início do engavetamento provocado por um carro de passeio – o que aumenta as suspeitas da família sobre um mal súbito.

“Conhecendo ele, a forma como dirigia, qualquer um diz que o acidente não poderia ter acontecido daquela forma. Ele estava sempre prevendo os movimentos na estrada, ligado no que acontecia à frente. E tem mais, a Patrícia, esposa dele, estava em cima dele, segurando com as mãos, como se estivesse tentando acordá-lo”, relata Jetro.

Apesar das desconfianças, a autópsia de Gerson não apontou mal súbito. A causa da morte, segundo o pai, foi falências dos órgãos causadas pelo trauma no peito.

Caminhão regularizado

Nas redes sociais, além das mensagens de condolências, Jetro também tem recebido ataques devido ao seu caminhão arqueado, ou seja, com traseira levantada e frente rebaixada. Apesar de afirmar não se preocupar com as retaliações, o caminhoneiro chegou a publicar em seu perfil no Instagram uma foto do documento do seu veículo, comprovando que a alteração na suspensão estava regularizada.

“Meu caminhão estava dentro da lei, respeitando os limites autorizados pelo Inmetro. A gente sabe que bater atrás é sempre um perigo. No acidente fui parar embaixo da carreta da frente, que tinha uma altura normal. Quase morri também”, disse Jetro.

O carinho enviado por seus colegas, no entanto, vai além das palavras. Vários caminhoneiros influenciadores criaram uma campanha para arrecadar fundos e reformar o caminhão Pai & Filho, que não tinha seguro. Mesmo com o conserto, Jetro afirma que ainda não sabe se voltará às estradas.

“Pensei em vender o caminhão para um desmanche, mas meus amigos não deixaram. Meu coração está partido, estou quebrado por dentro. Eu só tinha o meu filho, era meu parceiro de todas as horas. Faz muita falta porque ele estava sempre ao lado. Foram anos de estrada juntos, e quando não estávamos viajando ele passava o dia comigo. Só ia para casa para dormir. Não sei se volto para as estradas. Já se passaram 30 dias e ainda parece que foi ontem”, lamenta o caminhoneiro, sem conter a emoção.