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QUEM EU FUI TERIA ORGULHO DE QUEM EU SOU?

Li isso já algumas várias vezes e não consegui encontrar a autoria do pensamento. Bem, o que, de fato, importa é em que tal ideia nos leva a pensar. Porque quando nos perguntamos se a criança que fomos se sentiria orgulhosa do adulto que nos tornamos, passa um filme na cabeça, aparecem umas imagens da gente bem pequenininho, no colo da mãe, nos ombros do pai, carregando o primeiro cachorrinho no colo, brincando no quintal com os irmãos e com os primos, desenhando foguetes no chão batido com giz de lousa.


E depois a gente começa a lembrar da adolescência, das espinhas, do corpo mudando, dos namoricos e das paqueras, das viagens com a turma, das risadas, das coisas legais que fizemos juntos e das coisas nem tão legais, que a gente nem acredita que foi capaz de fazer. A gente se lembra dos professores, das temidas provas, das sonhadas férias.

Depois a gente começa a virar adulto. Aí as cenas são da gente dirigindo o carro, indo trabalhar, levando e buscando as crianças na escola, fazendo compras no supermercado, pagando as contas no banco, fazendo umas comprinhas no shopping, curtindo o happy hour com os amigos, andando de bicicleta na ciclovia, enfeitando a casa para o Natal. E aí vem a pergunta: quem eu fui teria orgulho de quem eu sou?

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Quando a gente é criança, os adultos são quase como seres abstratos. A gente tem 7 anos e olha para o primo mais velho, de 14, achando que ele é o cara mais cool do planeta, que ele sabe de todas as coisas, que ele é o adulto mais gente fina do bairro. E quando chega a nossa vez de ter 14 anos, a gente ainda se sente tão pequenino, tão imaturo, tão distante do mundo dos adultos…e isso vai se repetindo, se repetindo, até que chega uma hora que aquele modelo de pessoa cool, sabida das coisas, irreverente e descolada é a gente mesmo. E será que correspondemos àquilo que esperávamos de nós?

Essa é uma daquelas perguntas que entram pelos ouvidos e são enviadas ao cérebro, mas, chegando lá, são mandadas direto para o coração. É, não caiu nas provas do colégio, nem no vestibular, mas é uma perguntinha difícil de responder e as respostas serão diferentes para cada um de nós. Afinal, o que eu fui e o que eu sou é trilha minha, única e exclusiva nesse mundão gigante.

Então, parando para pensar sobre isso, lembrei-me de um sonho que tive quando eu tinha lá meus 14 anos de idade. Era eu, sentada ao lado de uma menininha de uns 2, não mais do que isso. E quando ela se virou para mim, era eu mesma! Eu com 14 e eu com 2. Nós duas juntas, além do tempo, além do espaço e além da razão em algum encontro mágico que só o misterioso universo um dia haverá de explicar. Não trocamos palavra, apenas nos abraçamos, assim como quem desafia o tempo, assim como quem ganha a coragem da menininha para se transformar na mulher.


E aí, então, ouso dizer que, sim, a menininha que fui se orgulharia da mulher que me tornei. É que ela não esperava nada de mim além da simples ideia de seguir sendo eu mesma. Ela me deu a esperança de um mundo melhor, o sorriso como a melhor arma, a fé de que tudo há de melhorar. Sempre.

Ela gostava de brigadeiros, cachorros, canetinhas e colo. Continuo gostando disso tudo, menininha! Mas nem é por gostarmos das mesmas coisas que acho que ela se orgulharia de mim, não…  É porque aprendi que não consigo ser adulta sem carregar essa menininha dentro de mim. É ela que me sopra umas canções de ninar quando a insônia ameaça chegar (como quando o sono fugia pela ansiedade do primeiro dia de aula), é ela que me faz lembrar que tudo passa (assim como a dor de ralar um joelho), é ela que me dá a mão quando tenho medo do escuro (principalmente em dias úteis).

É ela que me pede para ficar de pé no chão quando chegamos em casa no final do dia e é ela também que me faz trocar o salto pelo chinelo nas festas que adentram a madrugada. É ela que toma sorvete deixando escorrer tudo pelo queixo. É ela que dá umas gargalhadas gostosas de coisa nenhuma. É ela que cuida de mim enquanto eu penso que cuidei dela um dia. Então, como eu sei que ela teria orgulho de mim? Ora, ela não me abandonou…continua aqui, grudadinha em mim, do lado de dentro. Continuamos sendo! Aliás, acho que é ela que faz chover umas lágrimas de saudade dos meus olhos quando me lembro da nossa infância…

Ana Helena Lopes





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