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Relação a dois: a arte de equilibrar amor e ódio

relação a dois

Nossas expectativas não atendidas pelo outro são perdas necessárias para o amadurecimento como ser humano. – Ana Matos



Às vezes você perdoa as pessoas simplesmente por­que você ainda as quer na sua vida. Outras pessoas perdoam, mas não querem a pessoa como parte da sua vida. Muitas ve­zes, é difícil entender como cada um segue a sua vida como se o outro não existisse e nunca tivesse existido. Salvo os casos em que o término foi traumático, onde houve agressões ver­bais ou físicas, mágoas etc. Afinal, convivemos com aquela pessoa durante meses, anos, compartilhamos dores, alegrias, vitórias, derrotas, estivemos juntos na saúde e na doença, e quando se termina é como se fossem dois estranhos.

O que acontece é que cada parte sai da relação com sua percepção, sua verdade e frustrações, pois criamos ex­pectativas quando nos relacionamos. No seu livro “Perdas necessárias”, Judith Viorst diz que Freud, tratando o amor, distingue o amor sensual, que procura a gratificação física, e o amor caracterizado pela ternura. Freud descreve, também, a superestimação – ou idealização – da pessoa amada. Além disso, Freud nos lembra que nem mesmo o relacionamento amoroso mais profundo pode evitar a ambivalência, e nem o relacionamento mais feliz pode evitar uma certa porção de sentimentos hostis. Depois de certo tempo de convivência, sa­bemos muito bem como e em que “calos pisar” para ofender o outro. Sabemos também como acalmar, alisar e fazer coisas agradáveis.

A tensão e os conflitos de um relacionamento podem começar com a morte das expectativas românticas. Levamos para os nossos relacionamentos uma infinidade de expecta­tivas românticas e visões de míticos êxtases sexuais. Ainda impomos à nossa vida sexual muitas outras expectativas, muitos outros “devia ser assim”, que o ato cotidiano do amor não consegue realizar. Agora, cabe uma reflexão: essas são expectativas que nós temos; então, por que determinamos que o outro deva suprir?


Judith Viorst coloca que nossas primeiras lições de amor e a história do desenvolvimento moldam as expecta­tivas que temos num relacionamento. Geralmente estamos conscientes de esperanças não realizadas. Mas levamos tam­bém os desejos inconscientes e os sentimentos mal-resolvidos da infância, e, orientados pelo nosso passado, fazemos exi­gências em nosso relacionamento sem perceber que estamos fazendo. É por meio do relacionamento que procuramos re­cuperar os amores dos nossos primeiros desejos, encontrar no presente figuras amadas do passado – figuras paternas ou outras referências importantes em nossa formação. Nos braços do outro, procuramos unir os anseios e objetivos do desejo do passado. E, muitas vezes, odiamos o outro por não satisfazer esses desejos antigos e impossíveis. Odiamos por­ que ele não preencheu nosso vazio, porque ele não entendeu o que eu queria sem precisar dizer, odiamos porque ele não correspondeu aos nossos pedidos de socorro, ao nosso lamen­to, porque ele não foi uma mãe ou um pai.

Nossos desejos incompatíveis, nossos conflitos, nossos desapontamentos confirmam a existência do ódio na relação.

Esse ódio pode ser consciente ou inconsciente. Ele pode ser contínuo, tornando-se um martelar de raiva, amar­gura e dor, ou passageiro tornando a relação sólida. O ódio nem sempre precisa ser uma explosão, mas pode ser uma la­múria em silêncio. Como a relação é feita de momentos de amor e ódio, é no caminhar e na maneira como lidamos com nossas expectativas e as expectativas do outro que vamos construindo algo ou seguindo em direção ao abismo, ao fim e ao distanciamento para sempre, como se fossem os dois es­tranhos.

No entanto, se no decorrer da relação vamos cami­nhando para um amadurecimento, enxergando o outro com suas qualidades e defeitos, de uma forma real, trazemos para o relacionamento a capacidade de sentir empatia e carinho, de sentir culpa quando provocamos dor, de sentir vontade de reparar o dano causado e oferecer consolo, acolher.


Enquanto o outro simbolizar certos ideais com valo­res para nós, continuamos a vê-lo como uma pessoa ideal, mas essa idealização convive com o conhecimento real de quem amamos. A tendência é que esse conhecimento nos co­loque frente a frente com nossos desapontamentos, nossos sentimentos de amargura, nosso ódio. Mas também abrirá es­paço para a gratidão. Segundo Judith Viorst, é a gratidão por encontrar no relacionamento amoroso daquele momento um pouco das pessoas amadas do nosso passado, por receber o que jamais tivemos no passado, e mais, a gratidão pela sensa­ção de ser (re)conhecido, compreendido pela pessoa amada. E então, estaremos livres da cegueira de nossas expectativas idealizadas, projetadas.

Com o tempo, tomamos consciência de que não pode­mos esperar do outro a “missão impossível” de suprir nossas carências, nosso vazio, do jeito, da forma que queremos, que idealizamos. Essas expectativas perdidas são perdas necessárias para o amadurecimento do ser humano. E com o equilíbrio do amor e do ódio podemos preservar a conexão do relacio­namento “um e outro”, pois a ambivalência sempre existirá – somos dualidade, somos o todo. E assim, podemos sair de um relacionamento com lembranças de bons momentos, com a certeza de que hoje somos melhores do que ontem, e com a sensação de ter vivido, crescido, com uma pessoa que hoje não é mais nosso amor sensual, mas um amigo que fez e fará parte da nossa vida.

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