Reinterpretando antigos sonhos…

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 Fazia pouco tempo que ela havia completado pouco mais de cinquenta anos. Num dia preguiçoso, gripada e acamada, resolveu fazer um balanço de sua vida. A ideia era  verificar  se os sonhos dos 20 e poucos anos tinham sido alcançados.



Aos vinte ela sonhava ser artista, trabalhar na ONU, conhecer muitas pessoas. Sonhava em  ser intérprete e conhecer o mundo.

Agora, sua realidade ali. Chá quente e cobertas. Olhos ardendo, nariz vermelho de tanto assoar. A caixa de lenços jogada na mesinha de cabeceira, televisão ligada sem som, apenas imagem e músicas da sua playlist tocando pelo computador.

Exteriormente, poderiam dizer,  ela não havia alcançado nenhum deles. Mas, com um pouco de amor próprio, ela começou a divagar.


Queria tanto ser artista e, dentro do fazer arte lembrou que pintou  mapas, bonecas, carrinhos.  Pintou paredes, quadros e janelas. Desenhou, pintou, bordou e inventou.  Desejou ainda, nas artes, ser cantora.  E, confirmou que o foi. Cantou em  karaokês com os amigos,  depois, canções de ninar. Cantou no coral da igreja, cantou aos berros quando suas bandas prediletas tocavam no rádio do carro enquanto ia ou voltava do trabalho. Um canto que era seu, do seu jeito e para si mesma. Não teve público. Tinha somente o seu momento.

Queria conhecer gente do mundo todo. E conheceu. Conheceu gente de todos os lugares que passavam por sua cidade. Conheceu empresários, turistas, artistas de rua, refugiados. Conheceu estudantes e intercambistas. Não precisou sair de sua cidade para encontrá-los, afinal o mundo inteiro passava por ali e era só ter a mente aberta e permitir-se conhecer e conversar.

Sonhava ser intérprete, e olhando para trás percebeu que foi. Interpretou sonhos para acalmar pessoas assustadas. Interpretou gemidos para saber onde havia dor. Interpretou choros para saber se eram de fome, alegria, tristeza ou desespero. E, para cada um, traduziu o que significavam, em um remédio possível, dentro de suas possibilidades.


Sonhou em ter grandes amores. Espirrou uma vez mais, e nesta hora entendeu que a vida lhe respondeu – sim, você os teve. Amou e foi amada. Com eles cresceu, se alegrou e também sofreu. Por várias vezes ficou sozinha. As noites de choro foram substituídas por outro amor, que deixou uma vez mais crescer e ocupar os lugares do vazio anterior. Além destes, teve certeza que amou os que estavam ao seu redor, seus amigos, seus bichos, seus vasos de plantas simples.

Amou também personagens de novelas, filmes e de livros. Amou personagens cantados em canções da moda ou nos grandes clássicos; em poesias elaboradas. Amou o que via no refletido no espelho. Amou os que tentou ajudar e os que lhe deram amor quando perdeu os seus. Por fim, teve a  certeza de que o capítulo dos amores também foi alcançado.

E a ONU, meu deus! Não havia conseguido nem chegar perto do prédio da ONU. Bom, pensou ela, ainda tenho muito tempo de vida, mas é certo que não é mais na ONU que quero trabalhar.  Renovei meu sonho. Quero apenas viajar e conhecer o lugar!

E, antes de pegar no sono por conta da febre alta, pensou seu projeto de vida dos 20 anos estava completo. Assim que melhorar  precisarei alimentar mais alguns sonhos! E, que bom que o prédio da ONU continuará lá, estanque, simplesmente o símbolo de um sonho renovado para alcançar

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* Matéria atualizada em 21/11/2016 às 3:40






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