Saudade do tempo em que o celular não era uma extensão do braço

Tanta é a saudade do tempo em que celular não era parte do corpo, que me pego pensando: “O que será que tem nos celulares das pessoas que não se pode esperar? ”. Parece que o celular se tornou mesmo um seguimento do braço.

Vejo pessoas em restaurantes, umas de frente para as outras, todas com celulares nas mãos. Vejo motoristas pelo trânsito, com celulares nas mãos enquanto dirigem. Vejo pais com filhos em praças de alimentação dos shoppings com o celular nas mãos e os filhos tentando ganhar atenção. Vejo pessoas quase caindo dentro dos ônibus, por estarem em pé no corredor, usando o celular.

Vejo pessoas dividindo a atenção da sala de aula com o celular. Vejo pessoas tentando trabalhar e ver o celular o tempo todo. Até pessoas em entrevistas de emprego com celular na mão, vejo (mesmo que seja uma pausa, não use o celular, a menos que seja uma emergência).

Saudade daquele tempo em que a coisa mais legal que tínhamos era o visor laranja no celular. Era bom entrar em restaurantes e não ver aquela famosa cestinha “celulares aqui e ganhe desconto de 10%”.

Sou da geração que passou pela máquina de datilografia. Que viu chegar os computadores. Usei a famigerada internet da meia-noite às seis da manhã, que deixava o telefone de casa ocupado.

Acompanhei toda essa mudança da era da tecnologia que vivemos hoje. Sinceramente, não imaginava que as crianças estariam, aos dois anos de idade, em restaurantes, vendo vídeos da galinha pintadinha. Enquanto os pais, jantando, estariam mexendo cada um em seu celular.

Tenho medo de que essas crianças se tornem adolescentes carentes. Pessoas que, ao menor sinal de atenção, já se apaixonem e queiram casar e viver “para sempre” com a pessoa. Não consigo ver com bons olhos essa situação.

E claro, que eu mesma já me peguei “enjoada do celular”, de tanto ficar com ele em mãos. Conferir redes sociais quinhentas vezes. Aliás, foi sentindo isso que comecei a escrever sobre.

Veio-me uma saudade gritante do tempo em que a gente se juntava em família e o papo era “quem vai ficar com a coxa da galinha?” e ninguém dizia ‘guarda esse celular!’.

Quantas vezes vemos as redes sociais por dia? Quantas vezes vemos o e-mail? Quantas vezes vemos o que nem notificação tem mais, pois não deu tempo de atualizar? O que tem tanto nos celulares, que não se pode esperar?

Tem gente que, se não for respondida na hora, se sente mal. Acha que a pessoa que não respondeu rápido está fazendo “pouco caso”. No que estamos nos tornando? Imediatistas, carentes, viciados em celular?

Saudade berra aqui, ao me lembrar que antes, o celular só servia para ligar. E as selfies, que as pessoas fazem, cada vez mais baixando a ladeira do respeito próprio, só para ganhar likes? E a “necessidade” de ter sempre o último modelo do celular atual? O que está acontecendo conosco?

Infelizmente, estamos reféns disso, por pura mania.

Já teve que ficar sem o seu celular por roubo ou ter dado algum problema? Como foram os primeiros dias? Acredito que difíceis, mas depois se acostumou e até gostou, não foi? Estamos “apenas” com a mania do celular à mão.

Basta decidirmos voltar a conviver mais com as pessoas. Dar atenção a quem está conosco. Focar na entrevista, no trabalho. Sair para jantar e deixar o celular no bolso. Ler mais livros e ficar menos com celular em mãos.

Precisamos respirar ar puro de novo, daquele tempo em que não existia smarthphones.



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