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Ridicularização de Natália no BBB mostra crueldade do racismo e padrões de beleza

Ridicularizacao de Natalia no BBB mostra crueldade do racismo e padroes de beleza

Natália teve uma noite difícil no “BBB22”: depois de passar vários dias grudada em Lucas e recebendo apoio e carinho do brother, a confinada foi obrigada a testemunhar o beijo entre o engenheiro e Eslovênia. Natália não suportou a cena e teve uma crise de choro, chegando a afirmar que pensou em desistir do reality.

Nas redes sociais, o público foi inclemente: condenações do comportamento supostamente “infantil” e “imaturo” de Natália bombaram, ao lado de memes cruéis comparando a crise de choro de Natália com a cena protagonizada por Flayslane no “BBB20”, quando ela foi abraçada por vários colegas de confinamento ao ser indicada ao paredão.

A facilidade com que Natália virou piada mostra que é mais importante do que nunca discutirmos racismo dentro do BBB22. Natália não é só uma pessoa frustrada que não aguentou ver o boy que estava interessada ficando com outra. A sister é uma mulher preta com vitiligo, que já deve ter sido rejeitada inúmeras vezes em prol de uma mulher branca. Em conversa com Maria, Natália confessou que a cena trouxe traumas antigos e outras questões, e que não suportou saber que Lucas, que estava criando uma intimidade com ela, cogitou ficar com uma mulher que ainda por cima não gosta da companhia de Natália.

A vivência de mulheres pretas na sociedade é repetidamente invalidada, e é muito mais fácil para os memes nas redes sociais colocarem Natália como uma mulher louca e ciumenta do que analisar o contexto histórico, social e racial nos quais sua experiência está inserida.

 

Ninguém tá louco!

Natália não é louca: a sister passou dias trocando carinhos com Lucas, e horas antes o brother havia dito que ela era seu “porto seguro”. Enquanto dizia isso, os dois estavam abraçados na piscina. Natália tinha todo o direito de esperar que algo mais saísse de uma interação tão cheia de afeto, e ver que Lucas não só ficou com uma mulher branca padrão, como com uma pessoa que deixou claro que não gosta de Natália, são motivos perfeitamente razoáveis para justificar uma crise de choro.

Na compilação “Intelectuais Negras – Estudos Feministas”, a teórica bell hooks fala da alienação da mulher preta em contextos afetivos: a questão, como sofreu Natália na pele, é que homens querem conselhos, apoio emocional e amizade de mulheres pretas, mas não é com elas que a maioria se relaciona, casa e assume publicamente. “É sobre o ato de amar e ser amada que se alojam as hierarquias sociais prescritas e as representações feitas a respeito do corpo da mulher negra”, explica Hooks. Quantos homens brancos por aí assumem as mulheres pretas como suas parceiras e esposas? A intenção aqui não é chamar Lucas de racista ou decidir com quem o brother deveria ficar, mas em uma sociedade como a brasileira, solidão tem sim cor e endereço.

A frustração e a dor de Natália também passam por outra questão importante: a sister tem vitiligo, doença cutânea com um conjunto de causas genéticas e autoimunes. Mesmo que pela lei brasileira Natália não seja considerada PCD, é fato que não ter uma aparência normativa mexeu com a autoestima da sister e com sua qualidade de vida. “Eu tinha vergonha, tampava, usava muita maquiagem. Foi quando realmente decidi encarar de peito aberto. Essa sou eu, é assim que eu quero que as pessoas me vejam e é assim que as pessoas vão ter que me respeitar”, afirmou Natália antes de entrar no “BBB22”. Se ver constantemente rejeitada e trocada por mulheres brancas normativas é mais um gatilho que a sister precisa enfrentar diariamente, e ver essa vulnerabilidade mais uma vez colocada em jogo, desta vez diante de todo o Brasil, é uma dor que ninguém tem direito de julgar.

Em um texto falando sobre a facilidade que o público tem de condenar Natália, a escritora Joice Berth explica que negar afeto e amor para mulheres negras é uma estratégia social de dominação.

“É uma verdade coletiva que toda mulher negra conhece muito bem. Negar amor para mulheres negras é uma das estratégias de enfraquecimento usadas pelo machismo e pelo racismo, ambos aliados de longa data. Porque a ausência de amor em nossas vidas, esse amor mercadológico/romântico, que é essencialmente excludente e convence os ignorantes de que “é questão de gosto”, e que é usado como instrumento de controle de mentalidades femininas de todas as raças, é uma forma eficiente de matar, literalmente, qualquer possibilidade de fortalecimento psíquico, nosso grande trunfo. Ou seja, é caminho pavimentado pro adoecimento”.

Desesperada após a festa, Natália ameaçou apertar o botão e desistir do reality. A sister foi impedida por Maria, que pediu que ela se acalmasse e só tomasse uma decisão definitiva pela manhã. Em um momento de gatilho, a sister quase perdeu a chance de competir pelo prêmio final. Precisamos falar sobre os fantasmas raciais e capacitistas que assombram participantes pretos. A solidão tem cor, e o racismo nunca terá data de expiração se esses assuntos não forem discutidos por quem os criou: a branquitude.

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