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“Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia” – Guimarães Rosa

A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. – Guimarães Rosa

“Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia”. A primeira vez que li essa frase escrita por João Guimarães Rosa entrei em um momento de profunda reflexão.


Na ocasião, o cenário da minha vida estava em completa desordem causada pela morte do meu único filho, no ano anterior, e pela recente separação conjugal após 12 anos de convivência.

Comecei a ponderar o que poderia significar essa supracitada busca e interpretei-a como a própria anDança da vida e seus percalços.

Em seguida, o questionamento: Mas fui eu quem elegeu a dita cuja?

A resposta afirmativa foi certeira. A despeito das minhas condições inatas e das adversidades que excedem o meu controle, possuo a liberdade de articular limites e possibilidades na construção diária do meu caminho, assim como o protagonista Riobaldo, do Grande Sertão: Veredas.


No entanto, ao mergulhar de cabeça na primeira e mais importante das obras de Guimarães Rosa, percebi claramente e de modo afim o quão dicotômico o mundo pode se apresentar, através do grande misto entre bem e mal, amor e guerra, Deus e o diabo na terra do sol. Afinal, o maior e mais pleno amor do mundo, cujo acesso me foi permitido através da maternidade, trouxe-me também a maior dor, ao experienciar de forma completamente impotente a morte deste a quem outrora dei à luz.

Então, será que é por isso que muitas vezes pensamos em recusar a travessia? Sim, talvez essa dicotomia seja a causa (ou uma delas) de literalmente engasgarmos diante de algumas decisões.

Pode ser que o medo do desconhecido, do fracasso, da decepção e da dor nos impeça de prosseguir em uma rota verdadeiramente autêntica. Rosa foi magnífico ao abordar esse tema quando descreveu um jagunço do sertão tentando entender algumas passagens impressionantes de sua vida, por exemplo, como ele adentrou o mundo da jagunçagem. Ao mesmo tempo em que se apresentava a postos para a guerra, Riobaldo refletia filosófica e poeticamente sobre questões ligadas ao acaso da existência, ao destino, à impermanência e às escolhas e suas motivações. Alguém se identifica?


O tal jagunço conhecia esse sentimento perturbador que nos acomete quando algo que foge ao nosso controle e nos atravessa o caminho faz-nos querer recusar ou desistir da jornada original. E foi nesse contexto que ele declarou ‘O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. (pág. 448).

E o que é a coragem, senão agir com o coração? Sim, termos a audácia de validar o desafio de Sócrates, conhecendo a nós mesmos e descobrindo genuinamente nossas reais crenças e valores, ao mesmo tempo em que atentamos para o fato de que tudo é fluxo, vereda, travessia…

Por isso, sugiro abrir mão das certezas, apostar no construir-se, no fazer-se, no transformar-se e, por que não, no remendar-se?

De modo estratégico, consciente e ousado, lembrando que o tempo é uma dádiva e, por isso, o chamamos de presente.

Não, não podemos recusar a travessia, pois já elegemos a nossa busca, e o compromisso mais saudável não é o que está livre de dúvidas, mas o que existe apesar delas. Se por algum motivo você cansar, faça como eu, aprenda a descansar, não desista.

Enfim, o que desejo para todos nós é a simplicidade corajosa descrita em uma das muitas máximas de Guimarães Rosa: Porque eu só preciso de pés livres, de mãos dadas e de olhos bem abertos.

Namastê!






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