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Regina Duarte faz 75 anos: de namoradinha do Brasil a “tia do zap”

Regina Duarte faz 75 anos

Antes uma unanimidade entre os apaixonados por teledramaturgia, agora uma controversa caricatura de si mesma: Regina Duarte chega hoje aos 75 anos colecionando polêmicas. A atriz fez uma mudança radical em sua imagem pública quando saiu da TV Globo e abdicou do título de eterna “namoradinha do Brasil”, em fevereiro de 2020, para assumir o comando da Secretaria Especial da Cultura na gestão do presidente Jair Bolsonaro.

Não durou três meses na função. Deixou a Secretaria para fazer parte da gestão da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, mas não chegou a gerir o novo cargo. Saiu de cena a atriz que cativava os telespectadores, para dar vez a uma personalidade que espalha fakenews.

Tatiana Siciliano, professora do Departamento de Comunicação da PUC-Rio e líder do grupo de pesquisa Narrativas da Vida Moderna na Cultura Midiática – dos Folhetins às Séries Audiovisuais (NARFIC), explica que a atriz tem trajetória complexa. “Se pensarmos nela como autora de sua própria vida, diria que começou a construir sua trajetória com arcos narrativos bem interessantes, depois ela se perde”, diz.

Regina estreou na TV com papéis de mulher doce e submissa. Foi em “Minha Doce Namorada” (1971) que ganhou o apelido de namoradinha do país. Quando fez uma prostituta na peça “Réveillon” (1975) rompeu com a imagem de submissão. Em “Nina” (1977), foi uma professora dos anos 1920 à frente do seu tempo. Até chegar em “Malu Mulher” (1979), na qual se discutiu temas até então tabus na teledramaturgia, como o divórcio (na época se falava desquite), orgasmo feminino, violência doméstica, aborto e virgindade. “Ela esteve junto a essas interessantes transformações. Além das novelas, Regina trabalhou em peças do Dias Gomes, dramaturgo de esquerda”, pontua Tatiana.

Em 1988, foi protagonista de “Vale Tudo”. Sua personagem, Raquel Accioli, era mãe da vilã Maria de Fátima (Glória Pires) e formava par romântico com Antonio Fagundes. Regina fez cenas que entraram para a história, como a sequência em que Raquel rasga o vestido da filha. Quando assumiu o cargo no governo, foi defendida por Glória. “É muito importante a presença dela lá”, disse. Meses depois, Fagundes não manteve o mesmo tom. “Ela está se queimando de todos os lados. O cobertor é muito curto”.

Negacionismo

A trajetória recente de Regina é uma sucessão de negacionismos. Em maio de 2020, ela minimizou as atrocidades da ditadura militar em entrevista ao vivo na CNN. Compartilhou posts antivacina, no auge da pandemia de covid-19. Foi interpretada como racista ao questionar, no dia da Consciência Negra.

Ao utilizar da fama angariada ao longo de décadas na televisão para servir a um propósito reacionário, Regina perdeu apoio até entre os amigos mais longevos. Numa das recentes pérolas, a atriz publicou uma fotomontagem de Jesus segurando a mão do presidente, quando ele ficou internado no início do ano. Na legenda, escreveu: “Me disseram que é fake, mas eu não acreditei. Para mim é vero!”.

Coube ao ex-parceiro de cena Lima Duarte a mais dura crítica: “Vivemos momentos tão gloriosos para televisão, para interpretação, para as nossas vidas. Não pode acabar assim, Regina! Capricha para não acabar assim!”, aconselhou o ator, com quem formou o mítico casal Sinhozinho Malta e Viúva Porcina, em “Roque Santeiro” (1985).

Nada feminista

Seus papéis ajudaram a construir arquétipos sociais, que fazem da telenovela um produto de entretenimento reconhecido internacionalmente pela qualidade estética e temática. “Ela acompanhou a evolução da mulher como poucas atrizes no mundo. Suas composições tornaram-se lendárias. Os três marcos da dramaturgia brasileira em Cuba, por exemplo, são ‘Escrava Isaura’, ‘Roque Santeiro’ e ‘Malu Mulher’ — e temos Regina em dois deles. Em Havana, no (bar) La Bodeguita del Medio, tem pôster de Lucélia Santos e Rubens de Falco (casal de ‘Escrava Isaura’) e de Regina Duarte, o que traduz seu alcance”, diz Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP e autor do livro “A Hollywood Brasileira”.

O pesquisador destaca uma cena em especial. “Como Viúva Porcina, só a cena antológica em que ela manda o Malta lamber sua mão já desmonta a relação do homem dominante”, diz Alencar.

Quanto aos tabus quebrados em “Malu Mulher”, em entrevista ao “Conversa com Bial”, em 2019, Regina disse que não se sentia confortável no papel de Maria Lúcia. “Nunca me declarei feminista, mesmo fazendo Malu. Eu achava que não era por aí. Eu estava achando ela muito chata, muito autoritária, muito dona da verdade, muito feminista. Aquilo que eu nunca quis ser”.

Criadora de gado

Filha de um militar cearense com uma pianista gaúcha, Regina, que diz ser conservadora, casou-se quatro vezes e teve três filhos: o diretor André Duarte e a atriz Gabriela Duarte, da união com o engenheiro Marcos Cunha; e o cineasta João Gomez, da união com o publicitário argentino Daniel Gómez. Entre 1978 e 1979, manteve união com o diretor Daniel Filho.

Seu último relacionamento foi com o pecuarista Eduardo Erskine Lippincott, com quem ficou por 18 anos. Os dois se casaram em 2002 e firmaram sociedade de uma fazenda em Barretos, interior de São Paulo. A atriz é criadora de gado da raça Brahman, uma das mais caras do mercado.

Atualmente a ex-secretária do governo Bolsonaro vive em um apartamento em Alphaville, São Paulo, na companhia de gatos e das visitas dos sete netos.

Sempre conservadora

Além de Maria Lúcia, Regina foi várias Helenas nas tramas de Manoel Carlos, como em “Por Amor” (1997), vivendo uma mulher que coloca o amor maternal à frente de tudo. Também foi a pioneira maestrina Chiquinha Gonzaga, em minissérie homônima (1999), e a popular Maria do Carmo em “Rainha da Sucata” (1990). Todas mulheres donas de si.

A popularidade de Regina foi tamanha a ponto de incomodar os militares durante a ditadura. “Geisel (presidente militar de 1974-79) achou um acinte que ela protagonizasse uma novela chamada ‘Despedida de Casado’. Olha o peso de representatividade de Regina! A novela acabou censurada”, diz Alencar.

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Direitos autorais: Reprodução/TV Globo

Agora, ao abrir mão da consolidada carreira, a atriz imaginou que teria total apoio no governo. Mas não foi o que ocorreu.

“Como ser responsável por uma pasta num governo que não apoia a cultura? Um governo que tirou apoio da cultura, falando mal da classe artística!”, diz Tatiana. A crítica é endossada por Mauro Alencar. “É um desserviço (o que está fazendo) como pessoa pública. Amo a Regina, me emociona lembrar de ‘Véu de Noiva’ (1969) e ‘Irmãos Coragem’ (1970). Mas o ator é um porta-voz social. Pela representatividade que ela tem, lamento por um posicionamento tão radical”

O que será que será

Substituída na secretaria por outro ator, o ex-Malhação Mario Frias, Regina pode supor que ao menos da memória televisiva ninguém lhe tira. Entretanto, a atriz não foi convidada do especial “70 Anos Esta Noite”, que aconteceu em dezembro e celebrou os 70 anos de novelas no Brasil. No Instagram, ela reproduziu uma manchete sobre sua ausência no especial. Por cima, a mensagem: “Regina, você é maior que a Rede Globo”.

A cultura do cancelamento é uma realidade na vida dos artistas. Regina tem perdido seguidores e, sem contrato, não tem previsão de retornar à TV. “Ainda assim, por toda sua história, é bom relativizar. Para compreender o ser humano, tem de se separar o legado artístico e a história pessoal. Ferreira Gullar dizia que a arte transforma a dor em prazer estético. Regina fez isso ao longo da vida”, defende Alencar.

Tatiana compara essa guinada pela política a uma reviravolta digna de folhetins. “Quando você pensa numa mulher de mais de 70 anos, consolidada na maior emissora do país, num produto (novela) que não é mais tão hegemônico, e vê também que o elenco mais antigo está perdendo espaço… talvez seja uma forma de ela se reinventar. Algumas guinadas são interessantes para mostrar outro lado da personagem. Só que essa escolha arranhou sua carreira artística. Até as boas novelas se perdem no caminho”, diz.

É uma saída melancólica para a atriz, que vem sendo chamada de “tia do zap”, em referência a quem espalha negacionismos em redes sociais.

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