Quem disse que desistir é para os fracos?!

11min. de leitura

Há muitas questões que envolvem o ato de desistir. Cada pessoa sabe as suas razões, conhece o que sente, aquilo que constitui a sua realidade.

Nem sempre desistir é sinônimo de fraqueza, muitas vezes, revela força, coragem mesmo.



Quando revejo momentos em que desisti, distanciada pelo tempo, considero que, na verdade, foram atos de coragem.

Por outro lado, desistir nem sempre determina perda, pode também significar um momento de virada, de mudança de direção, sem que o saibamos de forma consciente.

Foi o que me aconteceu, certa vez.


Estávamos em 2012, precisamente, há cinco anos, maio trouxe-me esta lembrança, por ser o mês em que me reconciliei comigo própria (mês revestido de significado). Eu tinha terminado a licenciatura e estava determinada a realizar o mestrado em psicologia na universidade do Minho. Não pela opção de estudar fora, mas por ser o único meio de prosseguir um sonho teimoso e, de certo modo, egoísta, que não cabia mais em mim.

Hoje, consigo perceber, perfeitamente, que as circunstâncias da minha vida, naquela ocasião, eram mais do que desapropriadas para que insistisse nesse objetivo. Um sonho quando é grande pode tornar egoísta quem não é, o meu sonho era muito desejado, nada nem ninguém foi capaz de demover-me, ou fazer-me renunciá-lo.

Deste modo, parti em outubro com o coração apertado de uma alegria triste. Juntamente com a bagagem transportei a ilusão obstinada de conseguir viver duas vidas separadas, quinze dias lá, quinze cá. Em cada regresso a São Miguel, vinha ávida do contato com os meus, da rotina das nossas vidas, da família que, à distância, ou em presença, a todo o custo tentava manter de pé. Quando partia afogava as mágoas na leitura, durante a viagem, nos estudos que vertiginosamente tentava recuperar, na profissão que mantinha via internet, no telefone que fazia o meu coração estalar de alegria incontida, por ouvir a voz dos meus filhos. Em pouco tempo apercebi-me que quinze dias eram suficientes para reorganizar a casa e a família, não o sendo, de todo, para preparar o meu coração para a minha ausência deles, para a sua ausência em mim, durante os longos quatro meses a chegar e a partir.


Lembro-me do preciso momento em que desisti do mestrado do Minho, perto do final do semestre.

Mesmo um sonho tão grande, como era o meu, pode tornar-se pernicioso, quando o benefício em se realizar choca, inevitavelmente, no prejuízo dos outros, na infelicidade em nós. O meu sofrimento vertia seco, todos os dias, dolorosamente, para dentro. As lágrimas não doem a sair quando as deixamos escorregar pelo rosto, mas eu não ousava fazê-lo, mostrar fraqueza?! Fazia-me forte, achava que se vissem o quanto eu era forte, os outros seriam fortes também e eu conseguiria alcançar o meu sonho, pobre tola, a que preço, meu Deus?

Tomei consciência da decisão de desistir, mesmo contra a minha própria vontade, sem, contudo, que existisse um motivo isolado que o determinasse. O momento em que se decide desistir é o mais doloroso de todos, mas, para mim, não foi.

Talvez, por isso, eu não soubesse precisar um motivo, ao certo, para a minha decisão: a nota baixa de uma frequência – teria eu realmente me preparado? A voz ingénua, estouvada e impaciente da Gabriela ao telefone a dizer “beijinhos, vou brincar com a mamã”, ouvir-me em modo ”histérico” gritando para a linha desligada “A tua mãe sou eu!”, minha avó, entretanto, ficar acamada, minha mãe sobrecarregada, o André entre conversas referir, sem querer, “Sou eu quem sente mais a tua falta!”, o acidente, semiencoberto, do meu marido, o impessoal tema de tese que escolheram por mim, o cansaço acumulado associado à gravidez, maternidade, estudo e trabalho, a desregulação emocional a “ganhar terreno”…

O momento em que se decide desistir está associado ao preciso segundo em que, de forma consciente, sentimos que não dá mais, já não merece a pena, e, então, abrimos mão daquilo que, até então, era-nos tão caro, mas já não merece o sacrifício.

É um momento que nos fica para sempre! Quando finalmente pensei “Vou desistir”, sabia que já tinha desistido muito antes, por isso não houve lágrimas, nem ressentimentos, nem a quem colocar culpa. Foi uma decisão minha, como tinha sido minha a decisão de ir. Apenas desisti.

As lágrimas só chegaram muito mais tarde, quando verbalizei, pela primeira vez, a palavra “desisto”. Chorei, numa primeira fase, sozinha, vagarosamente, cada vez que formulava em voz alta a palavra “Desisto”, ao ouvir-me dizê-la, repetidamente. Chorei depois covardemente quando fingi ser forte e a repeti ao telefone, a cada pessoa, e me debati com a resistência que faziam há minha decisão.

Mas chorei muito mais, desalmadamente, demoradamente durante a noite, daquele choro que choramos tão baixinho e estrangulado que até dói a garganta. Um choro abafado para não incomodar a colega de quarto, e porque se tratava de uma dor só minha, que era egoísta e não queria ser partilhada. Naquele momento, só eu sabia o quanto me custara desistir e ainda que soubesse ter insistido o suficiente para o saber, nem mesmo assim a dor cessava de doer, a dor estava a ver-me virar as costas ao sonho para sempre. Por fim adormeci, de cansaço, e ao amanhecer terminou tudo, ou quase tudo.

Esperei com serenidade o dia da partida e só voltei a chorar, de forma contida, no momento em que fiz as malas e empacotei, à pressa, os quatro duros meses em que carreguei ao colo o meu sonho agridoce, como que se de uma vida se tratasse. Fui fazendo o meu luto, dia a dia, sabendo que nunca mais arriscaria sonhar tão longe, não me permitiria errar outra vez…

Assim, tudo o que chorei no dia em que que partilhei a decisão de desistir, não foi senão aquilo que contive no momento em que me consciencializei que desistiria.

Depois de declarar essa decisão já nada nem ninguém me convenceu a ficar, embora todo aquele pranto desse a entender a todos o contrário.

Quando regressei, no final de janeiro de 2012, nem por uma só vez me arrependi de ter desistido, mas só em maio perante o Senhor Santo Cristo, encerrei definitivamente esse ciclo, senti alivio. Aprendi muitíssimo com esta experiência, inclusive que a minha decisão de ir para o Minho tinha sido péssima. Ponderei a oportunidade que tive, e a posterior desistência, lamentando pelas colegas a quem esta oportunidade passara ao lado, fiz as contas ao gasto inútil de dinheiro, mas ficou em mim uma certeza maior, a de que nenhum sonho, por maior que seja, sobrepõe-se ao amor que sinto pela minha família.

Satisfaz-me ter passado por tudo isso, a nossa vida é uma constante aprendizagem. Talvez se eu não tivesse dado aquele passo, e seguido o meu coração, não pudesse hoje afirmar que sou uma psicóloga convicta e que o amor que sinto pela psicologia é genuíno e transcendente,  que acredito imensamente no poder desta ciência, que me pagam para trabalhar em estatística mas sou eu que me pago para trabalhar em psicologia, e que a recompensa emocional é superior à monetária sempre que acrescento valor à vida das pessoas, sempre que elas ultrapassam o medo e se deixam tocar pelo meu coração.

Descobri que sou mais forte do que pensava, e que é preciso muita coragem e altruísmo para desistir de algo, que, afinal, sempre esteve vivo em nós. Aprendi mais ainda, que desistir é sempre a melhor opção, quando o insistir em continuar já não nos faz feliz.

O livro da vida é, verdadeiramente, fascinante. Cada virar de página tem sempre um porquê, ainda que inconsciente para nós, há uma explicação lógica ou espiritual para tudo o que nos acontece. Por vezes uma fase termina, apenas para que se inicie uma fase melhor. Um ciclo se fecha, mas outro se abre, de imediato, que pode até ser melhor, mais gratificante. Não devemos por isso criar resistências conscientes ao fluir da vida, grandes são os desígnios da nossa mente e maiores ainda são os do universo, ainda que não os conheçamos.

É esta a magia contida no viver, é este o dom maravilhoso que constitui a vida, é esta a promessa que nos traz a noite, a de que o dia desperta sempre, a cada madrugada, e que até as noites de tempestade podem converter-se em dias de deslumbrante beleza.

Possuímos o livre arbítrio traduzido nas nossas escolhas, as escolhas que fazemos para a nossa vida, mas estas nunca terão o poder de excluir as escolhas que a vida tem reservadas para nós. É esse também o enigma que estamos por descobrir.

Abraço de coração para coração!

17-05-2017, Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores – Portugal

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Direitos autorais da imagem de capa: warrengoldswain / 123RF Imagens

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